Sem lugar no mundo

Sem lugar no mundo foi encontrado por acaso em 2010, numa barraca de caridade, na cidade francesa de Nice. A publicação de 1945 era de uma editora suíça que não existe mais. Não sei se quem o descobriu se interessou pelo livro porque no passado tinha conhecido a autora ou, se ao folheá-lo, percebeu a importância do que tinha em mãos.

Nele, Françoise Frenkel, conta como era a sua vida em Berlim, antes dos nazistas chegarem ao poder, e o pesadelo que viveu até conseguir refúgio na neutra Suíça.

Apaixonada por livros, ela surpreendeu-se quando, ao visitar a capital da Alemanha em 1921, teve dificuldade em encontrar um estabelecimento que vendesse livros em francês. Ciente de que a cidade possuía uma vida cultural intensa e sofisticada, decidiu abrir a primeira livraria francesa de Berlim. Durante um bom tempo “La Maison du Livre” fez bastante sucesso. Era o ponto de encontro de intelectuais e estudantes, ávidos pelas novidades que chegavam de Paris.

Quando as perseguições aos judeus começaram, a loja de Françoise tornou-se um lugar não só perigoso, mas também inviável, e ela precisou fugir.

A autora buscou refúgio na França, visto que a Polônia, seu país natal, estava sob o jugo alemão. Não demorou muito para que essa escolha se mostrasse desastrosa. Passados nove meses de relativo sossego precisou iniciar uma nova fuga, desta vez, para o sul do país. A tranquilidade durou pouco. Acovardado, o governo francês dobrou-se ao inimigo, e ajudou-o na perseguição aos judeus.

Françoise escondeu-se em Nice, mas ali também não era seguro. Se fosse descoberta seria deportada imediatamente para um campo de extermínio. Fugir para o país vizinho não era uma opção, pois os italianos eram aliados dos alemães. Restava vencer uma montanha de papéis e carimbos burocráticos para depois enfrentar uma longa e extenuante marcha até à Suíça.

Este não foi o primeiro relato que li sobre as atrocidades cometidas contra os judeus. Normalmente são romances históricos ficcionais. Cria-se uma empatia com os personagens, mas nada é tão angustiante quando se sabe que quem escreveu, realmente, viveu tudo aquilo. Alguém que poderia ser um conhecido, um amigo, ou talvez o nosso professor do colégio ou da faculdade.

Óbvio que todas as medidas adotadas pelos nazistas foram asquerosas, mas sempre se podia jogar a culpa no governo, dizer que não se votou neles, e lavar as mãos como Pôncio Pilatos. O que me incomoda profundamente nesses relatos é que não há desculpa para as mesquinharias cometidas por pessoas comuns. Como aquela feita por uma castelã, que inicialmente aceitou esconder a autora mediante o pagamento de uma importância considerável. Entretanto, assim que soube que a polícia a vigiava, em vez de simplesmente mandá-la embora, não teve a decência de guardar para si o que pensava e disse irritada:

Quantos aborrecimentos! Se pudesse prever toda essa chateação, jamais teria aceitado essa missão. Ah, de jeito nenhum!

Durante quatro anos a autora perambulou de um esconderijo para outro. Sentiu fome, frio e muito, muito medo. Quase sempre sozinha, eventualmente contava com a ajuda de algum francês corajoso. Dessa forma, Françoise Frankel conseguiu entrar clandestinamente na Suíça, onde finalmente pode se sentir segura. Foi lá, no centro de uma Europa em guerra, que escreveu Sem lugar no mundo.

Ao falar da sua jornada pessoal, Françoise Frankel nos faz lembrar dos judeus que não sobreviveram.

 

  • Sem lugar no mundo

Françoise Frankel

Editora Bazar do Tempo

R$ 54,00

Só vou dar uma olhada

 

Cheguei adiantada à sessão de cinema. Do outro lado da rua o letreiro luminoso da livraria convidava-me a entrar.

“Só vou dar uma olhada, só vou dar uma olhada” – era esse o meu mantra quando adentrei no estabelecimento comercial.

Fotografei as novidades que me chamaram atenção: O que vem ao caso, romance de estréia de Inez Cabral, filha do consagrado escritor João Cabral de Mello Neto, Brevíssima História de Portugal, para não esquecer as minhas origens, A improbabilidade do Amor, romance publicado por uma editora paulista que não conhecia a Morro Branco, e, finalmente, Garotas Mortas escrito por uma argentina, pelo qual me interessei após espichar o ouvido e escutar a cliente recomendando-o à vendedora.

Com uma pontinha de orgulho, segui o mantra à risca e saí sem comprar nada! Se quisesse ver o filme desde o início, não teria tempo para aguardar na fila do caixa da livraria.

Dois dias depois, voltei a usar do mesmo estratagema. “Só vou dar uma olhada, só vou dar uma olhada”, pensei ao entrar em uma livraria de outro bairro.

A arrumação dos lançamentos era diferente. Além daqueles que anteriormente tinham chamado a minha atenção, agora eu deparava com outros. Só que desta vez não tinha uma sessão de cinema para me apressar. Eu acabara de almoçar um delicioso ravióli recheado com abóbora, envolto em molho de manteiga, sálvia e lascas de amêndoas, muito bem acompanhado de um vinho chileno, e tinha todo o tempo do mundo para flanar por entre os corredores da livraria.

E foi assim que a minha força de vontade ruiu e se transformou em Sem lugar no mundo de Françoise Frenkel e Pequenos incêndios por toda a parte de Celeste Ng.

“Só vou dar uma olhada”. Sei… como eu gosto de me enganar!

 

 

 

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