Rabiscos sobre o Rascunho

Rascunho

Não é a primeira vez e com certeza não será a última que comentarei sobre o jornal de literatura Rascunho, publicado pelo escritor catarinense Rogério Pereira. Gosto bastante dessa publicação mensal que oferece aos apaixonados pela boa literatura uma multiplicidade de resenhas sobre livros escritos por autores nacionais e estrangeiros, além de entrevistas com escritores e notícias sobre feiras e concursos literários .

O primeiro exemplar do ano me agradou em cheio. No caderninho de Livros que lerei um dia, anotei  a recomendação feita pelo colunista Rinaldo de Fernandes.

O livro em questão era Os dias roubados do escritor cearense Carlos Vazconcelos (com z mesmo). Interessada, tentei localizar o livro nos principais sites das grandes livrarias para me informar sobre o preço e por qual editora fora publicado, mas não encontrei absolutamente nada.

Digitei o nome do autor na Wikipedia e li um brevíssimo currículo sobre ele. Quando cliquei em Os dias roubados fui encaminhada diretamente para a Estante Virtual.

Inacreditável! Como era possível que um livro publicado apenas há dois anos e premiado pela secretaria de Cultura do Estado do Ceará só pudesse ser adquirido num sebo? Pesquisei mais um pouco e voltei a me surpreender.  A editora responsável pela publicação, Expressão Gráfica Editora, não possui site, nem tem e-mail, só um número de telefone para contato!

Triste a realidade dos escritores que estão distantes dos grandes centros e não têm a chance de ter o seu trabalho facilmente divulgado.

(O autor confirmou que o livro pode ser encontrado na Estante Virtual, mas que tem planos de em breve relançá-lo por uma editora maior. Gostei da notícia.)

o – o – o – o – o

E eu que, no ultimo post, estava preocupada em não ser muito dura quando critiquei um livro que larguei pela metade.  Pois meus olhos se arregalaram incrédulos quando li  a crítica demolidora feita por Carolina Vigna  ao livro Morada das Lembranças de Daniella Bauer , vencedor do prestigiado Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional 2014.

Moralista, caricato e pouco emocionante. Com estes adjetivos nada edificantes, Carolina arrasou com o livro de Daniella.

Por mais incrível que possa parecer, fiquei curiosa em ler o livro. Será que ela não estava sendo dura demais? Será que minha opinião seria parecida com a dela?

Talvez esteja na hora de reconsiderar a minha decisão em não falar o nome do livro que deixei de lado. Quem sabe, uma crítica devastadora é  bem mais estimulante do que aquela que é só elogios.

As aventuras do bom soldado Švejk

???????????????????????????????????????????Para quem leu o post anterior e ficou curioso em saber qual foi o romance escandaloso, que mitigou os sofrimentos de Dita Dorachova – a personagem principal do romance “A bibliotecária de Auschwitz” – tenho uma boa notícia para dar.

Trata-se de As aventuras do bom soldado Švejk de Jaroslav Hasek e já chegou às livrarias numa publicação cuidadosa da editora Alfaguara.

Em artigo intitulado ‘Um subversivo êxtase cômico’, publicado no jornal Rascunho*, Marcelo Laier comenta:

“O frenesi despertado pela Copa do Mundo aqui nestas paragens infelizmente impediu a devida repercussão de um dos grandes lançamentos literários do ano.

Traduzido diretamente do tcheco para o português brasileiro pela primeira vez, As Aventuras do bom soldado Švejk é uma irresistível sátira do agonizante Império Austro-Húngaro, do ‘imperial e real’ exército e por extensão da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário da deflagração foi relembrado em julho último.”

Para o senhor general tudo era simples.

O caminho para a  glória bélica repousava nesta receita:

Às seis os soldados recebem gulache com batatas,

às oito e meia fazem c… nas latrinas

e às nove se retiram para dormir.

diante de um exército como este,

 o inimigo foge assustado.

Mais adiante, e nesse mesmo artigo, escreveu: “Recentemente comentei com um amigo cidadão do mundo que estava lendo o livro de Hasek. Ele me respondeu: ‘Estive em Praga diversas vezes e sempre vi as vitrines das livrarias tomadas por esse livro’. (…) Como todo o grande escritor, Hasek foi contra seu próprio país, para depois ser canonizado por ele.”

Por sua vez Bertolt Brecht afirmou: “Se me pedissem para apontar três obras literárias deste século que, em minha opinião, farão parte da literatura universal, diria que uma delas é, sem dúvida, As aventuras do bom soldado Švejk.”

Desconfio que na próxima visita a uma livraria, sairei com um exemplar na sacola.

