Um poema desconfortável

 

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Descobri o poeta inglês Philip Larkin através da escritora Rosa Montero.

Em seu livro “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, ela comenta como, por vezes, os vínculos entre pais e filhos se tornam asfixiantes. Para exemplificar o seu pensamento Rosa Montero transcreveu um poema de Philip Larkin:

Eis aqui o verso

Eles te ferram, teu pai e tua mãe.
Talvez sem querer, porém te ferram.
Despejaram em você as culpas que tinham
E incluíram extras, só para você.

Mas eles também forram ferrados
Por cretinos de casacos e chapéus antiquados,
Que metade do tempo eram caretas ou severos
e a outra metade passavam brigando.

A desgraça passa de pessoa para pessoa.
Vai ficando tão funda como uma fossa marinha.
Saia daqui o quanto antes
E não tenha filhos.

Confesso que não estava preparada para receber uma bofetada em forma de poesia, mas, mesmo atordoada, achei-o admirável. Quis conhecer um pouco mais Philip Larkin e descobri que ele foi extremamente popular na Inglaterra entre a década de 50 e o final dos anos 70 do século passado.

Sua poesia precisa e descomplicada fala de temas extremamente caros a seus conterrâneos: trabalho, amor, sexo, desencontros, velhice, os lugares onde vivia e, principalmente, o temor da morte.

De personalidade melancólica e avesso aos holofotes literários, Larkin cresceu numa família disfuncional. O pai era autoritário e irritadiço. Germanófilo, viajou com o filho para assistirem a comícios nazistas na Alemanha. A mãe, por sua vez, possuía um temperamento nervoso e apagado, submetendo-se docilmente à prepotência do marido.

Não é de se estranhar que Larkin tivesse horror a ideia de se casar. Essa ojeriza à instituição matrimonial não o impediu de manter uma vida sentimental movimentada. Muito pelo contrário. Em dado momento chegou a ter três relacionamentos amorosos simultâneos.

Larkin morou sempre longe dos grandes centros cosmopolitas. E mesmo quando se tornou famoso como poeta, não abandonou a rotina de seu trabalho como bibliotecário na universidade de Hull.

Larkin faleceu de câncer em 1985, aos 63 anos de idade. Durante o funeral, seu amigo de longa data, o escritor Kingsley Amis, declarou que ele (Larkin) nunca demonstrou ser quem não era, nunca fingiu sentimentos que não sentia, e foi essa honestidade total que proporcionou tanto poder à sua poesia e a cada palavra por ele mencionada.

Essa unanimidade nacional foi posta à prova quando, após sua morte, foi revelado o conteúdo de diversas cartas enviadas a amigos. Nelas aparece um Larkin misógino e racista.

O lado sombrio não impediu que em dezembro de 2016, no 31º aniversário de sua morte, fosse colocada uma placa com o seu nome no Canto dos Poetas, na Abadia de Westminster em Londres, lugar de peregrinação dos apaixonantes pela literatura inglesa.

Infelizmente não encontrei nenhum livro de Philip Larkin publicado no Brasil.

*a caricatura do poeta é de David Levine para o New York Times Review

Leituras na quarentena

Depois de um início de quarentena tumultuado, finalmente encontrei a concentração necessária para intercalar os afazeres domésticos com a leitura.

Comecei pelo livro Três Mulheres, um relato não ficcional sobre as escolhas sexuais de três mulheres e como elas afetaram suas vidas. O livro fez o maior sucesso nos EUA e foi lançado pouco depois do movimento #metoo.

Não foi uma leitura fácil. Se por um lado gostei do texto da escritora Lisa Taddeo e acho necessário falar sobre o desejo feminino, por outro lado incomodou-me o fato das personagens não se darem conta de como procuravam agradar mais os parceiros do que a si mesmas.

Com diferentes históricos de vida, era gritante a baixo auto estima dessas mulheres. E quando suas vidas privadas foram expostas, não encontraram compreensão ou solidariedade nem mesmo entre suas colegas de gênero.

Em seguida li A ridícula ideia de nunca mais te ver, da Rosa Montero. Um livro cujo assunto eu queria saber mais e ao mesmo tempo temia: a morte prematura do parceiro quando o amor entre o casal ainda não esmoreceu.

