A glória e seu cortejo de horrores

Não cheguei a fazer o mesmo que o escritor Reinaldo Moraes que, ao terminar de ler o ultimo romance da Fernanda Torres, de tão empolgado que ficou, o leu de novo. Mesmo assim posso afirmar que gostei muito de “A glória e seu cortejo de horrores”.

Conforme já tinha feito em “Fim” – quando retratou a vida de cinco amigos moradores de Copacabana – a escritora deu voz a um personagem masculino já avançado nos anos. Desta vez, o ancião nasceu e foi criado na Tijuca, de onde “fugiu” assim que iniciou a carreira artística de ator.

É o próprio artista quem conta a epopeia, desde os tempos em que se apresentou em povoados no interior da Bahia – para conscientizar as massas populares -, aos anos gloriosos de galã de novelas e ator teatral de sucesso, até o retumbante fiasco como protagonista principal de uma encenação delirante e megalomaníaca de Rei Lear.

Mais uma vez apreciei a facilidade da autora em descrever de forma irônica e, por que não dizer, um pouco cruel, o processo de envelhecimento de uma pessoa:

A meia-idade é um período de descuidos e incertezas na vida de um homem. Na da mulher, também, mas elas, pelo menos, enfrentam calores cíclicos, depressões hormonais que justificam as escolhas tortas. O homem, não, ele continua idêntico ao que sempre foi, só que pior, cada dia pior, enxaguando os cabelos, às escondidas, com xampus tonalizantes, e enlouquecendo de amor por meninas que poderiam ser suas filhas. As mulheres são mais realistas. A natureza obriga.

Também me diverti imaginando a quem ela estaria se referindo quando incorporou tantos “causos” profissionais à vida do personagem principal.

Se a escritora – criada nas coxias do meio artístico – não tem idade para ter presenciado muitas dessas histórias, com toda a certeza as escutou serem contadas pelos pais (Fernanda Montenegro e Fernando Torres) ou por seus amigos. Porque cada episódio narrado parece remeter a algum ator real, como se tivesse “um nome com endereço certo”, algo que só os iniciados poderão confirmar.

A leitura de “A glória e seu cortejo de horrores” atiçou a minha curiosidade para outros textos. Além da já mencionada peça de Shakespeare, Rei Lear, o romance de Fernanda Torres comentou sobre outra peça de teatro: “Tio Vânia”, de Tchekhov.

O meu primeiro impulso foi comprá-la. Mas bastaram alguns minutos de reflexão para desistir da ideia. Por mais que eu resista, preciso me conformar que jamais vou conseguir dar conta de tudo o que desejo ler. E assim, o nome Tchekhov foi devidamente anotado e se juntou à interminável lista de escritores que pretendo ler um dia.

 

  • A glória e seu cortejo de horrores

Fernanda Torres

Companhia das Letras

R$ 44,90

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Hamlet ou Amleto?

Hamlet ou AmletoA obra de Shakespeare sempre me intimidou. O mais próximo que estive de uma de suas peças foi quando representei no teatro do colégio o papel de Lisandro, personagem da comédia “Sonho de uma Noite de Verão”.

De lá pra cá, só assisti a alguns filmes baseados nas suas peças, como Romeu e Julieta (1968) do diretor Franco Zefirelli; Amor Sublime Amor, vencedor do Oscar de 1962, também inspirado nos amantes de Verona; O mercador de Veneza (2004) com Jeremy Irons e Al Pacino e Rei Leão (1994) desenho animado dos estúdios Walt Disney  que faz referências à história de Hamlet.

No entanto, a vontade de conhecer o universo do maior dramaturgo de todos os tempos permanecia inalterável. Finalmente, recebi do escritor Rodrigo Lacerda o pequeno empurrão que tanto desejava.

Desde a adolescência, o autor é apaixonado pela obra do bardo inglês. Não por acaso, dois de seus romances que abordam esse universo receberam o prêmio Jabuti: O mistério do leão rampante e O fazedor de velhos.

Recentemente publicou Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos.

O livro é perfeito para quem – assim como eu – precisa de  ajuda para atravessar os obstáculos de uma leitura densa e hiperbólica.

Utilizando-se de uma prosa descontraída, o autor esmiúça as nuances psicológicas do personagem principal, explica os conflitos que surgem quando valores morais são alterados, destrincha o significado de provérbios da época, das mensagens transmitidas por Ofélia através de diferentes tipos de flores, e de frases enigmáticas como: O corpo está com o rei, mas o rei não está com o corpo. O rei é uma coisa… (não se preocupe, você vai entender quando ler)

O autor também desconstrói a famosa cena em que o príncipe da Dinamarca segura uma caveira e diz: Ser ou não ser, eis a questão… Sim, a frase foi dita. E sim, Hamlet pegou numa caveira, mas nunca fez as duas coisas ao mesmo tempo. Hamlet

Quando terminei de ler Hamlet ou Amleto? estava confiante. Agora não tenho mais motivo para não encarar a versão de Hamlet (traduzida por Millôr Fernandes) que há anos aguarda pacientemente na estante por minha atenção.

 

  •  Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos

Rodrigo Lacerda

Editora Zahar (2015)

R$ 39,90

E-Book R$ 24,90

 

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