Meu presente favorito

Dizem que só sabemos dar aquilo que gostamos de receber. Se o que eu mais aprecio são livros, fica fácil adivinhar o que oferecerei aos amigos e familiares neste Natal.

Apesar de a lista ser variada dois títulos se destacam como favoritos. O primeiro é o último livro do Ruy Castro, “Metrópole à Beira-mar: o Rio moderno dos anos 20”; o segundo é “PorVentura: encontros, encantos e outras inquietações” do jornalista Mauro Ventura.

À primeira vista, o tema do livro do Ruy Castro pode parecer um tanto ou quanto desinteressante – afinal, sempre ouvi dizer que os anos mais glamourosos da cidade foram aqueles compreendidos entre a década de cinquenta e o início dos anos sessenta -, mas quem já leu alguma coisa do escritor sabe que ele consegue transformar a pesquisa mais entediante em um texto coloquial delicioso.

Ele me conquistou quando, há alguns anos, li a biografia sobre Garrincha. Eu que só assisto futebol durante a Copa do Mundo e não torço pelo Botafogo, simplesmente amei o livro “Estrela Solitária”.

O outro livro-presente é do jornalista, Mauro Ventura, cujo trabalho admiro e acompanho desde quando ele escrevia no jornal o Globo: “Dois cafés e a conta”.

A sua coluna semanal era uma lufada de alto-astral no meio de tantas notícias deprimentes. Mauro dava visibilidade às boas iniciativas de solidariedade, promovidas por pessoas comuns ou organizações sociais. Ele incentivava o leitor a arregaçar as mangas e fazer alguma coisa. Infelizmente, depois de onze anos, a coluna deixou de ser publicada.

No entanto, continuei acompanhando as suas crônicas nas redes sociais. No novo livro, “PorVentura: encontros, encantos e outras inquietações” foram recuperados textos antigos e incluídos outros mais recentes. Suas crônicas agregam leveza e sensibilidade ao retratarem os contrastes do Rio de Janeiro.

Só agora, ao escrever este post, reparei que ambos os livros falam sobre a mesma cidade. Coincidência? Talvez, mas como explicar que vou me oferecer de presente o livro “Saboreando o Rio” da Mariana D. Vidal? Só tem uma explicação: Definitivamente eu sou apaixonada por esta cidade.

 

O Anjo Pornográfico

Apesar de só assistir a jogos de futebol de quatro em quatro anos e apenas quando o Brasil entra em campo (depois da derrota na ultima sexta vou hibernar até 2022), lembro que gostei bastante de ler a biografia de um jogador de futebol: “Estrela solitária- um brasileiro chamado Garincha”, escrita pelo jornalista Ruy Castro.

Recentemente, deleitei-me com a transcrição no Jornal Literário Rascunho da conversa feita pelo escritor durante a abertura do evento cultural Paiol Literário, que  ocorreu em junho em Curitiba.

O escritor discorre sobre o seu processo de escrever biografias e cita algumas normas que costuma seguir: a de não aceitar pedidos para escrever sobre alguém específico ou que ainda esteja vivo. Comenta sobre o trabalho descomunal que é pesquisar a vida de uma pessoa, e que é impossível traçar um perfil consistente sem entrevistar no mínimo duzentas outras.

Uma observação em especial chamou minha atenção. A de que os parentes costumam ser os menos informados sobre o biografado. É verdade que conhecem seus hábitos, seus gostos e idiossincrasias, mas o que sabem daquele homem ou mulher quando se encontrava longe do ambiente familiar? Afinal é esse lado escondido que torna a vida do biografado interessante e verossímil.

O moderador perguntou a Ruy Castro o que achava de ter sido processado por revelar assuntos que, na maioria das vezes, os familiares preferiam que continuassem escondidos. O escritor concordou que o biógrafo poderia ser responsabilizado caso fizesse um trabalho mal feito, mas que a obra não deveria ser censurada. Em último caso, quem não concordasse com os fatos narrados que escrevesse a própria versão.

Todas as irmãs do Nelson Rodrigues ficaram de mal comigo. (…) Elas acharam que protegi a viúva do Nelson. As irmãs – não só do Nelson como de todos os Rodrigues – tinham uma relação quase incestuosa com seus irmãos e ódio a todas as cunhadas, naturalmente. Tanto que se você ler as peças do Nelson, todas aquelas tias virgens, solteironas e neuróticas são as irmãs dele.

O comentário fez-me retroceder a quando cheguei ao Brasil e a revista reinante nos cabeleireiros cariocas era a Fatos &Fotos. Foi ela quem me apresentou à obra de Nelson Rodrigues. Na época procurava com uma mistura de fascínio e pudor a página com a crônica do escritor maldito. Agora, essa curiosidade ressurgia.

Quando terminei de ler o artigo lembrei que tinha diversos livros do Ruy Castro na estante. Será que a biografia sobre Nelson Rodrigues conseguira sobreviver às mudanças de apartamentos e cidades? Lá estava ela junto aos outros livros do Ruy Castro, que meu marido e eu compramos ao longo dos anos (não me desfiz de nenhum). O livro tinha as páginas amareladas pelo tempo e conservava a etiqueta da livraria Sicilano.

Assim que li os primeiros parágrafos,  atraquei-me a O Anjo Pornográfico.

A escrita de Ruy Castro além de ser extremamente envolvente – ele é uma autêntica Sherazade versão masculina – é bastante informativa. Ainda estou no início, mas já recebi uma aula de história bem interessante. A poucos meses de uma eleição presidencial, constato que por mais instável que seja o momento político brasileiro, o país já atravessou outras crises tão ou mais dramáticas do que esta. Fico imaginando o que Nelson Rodrigues teria a dizer sobre tudo isto.

P.S. Ao avançar na leitura encontrei uma frase de Nelson Rodrigues que responde à minha indagação e infelizmente continua atual: Em Brasília todos são inocentes e todos são cúmplices. 

 

  • O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues

Ruy Castro

Editora Companhia das Letras

R$ 77,90

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