É preciso chegar mais perto

A primeira vez que ouvi falar em coleta de tampinhas plásticas foi na coluna Dois Cafés e a Conta do jornalista Mauro Ventura. A arrecadação era promovida por uma ONG que vacina e castra animais de rua. Encantei-me com o projeto e logo estava separando as tampinhas não só do meu lixo caseiro, como pedi ao porteiro que fizesse o mesmo com as dos outros moradores do prédio. Nas minhas caminhadas pela praia passei a levar uma sacola para recolher todas as que encontrava jogadas na areia.

Em conversas com amigos soube que as tampinhas também ajudavam a ABBR a comprar cadeiras de rodas para os pacientes mais necessitados. Entre apoiar animais ou seres humanos preferi os últimos.

Lamentei quando a coluna do Mauro deixou de ser publicada no jornal carioca. Ela dava visibilidade a diversos projetos socioambientais desconhecidos pela maioria dos moradores do estado. No meio de tantas notícias deprimentes era bom saber que havia pessoas que, em vez de reclamar e apontar os erros, arregaçavam as mangas e faziam algo pela comunidade onde viviam.

Tempos depois, participei de um evento mediado pelo Mauro. Tratava-se de um bato papo entre seu pai, Zuenir Ventura, e o escritor Luís Fernando Veríssimo. Como os dois são amigos de longa data imaginei que teriam muitas histórias para contar.

Mesmo sabendo da notória timidez do escritor gaúcho, não estava preparada para encontrar um entrevistado tão avesso em conversar. Um comportamento bem diferente dos Ventura, pai e filho, que eram uma simpatia.

Mauro puxava um assunto e o pai desenvolvia o tema. Mas toda a vez que tentavam incluir o Luís Fernando na conversa, este a encerrava com poucas palavras. Só não me levantei e fui embora em respeito ao mediador que se esforçava para que o evento não fosse um fiasco.

Apesar dos percalços o encontro teve um lado positivo. Ele me aproximou, de novo, dos textos de Mauro Ventura. Comecei a ler suas crônicas no Facebook e festejei quando soube que ele lançaria um novo livro até ao final do ano.

Ofereci vários exemplares de PorVentura no Natal, sendo que para uma amiga em especial o fiz com segundas intenções. Eu sabia que quando terminava de ler um livro C. passava-o adiante. Não é como eu que custo a desapegar e vivo reclamando da falta de espaço nas estantes.

Pois bem, finalmente PorVentura chegou às minhas mãos e correspondeu às minhas expectativas. As crônicas são divertidas, contundentes quando necessário, e possuem algo muito raro nos dias atuais: um olhar sensível e interessado por pessoas e situações que normalmente costumam passar desapercebidas. Mauro Ventura fez-me rir, sacudiu-me e, principalmente, incentivou-me a chegar mais perto. Porque não dá para compreender a maioria das coisas à distância. É preciso se aproximar.”*

*citação retirada do livro “Compaixão” de Bryan Stevenson

Encontro Marcado

Uma amiga de Salvador  ligou querendo saber se eu conhecia na cidade algum grupo que se reunisse para trocar livros.

Não estava à procura de um clube de leitura, onde todos os participantes lêem o mesmo livro, para depois conversarem e trocarem opiniões sobre ele.  O que ela queria mesmo era fazer um empréstimo: “o meu pelo seu”.

Estava interessada em Leonardo da Vinci, escrito por Walter Isaacson. Assustou-se ao saber quanto custava. Chegou a encontrar opções mais em conta no site Estante Virtual, mas, na verdade, também lhe faltava espaço para guardar novos livros em casa. Um clube de trocas seria perfeito.

Achei a idéia ótima, mas infelizmente não conhecia nenhum clube assim. Sugeri que criasse um grupo entre amigos sabidamente leitores, onde cada um diria o que gostara de ler e o que se dispunha a emprestar. Se fosse feita uma “ata” da reunião caso o livro emprestado demorasse a ser devolvido seria facilmente rastreado. Ela riu e disse que me escolheria para ser a presidente do grupo.

No decorrer da conversa sobre livros, livrarias e sebos, comentei que tinha ficado muito satisfeita ao reencontrar no Rio, depois de ficar fora dezesseis anos, uma locadora de livros funcionando no mesmo lugar.

Diferentemente das locadoras de filmes – que fecharam as portas por causa da concorrência desleal da pirataria e dos novos canais de televisão – lá estava ela firme e forte, resistindo a crises e às novas tendências de leitura. Felizmente, ainda existe toda uma geração de leitores que não aderiu ao livro digital.

A Locadora de Livros Encontro Marcado fica no segundo andar de uma galeria em Ipanema, pertinho do metrô da Nossa Senhora da Paz. O acervo escolhido a dedo é basicamente de ficção e está muito bem conservado. Não dá nojinho manusear um livro sobre o qual não se sabe quantas pessoas folhearam antes de você. Para quem gosta de literatura policial, a locadora é um prato cheio.

E se a minha amiga morasse no Rio, com certeza, encontraria o livro que procura.  Karen, a proprietária do espaço, tem o cuidado de adquirir os lançamentos mais desejados.

Em tempos de espaços pequenos com poucas estantes e orçamentos apertados a Locadora Encontro Marcado é um achado!

 

  • Locadora de Livros Encontro Marcado

Rua Visconde de Pirajá, 303/s.loja 202

Ipanema

Tel. (021) 2287-8702

karenk@mls.com.br

Horário de funcionamento:

segunda, quarta e sexta das 10 às 17 hs

terça e quinta das 12 às 19 hs

sábado das 10 às 14 hs

Enquanto um olho ri o outro chora

Ainda tenho caixas para abrir, roupas de cama para guardar e livros para arrumar nas estantes, mas faz quase um mês que não escrevo nada no blog e isso me incomoda.

A razão de tamanho descuido é que ando às voltas com mais uma mudança de apartamento. Não uma mudança tranquila de um bairro para o outro, mas uma mudança de cidade, para outro estado.

Depois de dezesseis anos morando em Salvador retornei ao Rio de Janeiro. Sempre soube que isso aconteceria um dia, mas em algum momento, que não sei bem precisar, deixei de sonhar com essa volta e abracei tudo o que Salvador generosamente me oferecia. Por isso, quando chegou a hora de embalar móveis, pratos e livros, senti-me confusa e dividida.

Antes de partir, antecipei diversos almoços de final de ano. Curioso é que sempre fiz piada desses encontros. No decorrer do ano procurava me reunir com os amigos para por a conversa em dia e dar boas risadas, mas à ultima hora alguém desmarcava. Finalmente, todos esses almoços se realizavam num único mês, como se o mundo fosse acabar e nunca mais fossemos nos rever. Agora, mesmo sabendo que estou apenas a duas horas de distância de avião, a possibilidade de não ver mais quem eu gosto e me faz bem, não parece tão absurda.

Apesar de não ter medo de recomeços – afinal, no âmago de toda mudança existe a semente de infinitas possibilidades – e me sentir feliz por estar de novo perto de parentes e amigos queridos, um dos meus olhos brilha de contentamento enquanto o outro chora de saudades.

(Imagens retiradas da internet: Salvador- Zarpo Magazine / Rio de Janeiro SB viagem)

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