O meu Feitiço do Tempo

Na primeira vez em que ouvi falar do Instituto Estação das Letras ainda morava em Salvador. Tinha muita vontade de participar dos cursos que eram oferecidos, mas eles aconteciam ao longo de vários meses, e não de uma maneira compacta que me permitisse realizar viagens específicas de curta duração.

No final de 2017 retornei definitivamente ao Rio de Janeiro (se é que se pode falar em algo definitivo nos tempos tão estranhos que vivemos) e pude, a partir de então, fazer todos os cursos que me interessavam.

Estava no meio de um deles quando a pandemia chegou pra valer. De uma hora para a outra, tudo ficou em suspenso: talvez as aulas recomeçassem no final do mês, quem sabe em meados do mês seguinte…

A cidade parou – assim como o restante do país – e a programação do Instituto precisou se reinventar. Se os cursos não podiam ser presenciais então que fossem on-line. E não é que depois de alguns narizes torcidos deu tudo certo? Quem antes não participava porque morava em outra cidade, agora não tinha mais esta barreira. Se até então os colegas que vinham de longe eram de Niterói ou Jacarepaguá, agora chegavam de outros Estados e até mesmo de outros países.

As discussões em sala de aula continuaram tão ricas quanto antes, e a troca de sugestões de leitura, séries e filmes, por conta da quarentena, cresceu bastante.

Foi num desses encontros que mencionaram o filme “Feitiço do Tempo”, estrelado por Bill Murray e Andie MacDowell. Lembro de o ter visto, assim que chegou nos cinemas, há quase 30 anos, e não achar nada de extraordinário. Na verdade, pareceu-me meio bobinho. Mas, como já mudei tantas vezes de opinião sobre livros que não gostei ou larguei pelo meio, para mais tarde me encantar por eles, não custava nada rever o filme. Afinal, tempo de sobra era o que não me faltava. Aluguei o filme numa das últimas videolocadoras do Rio de Janeiro e apertei o play.

A história se passa numa cidadezinha cujo nome é impossível de se pronunciar: Punxsutawney. Um meteorologista arrogante e presunçoso é escalado pela rede de televisão onde trabalha para cobrir o evento mais importante da cidade: o Dia da Marmota. Segundo a lenda local, se o animal enxergar a própria sombra o inverno rigoroso permanecerá por mais seis semanas. Uma profecia sem qualquer fundamento científico mas que nunca falhou.

Nesse ano a marmota vê a sombra, o inverno continua e, inexplicavelmente, o meteorologista fica “preso” em uma armadilha temporal, impossibilitado de voltar para casa. Os dias se repetem num continuum entediante. Foi então, bem no meio do filme, que eu tive um estalo: A atual pandemia era a nossa prisão temporal!

Assim como no início o personagem do filme agiu de forma irresponsável, muitos de nós, e eu me incluo nesse grupo, justificou a monotonia dos dias sempre iguais, para comer o que não devia ou deixar de se exercitar. No entanto, entre ele e eu havia uma “pequena” diferença. Enquanto o personagem, interpretado por Bill Murray, podia se empanturrar de doces e carboidratos sem engordar um grama, as minhas calças avisaram que eu atingira um patamar deveras preocupante e que era bom parar com brincadeiras.

Mas de volta ao filme, à medida que os dias se repetiam o meteorologista notou que eles ofereciam sutis detalhes que mereciam ser apreciados. Pouco a pouco, passou a se interessar pelas outras pessoas e a fazer coisas que sempre tivera vontade – como aprender a tocar piano -, mas que deixara de lado por falta de tempo e dedicação, requisitos que agora possuía de sobra. Finalmente, quando a pandemia terminou, ups! quando o feitiço quebrou, ele era um homem bem mais interessante.

Pensei no meu “Feitiço do Tempo” e como o estava vivendo. Bem, além de ter me aventurado a fazer bolos e pudins, constatei que os afazeres domésticos “roubaram” um tempo precioso que antes dedicava a leitura e escrita. E pior, quando finalmente terminava as tarefas tinha dificuldade em me concentrar.