A autora faz um paralelo entre a sua experiência pessoal e a da cientista Marie Curie, cujo marido morreu atropelado por uma carruagem.

No entanto, fui surpreendida por uma leitura nem um pouco deprimente. Apesar de a dor estar presente – os trechos do diário de Marie Curie são bem sofridos -, a narrativa se abre a diversas considerações sobre o lugar da mulher no mundo contemporâneo. Inclusive, pude fazer um paralelo com a leitura anterior por também falar sobre o desejo feminino:

(…) Mas até bem pouco tempo, uma ou duas décadas atrás, o maior problema da mulher ocidental consistia em não saber viver para o seu próprio desejo: vivia sempre para o desejo dos outros, dos pais, dos namorados, maridos, filhos, como se suas aspirações pessoais fossem secundárias, improcedentes e defeituosas.”

Será que esse “problema” realmente ficou no passado? Tenho cá as minhas dúvidas. Como bem disse Lisa Taddeo:

As revoluções levam muito tempo para chegar a lugares onde as pessoas compartilham mais receitas da revista Country Living do que artigos sobre o fim da submissão feminina.”

É fácil recomendar A ridícula ideia de nunca mais te ver, mas a leitura de Três Mulheres, apesar de incômoda, é tão importante quanto.

Tudo junto e misturado

Faço anos em dezembro e os meus presentes de aniversário se misturam aos que receberei no Natal. Durante o ano vou anotando os livros que gostaria de ler, mas que por diversas razões não me permito comprar. É muita voracidade para quem tem outros afazeres e uma verba limitada.

Dei-me ao trabalho de contar quantos títulos constam da lista, são 60 no total. Dela não fazem parte os que comprei por impulso, nem os que darei de presente de Natal e pretendo pedir para ler emprestado.

Reconheço que se trata de uma lista inatingível, mas que facilita, e muito, a vida de quem não sabe o que me oferecer. Basta me perguntar e eu apresento a lista devidamente reduzida. Afinal, não quero assustar ninguém nem ser olhada com incredulidade.

Até agora já recebi:

As verdadeiras riquezas de Kaouther Adimi, um romance francês que mistura ficção e realidade, e fala sobre um tema que eu amo: livros e livrarias. (Kaouther Adimi é uma jovem escritora de 33 anos que nasceu na Argélia e atualmente vive na França)

 

Três mulheres de Lisa Taddeo, é o relato verídico, baseado numa pesquisa que durou quase uma década, sobre a vida sexual de três mulheres comuns. Um retrato poderoso do desejo feminino e como as escolhas subverteram ambientes familiares e sociais.

 

Torto Arado, do escritor baiano Itamar Vieira Junior, recebeu o Prêmio Leya de 2018. O livro acompanha as diferentes trajetórias de vida de duas irmãs, que nasceram num Brasil rural onde persiste enraizado um viver escravocrata.

A ridícula ideia de nunca mais te ver foi escrito por Rosa Montero como forma de purgar a dor após a morte do marido. Nele, é feito um paralelo com o diário de Marie Curie, no qual a cientista escreveu sobre a mesma experiência, a perda de quem se ama.

A criança no tempo de Ian McEwan é sobre o maior medo que pode passar pela cabeça de qualquer pai: o sumiço de um filho. Tenho certeza que o tema dificílimo será destrinchado com maestria por um autor que, na minha opinião, já merecia ter recebido o prêmio Nobel da Literatura.

 

Tudo que é belo: quarenta e cinco histórias reais, foi publicado pela editora Todavia e reúne histórias que foram contadas em público. Não contos de fadas ou de folclore, mas histórias verídicas que aconteceram a pessoas comuns e narradas por elas mesmas.

Sorrio satisfeita para os livros que recebi. Tenho leitura garantida para os próximos meses. Mas que livro é esse que parece bastante interessante? Trata-se Heimat, um romance gráfico, best-seller na Alemanha e vencedor do National Book Critics Circle na categoria autobiografia. Pronto, dei início à lista de 2020!

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