 

*Rascunho nº 173 – setembro 2014

  • As aventuras do bom soldado Švejk

Jaroslav Hasek

Editora Alfaguara

R$ 69,90

O bom leitor

Pilha-de-livros

Recentemente li uma entrevista* com o escritor Luis Antonio de Assis Brasil onde dizia que, para ele, o bom leitor era: “O que lê muito len-ta-men-te, buscando a fruição do texto, valorizando cada palavra, cada parágrafo. Um romance que exigiu seis anos de escrita, dúvidas, alegrias e pesares, não pode ser lido numa tarde”.

Realmente, o autor merece ter a sua obra apreciada com vagar e cuidado, mas como isso fica mais difícil de se conseguir a cada dia que passa!

Já comentei antes que não sou uma “devoradora” de livros. Normalmente permito-me uma leitura tranquila que dura em torno de uns quinze dias. Entretanto aquela vozinha interior não para de lembrar que, enquanto leio len-ta-men-te, outros tantos se acumulam. Dessa forma minha insatisfação é permanente, e as anotações de livros, que pretendo ler um dia, não param de crescer.

Recentemente acrescentei mais cinco títulos à lista. Os estilos são bem diferentes, e de autoras que não conheço. Curioso, só agora percebi que os escritores, pelos quais me interessei, são todos mulheres.

O primeiro é “Tipos de perturbação” um livro de contos bem curtinhos, escrito por Lydia Davis, autora americana, e ganhador este ano do prestigiado Man Booker Prize;  depois me interessei por ”O povo eterno não tem medo” primeiro romance de Shani Boianjiu, jovem escritora israelense, que narra o amadurecimento precoce de três amigas, que têm a pouca sorte de prestar o serviço militar obrigatório durante a guerra;  foi através do meu filho que ouvi falar, pela primeira vez, da jornalista Juliana Cunha autora do blog “Já matei por menos”. Os melhores textos foram reunidos em um livro editado pela Lote 42. Quero conhecer o trabalho desta escritora hipster**, que provavelmente logo o deixará de ser, visto que acaba de ser citada no blog de alguém com idade para ser sua mãe;  “Três mulheres fortesfoi escrito por Marie NDiaye e ganhou o prêmio Goncourt 2009. Marie é francesa, mas o sobrenome revela sua ascendência africana – o pai é senegalês;  por último na lista está “Quiçá” de Luisa Geisler, escritora brasileira selecionada pela revista Granta como integrante do grupo dos melhores jovens escritores brasileiros.

Haja tempo e dinheiro para ler tudo o quero!

* Jornal Rascunho  março 2003

**Algo ou alguém que está na vanguarda dos modismos culturais. Quando começa a ser popular ou lugar-comum deixa de ser hipster.

Ah… Então era isso!?

Noite-Erico-VerissimoSou assinante do jornal literário Rascunho e mensalmente fico a par do que acontece nos bastidores do mundo da leitura. O jornal possui um conteúdo de altíssima qualidade e publica entrevistas com escritores, textos literários e resenhas de livros.

Pois foi graças a uma indicação de Alberto Mussa, publicada no exemplar de janeiro, que fiquei interessada em ler Noite de Érico Veríssimo.

Confesso que, até então, nunca tinha lido nada desse consagrado autor gaúcho. Provavelmente, deveria começar pela leitura de O Tempo e o Vento, sua obra mais conhecida, mas a resenha de Noite atiçou a minha curiosidade e, posso afirmar com toda a certeza que não me arrependi.

O personagem principal não tem nome. Aparece não se sabe de onde e não sabe quem é. Carrega um intenso e inexplicável sentimento de culpa. Foge de algo ou alguém. Acredita que suas roupas, de boa qualidade, e sua carteira, recheada de dinheiro, foram roubadas. Ele é o Desconhecido.

É óbvio, que rapidamente, se torna uma presa fácil para dois vigaristas. Um anão corcunda e um janota de cravo vermelho na lapela, de conversa melíflua e ardilosa. Na companhia desses canalhas perambulará por lugares sórdidos do submundo noturno.

O leitor acompanha tenso o sofrimento do Desconhecido. O livro é envolvente e angustiante. E quando, finalmente, ele recorda quem é e por se encontra ali, estamos quase chegando às ultimas páginas. O final é surpreendente e perturbador.

“Ah… então era isso?!” foi o que pensei quando fechei o livro. “Que tema ousado para ser escrito em 1954… Parabéns, Sr. Érico Veríssimo.”

Noite

Érico Veríssimo

Companhia das Letras

R$ 39,50

Jornal Literário Rascunho

assinatura anual de 12 exemplares R$ 75,00

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