Assisti a várias minisséries na TV e, simultaneamente, fiz crochê. Até agora tenho umas quatro mantas para bebê, uma meia dúzia de polvinhos e uns três panos de bandeja. Mentalmente agradeci a quem pacientemente me ensinou a crochetar quando eu era menina. Quem diria que em plena era digital o trabalho manual seria um santo remédio para espantar a ansiedade?

O que tenho visto durante a quarentena

Quando a quarentena começou, imaginei que iria pôr a leitura em dia, e fazer todas aquelas arrumações que estou sempre adiando por falta de tempo.

Ingenuamente supus que também faria um detox das redes sociais. No entanto, aconteceu exatamente o contrário. Sem perceber, enredei-me em postagens que discutiam a necessidade de todo mundo colocar, ou não, uma máscara de proteção para ir à rua; se o isolamento horizontal não poderia ser substituído pelo vertical; se a hidroxicloroquina realmente era eficiente no combate ao corona vírus; sem contar nos embates ideológicos e teorias conspiratórias, tendo desta vez a China como vilã.

Como era de se esperar, a minha concentração para a leitura ficou seriamente prejudicada. Mudei então o meu foco para filmes e minisséries da Netflix.

Apesar de não ser fanática por futebol apreciei The English Game. Ela conta como o jogo surgiu na Inglaterra e deixou de ser um esporte das elites para se tornar uma atividade tremendamente popular. O que me chamou atenção foi a história e o roteiro serem de Julian Fellowes, o criador do megassucesso Downton Abbey.

Depois assisti A vida e a história de Madam C. J. Walker, sobre a primeira mulher afro-americana a se tornar milionária poucos anos depois da escravidão ter sido abolida dos EUA. Interpretada pela maravilhosa Octavia Spencer, Madam Walker fez fortuna ao criar uma rede de produtos de cabelos que eram vendidos por mulheres através de franquias.

Califado pegou-me de jeito, e em apenas três dias vi os oito capítulos. Trata-se de uma minissérie sueca, inspirada em acontecimentos reais que entrelaça três histórias: a atuação do extremismo islâmico para cooptar para suas hostes jovens que vivem em um país democrático e liberal; a luta contra o relógio para desarmar um atentado terrorista que não se sabe onde vai acontecer; e uma jovem que se arrependeu de ter casado com um jihadista e quer fugir da Síria.

Para aliviar a tensão, assisti à não menos interessante Nada Ortodoxa, uma minissérie baseada nas memórias da escritora americana Deborah Feldman. A personagem Esty cresceu numa comunidade judaica ultraortodoxa de Nova Iorque, na qual não se encaixa. Apesar de não ter estudos ou uma profissão consolidada, ela faz o caminho inverso de seus ancestrais e se refugia em Berlim, onde pretende recomeçar a vida.

Nada Ortodoxa é uma produção alemã e reconstitui de maneira fiel os costumes dessa comunidade hassídica de origem húngara que de tão fechada parece uma sociedade secreta. São apenas quatro episódios que se veem de uma tacada só.

Por último, continuo assistindo à minha favorita: Os caminhos do senhor. Trata-se de uma produção dinamarquesa que retrata uma família cujos membros são, há gerações, pastores da igreja luterana. Faz muito tempo que não via algo tão denso e especial. As interpretações são extraordinárias, os diálogos de primeira qualidade, as tensões e questionamentos profundos e a fotografia maravilhosa. Não dá para assistir a um capítulo seguido de outro. Os caminhos do senhor são para serem apreciados com parcimônia, degustando um episódio por vez.

Recomendo também o drama histórico espanhol A trincheira infinita. O filme ganhou diversos prêmios, inclusive o de melhor direção (Jon Garaño). Ele conta a história verídica de um homem que precisou se esconder quando os comunistas foram vencidos pelas forças nacionalistas de Franco. Ele sabia que, se fosse pego, teria o mesmo destino de seus companheiros de luta: a forca ou o paredão de fuzilamento. Por essa razão, ele viveu escondido dentro de casa por trinta anos (é isso mesmo que você leu). Por mais angustiada que eu tenha ficado ao assistir ao filme, ele me ajudou a encarar com mais tranquilidade o atual confinamento. Poderia ser bem pior.

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