Duas leituras imperdíveis

Aconteceu comigo há mais de vinte anos numa das primeiras viagens que fiz aos EUA. Entrei numa cafeteria da Starbucks e, enquanto não chegava a minha vez de ser atendida, comecei a ler a longa lista de cafés que eram oferecidos. Na mesma hora fiquei confusa. Naquela época eu conhecia apenas três opções: o café expresso, o coado e o café com leite. Quando me encontrei diante da atendente, perguntei educadamente se poderia me explicar qual a diferença entre dois produtos. Sua resposta foi tão agressiva que fiquei sem ação. Insegura, paguei por algo que não me lembro e nunca mais, na vida, pisei numa Starbucks.

Ao contar a um amigo brasileiro morador da cidade o que me acontecera, ele disse que nos EUA as relações sociais entre brancos e negros não eram das mais fáceis. Não fazia muito tempo os negros ainda precisavam lutar pela igualdade de direitos civis, e até 1967 era proibido (dava cadeia!) um casamento inter-racial. Portanto, não era de se estranhar, que pairasse no ar um clima de animosidade e desconfiança em relação aos não afro-americanos.

Esse episódio me veio à lembrança quando escutei o audiolivro Um casamento americano, de Tayari Jones, e pouco tempo depois li Compaixão: uma história de justiça e redenção de Bryan Stevenson.

Apesar de o primeiro ser um romance e o segundo um livro de não ficção, ambos abordam um tema bastante espinhoso: o encarceramento de negros nos EUA, na maioria das vezes com um viés preconceituoso e racista.

Um casamento americano retrata os desdobramentos na vida de um casal afro-americano recém-casado, depois que o marido é condenado injustamente a cinco anos de prisão. Quando finalmente consegue provar sua inocência, sua vida virou de ponta cabeça. O que fazer com os estilhaços que sobraram?

Se hipoteticamente pudesse existir alguma dúvida quanto à parcialidade da justiça americana, especificamente a praticada nos estados do sul, ela se desfaz após conhecer os relatos apresentados em Compaixão: uma história de justiça e redenção. Eles cortam o coração.

O livro foi escrito por Bryan Stevenson um advogado negro que se especializou em salvar a vida de quem foi condenado à prisão perpétua ou à morte sem ter recebido um julgamento justo.

A história central é de Walter McMillian, que sem provas foi jogado no corredor da morte antes de ser julgado e ali ficou por muitos anos. Mas há muitos outros casos revoltantes, como impor sentenças de prisão perpétua sem direito a condicional a jovens com menos de quatorze anos.

Ambas as leituras me impactaram bastante e me fizeram pensar no sistema judiciário brasileiro. Apesar das diferenças entre o nosso direito e o praticado nos EUA, o resultado final é muito parecido. Em ambos os países são os mais pobres e desamparados que amargam longas penas. Se por aqui a cor da pele não é fator determinante de condenação, a pobreza é. O estrato social do réu praticamente determina se ele terá um julgamento justo ou não, se poderá recorrer ou não.

Como bem colocou o autor de Compaixão: Algo está profundamente errado quando os ricos culpados são tratados melhor que os pobres inocentes.”

Duas leituras bem diferentes

Gosto de intercalar uma leitura “séria” com outra mais leve, e normalmente acerto nas escolhas. Mas emendar Amsterdam do escritor Ian McEwan com O ódio que você semeia da rapper americana Angie Thomas foi ousado demais.

O primeiro romance narra o embate entre dois amigos que alcançaram grande sucesso profissional, e voltam a se encontrar durante o funeral de uma amante que tiveram em comum. A reaproximação os faz trocar promessas e confidências. Vaidosos, eles acreditam estar acima de quaisquer dilemas morais, mesmo quando suas atitudes podem prejudicar outras pessoas. No entanto quando um deles censura a atitude que o outro pretende tomar, este se sente ofendido e revida acusando o agressor de se comportar de forma infame. A miopia moral dos dois ex-amigos se exacerba em insultos e rasteiras mútuas, terminando por provocar uma tragédia.

