Leituras na quarentena

Depois de um início de quarentena tumultuado, finalmente encontrei a concentração necessária para intercalar os afazeres domésticos com a leitura.

Comecei pelo livro Três Mulheres, um relato não ficcional sobre as escolhas sexuais de três mulheres e como elas afetaram suas vidas. O livro fez o maior sucesso nos EUA e foi lançado pouco depois do movimento #metoo.

Não foi uma leitura fácil. Se por um lado gostei do texto da escritora Lisa Taddeo e acho necessário falar sobre o desejo feminino, por outro lado incomodou-me o fato das personagens não se darem conta de como procuravam agradar mais os parceiros do que a si mesmas.

Com diferentes históricos de vida, era gritante a baixo auto estima dessas mulheres. E quando suas vidas privadas foram expostas, não encontraram compreensão ou solidariedade nem mesmo entre suas colegas de gênero.

Em seguida li A ridícula ideia de nunca mais te ver, da Rosa Montero. Um livro cujo assunto eu queria saber mais e ao mesmo tempo temia: a morte prematura do parceiro quando o amor entre o casal ainda não esmoreceu.

A autora faz um paralelo entre a sua experiência pessoal e a da cientista Marie Curie, cujo marido morreu atropelado por uma carruagem.

No entanto, fui surpreendida por uma leitura nem um pouco deprimente. Apesar de a dor estar presente – os trechos do diário de Marie Curie são bem sofridos -, a narrativa se abre a diversas considerações sobre o lugar da mulher no mundo contemporâneo. Inclusive, pude fazer um paralelo com a leitura anterior por também falar sobre o desejo feminino:

(…) Mas até bem pouco tempo, uma ou duas décadas atrás, o maior problema da mulher ocidental consistia em não saber viver para o seu próprio desejo: vivia sempre para o desejo dos outros, dos pais, dos namorados, maridos, filhos, como se suas aspirações pessoais fossem secundárias, improcedentes e defeituosas.”

Será que esse “problema” realmente ficou no passado? Tenho cá as minhas dúvidas. Como bem disse Lisa Taddeo:

As revoluções levam muito tempo para chegar a lugares onde as pessoas compartilham mais receitas da revista Country Living do que artigos sobre o fim da submissão feminina.”

É fácil recomendar A ridícula ideia de nunca mais te ver, mas a leitura de Três Mulheres, apesar de incômoda, é tão importante quanto.

Tudo junto e misturado

Faço anos em dezembro e os meus presentes de aniversário se misturam aos que receberei no Natal. Durante o ano vou anotando os livros que gostaria de ler, mas que por diversas razões não me permito comprar. É muita voracidade para quem tem outros afazeres e uma verba limitada.

Dei-me ao trabalho de contar quantos títulos constam da lista, são 60 no total. Dela não fazem parte os que comprei por impulso, nem os que darei de presente de Natal e pretendo pedir para ler emprestado.

Reconheço que se trata de uma lista inatingível, mas que facilita, e muito, a vida de quem não sabe o que me oferecer. Basta me perguntar e eu apresento a lista devidamente reduzida. Afinal, não quero assustar ninguém nem ser olhada com incredulidade.

Até agora já recebi:

As verdadeiras riquezas de Kaouther Adimi, um romance francês que mistura ficção e realidade, e fala sobre um tema que eu amo: livros e livrarias. (Kaouther Adimi é uma jovem escritora de 33 anos que nasceu na Argélia e atualmente vive na França)

 

Três mulheres de Lisa Taddeo, é o relato verídico, baseado numa pesquisa que durou quase uma década, sobre a vida sexual de três mulheres comuns. Um retrato poderoso do desejo feminino e como as escolhas subverteram ambientes familiares e sociais.

 

Torto Arado, do escritor baiano Itamar Vieira Junior, recebeu o Prêmio Leya de 2018. O livro acompanha as diferentes trajetórias de vida de duas irmãs, que nasceram num Brasil rural onde persiste enraizado um viver escravocrata.

A ridícula ideia de nunca mais te ver foi escrito por Rosa Montero como forma de purgar a dor após a morte do marido. Nele, é feito um paralelo com o diário de Marie Curie, no qual a cientista escreveu sobre a mesma experiência, a perda de quem se ama.

A criança no tempo de Ian McEwan é sobre o maior medo que pode passar pela cabeça de qualquer pai: o sumiço de um filho. Tenho certeza que o tema dificílimo será destrinchado com maestria por um autor que, na minha opinião, já merecia ter recebido o prêmio Nobel da Literatura.

 

Tudo que é belo: quarenta e cinco histórias reais, foi publicado pela editora Todavia e reúne histórias que foram contadas em público. Não contos de fadas ou de folclore, mas histórias verídicas que aconteceram a pessoas comuns e narradas por elas mesmas.

Sorrio satisfeita para os livros que recebi. Tenho leitura garantida para os próximos meses. Mas que livro é esse que parece bastante interessante? Trata-se Heimat, um romance gráfico, best-seller na Alemanha e vencedor do National Book Critics Circle na categoria autobiografia. Pronto, dei início à lista de 2020!

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