Apesar de ter apreciado esta história, que em 1998 venceu o Booker Prize na categoria de melhor romance, o meu livro favorito de Ian McEwan continua sendo Na Praia. Mesmo assim agradou-me a construção refinada dos personagens e as descrições precisas e elegantes.

Talvez tenha sido essa por razão que estranhei a escrita de O ódio que você semeiarepleta de diálogos coloquiais e frases curtas -, perfeita para leitores que ainda não aprenderam a apreciar uma leitura mais burilada. É importante ressaltar que o livro é classificado como ficção juvenil, recomendado para leitores entre 14 e 21 anos.

Também me incomodou a quantidade de referências aos diversos modelos de tênis das marcas Jordan, Eleven, e Js, cantores como Salt-N-Pepa, gênero musical R&B, danças Wobble, Hit the Quan e Nae-Nae, e a diferença entre comer um sorvete com cobertura de cereal Cap’n Crunch ou biscoito Oreo. Tudo muito comum para um afro-americano nascido na virada do milênio, mas que só fizeram confirmar a minha ignorância de costumes e o abismo geracional.

Feitas estas considerações um tanto ou quanto rabugentas, quero dizer que não só gostei de O ódio que você semeia como considero a sua leitura extremamente necessária por abordar um tema cruel com profundas raízes, tanto na sociedade norte-americana quanto na brasileira: o preconceito racial.

A personagem principal Starr é uma adolescente negra que presenciou o assassinato do melhor amigo de infância ser cometido à queima roupa por um policial branco.

Cansada de ver casos como este serem tratados com parcialidade e complacência pela justiça, ela se questiona se deve permanecer calada ou mostrar a sua indignação e contar exatamente o que sucedeu.

Pessoas como nós em situações assim viram hashtags, mas raramente conseguem ter justiça.

Além de ser testemunha dessa chocante brutalidade, na escola Starr suporta “brincadeiras” e comentários dúbios por parte de uma colega que se diz ser sua amiga. Mas até quando ela estará disposta a ouvir sem reclamar, apenas para não ser tachada de suscetível ou encrenqueira?

Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?

Assim como Starr, precisamos denunciar os preconceitos que persistem na nossa sociedade, quer sejam raciais, econômicos, de gênero ou culturais.

Aproveito para fazer o mea-culpa. Qualquer estilo literário deve ser valorizado por suas qualidades intrínsecas e não ser rotulado de forma depreciativa. Não existem gêneros melhores ou piores, existem livros bem escritos e livros ruins. Definitivamente não é o caso de O ódio que você semeia.

 

 

Na Minha Pele

Logo nas primeiras páginas percebi a importância de Na Minha Pele e me peguei pensando que ele deveria ser leitura obrigatória – ó palavra antipática! – para os alunos do Ensino Médio.

Do mesmo jeito que um pai amoroso não consegue admitir que sua filha venha a ganhar um salário inferior ao de um colega homem apenas pelo fato de ser mulher, ou que um troglodita abuse dela fisicamente simplesmente porque ela bebeu demais numa festa, está na hora de questionarmos seriamente por que é que as oportunidades de educação escolar, profissional e ascensão social são abissalmente desiguais para possuidores de fenótipos biológicos diferentes.

Por que estranhamos quando vemos um negro sendo o cliente e não o garçom de um restaurante chique? Por que todos os meus médicos são brancos? Qual o sentido de tudo isso e como é possível continuar vivendo com antolhos sociais?

Se esse debate não faz parte de muitas famílias brasileiras, está na hora das escolas levarem para a sala de aula o livro de Lázaro Ramos. E quem sabe, num futuro do qual tomara eu faça parte, a pergunta “É bom ser negro no Brasil?”, se tornará totalmente irrelevante. Por hora, eu sei qual é a resposta.

 

  • Na Minha Pele

Lázaro Ramos

Editora Objetiva

R$ 34,90

E-Book R$ 23,90

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