Canção de Ninar

Há certos livros que demoro a pegar por causa do tema. Se por um lado ele aguça a minha curiosidade, por outro me deixa desconfortável. Olho para o livro meio de esguelha e me pergunto: será que tenho coragem?

A primeira vez que isso aconteceu foi com Paula, de Isabel Allende.  O assunto não poderia ser mais triste. O relato de uma mãe – no caso ela própria – falando sobre a filha que morreu aos 28 anos vítima de um erro médico.  Inquietava-me mergulhar no sofrimento da autora e encontrar uma leitura deprimente. Inacreditavelmente, não foi o que aconteceu. Apesar de ter lido Paula há muitos anos, lembro que foi uma leitura envolvente. Terminei com a sensação de que a autora conseguira fazer as pazes com uma dor imensurável e homenagear a curta vida da filha.

Recentemente voltei a ficar dúvida se deveria ler ou não outro livro. Desta vez foi Canção de Ninar, vencedor do Prêmio Goncourt de 2016, escrito pela franco-marroquina Leïla Slimani.

As opiniões das vendedoras que consultei na livraria do Leblon eram opostas: Enquanto uma dizia que em hipótese alguma leria algo sobre o assassinato de crianças – principalmente agora que era avó de um menino -, a outra o recomendava vivamente, alegando tratar-se de uma história muito bem narrada, graças ao estilo claro e direto da autora.

Como descobri depois, tanto este quanto o primeiro romance de Leila Slimani não são nem um pouco adocicados ou rasos. Ela gosta de mergulhar no lado sombrio da alma humana.

Se o livro Canção de Ninar foi inspirado num fato verídico que aconteceu nos EUA – o assassinato de duas crianças pela babá colombiana -, No Jardim do Ogro é tão perturbador quanto. Neste, a personagem principal sofre por ser ninfomaníaca. As duas narrativas transcorrem em ambientes familiares aparentemente serenos, que de uma hora para a outra são chacoalhados por acontecimentos devastadores.

Canção de Ninar escancara o pesadelo mais inconfessável de todos os pais que, pelas razões mais diversas, precisam deixar os filhos com estranhos. Esse medo costuma ser maior nas mães e, às vezes, vem acompanhado de um sentimento de culpa por não se sentirem realizadas exclusivamente com a maternidade.

Por mais apavorante que seja a história, ela serve de alerta para quando preferimos não prestar atenção a pequenos sinais de que algo não vai bem, e os empurramos para debaixo do tapete, esperando que tudo se resolva com o tempo.

Recomendo a leitura de Canção de Ninar, mas desde já aviso: é uma paulada violenta, difícil de ser esquecida.

 

  • Canção de Ninar

Leïla Slimani

Tusquets Editores

R$ 41,90

 

A verdade sobre o caso Harry Quebert

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“Um livro que será celebrado e estudado por futuros escritores!”

“Depois de A verdade sobre o caso Harry Quebert a literatura contemporânea nunca mais será a mesma. Veredito: Summa cum laude*”

O que esperar de um livro que recebe críticas como essas, e fica entre os quatro (eu disse quatro!) finalistas do prestigiadíssimo prêmio literário francês, o Goncourt de 2012, que já premiou escritores como Marguerite Duras, Michel Houellebecq, e Patrick Modiano vencedor do prêmio Nobel de Literatura deste ano?

Não é de estranhar que as minhas expectativas fossem as maiores possíveis, quando comecei a ler A verdade sobre o caso Harry Quebert de Joël Dicker.

Desde o início sabia que  tinha em mãos um livro de suspense. A história de um amor impossível entre um escritor de trinta e poucos anos e uma adolescente; o desaparecimento dessa mesma garota vista pela ultima vez sendo perseguida por um homem não identificado. Trinta e três anos depois sua ossada aparece enterrada no jardim desse escritor. Apesar de jurar inocência, ele se torna o principal suspeito e é massacrado pela mídia. É aí que entra o personagem principal do livro, um ex-aluno seu e famoso escritor que está enfrentando uma severa crise de bloqueio criativo. Mesmo correndo risco de vida, ele fará de tudo para descobrir o verdadeiro assassino.

A história começou muito bem, mas logo minhas expectativas sofreram algumas reviravoltas, tantas quantas as narradas na trama do livro.

Afinal como era possível alguém se apaixonar por uma menina tão chatinha e grudenta? E o que dizer dos outros personagens: O advogado incompetente e sem noção, a mãe judia verborrágica, o editor caricato e mercenário?  Assim mesmo, eu continuava agarrada na leitura do livro – como se estivesse andando numa montanha russa – com seus altos e baixos, mas me divertindo muito!

E é isso que A verdade sobre o caso Harry Quebert realmente é, pura diversão! Eu é que colocara expectativas demais, me deixara levar pelas críticas, pelos prêmios e sabe lá mais o quê.

Valeu a pena? Claro! Daria de presente? Com certeza! Inclusive é perfeito para ler nas férias de verão que se aproximam.

Meu único conselho é, não se impressione com as avaliações excessivamente elogiosas. Considerar como “magistral” ou “Um thriller que lembra o melhor de Truman Capote”, é com certeza um grande exagero.

Como curiosidade, em 2012 o vencedor do prêmio Goncourt foi Jérôme Ferrari com O sermão sobre a queda de Roma já publicado no Brasil pela Editora 34, e que corre o sério risco de entrar na lista: “Livros que lerei um dia”.

 

* Frase em latim que quer dizer Com a Maior das Honras. Representa a maior distinção e o reconhecimento por obter a máxima qualificação possível em uma titulação universitária, especialmente nos níveis do mestrado ou doutorado.

 

  • A verdade sobre o caso Harry Quebert

Joël Dicker

Editora Intrínseca

R$ 39,90

E-Book R$ 24,90

 

  • O sermão sobre a queda de Roma

Jérôme Ferrari

Editora 34

R$ 42,00

Três mulheres fortes

Três mulheres fortesCaso prefira uma leitura fácil e descompromissada desaconselho a leitura de “Três Mulheres Fortes”. Este é um daqueles livros que merecem ser apreciados com certo vagar.

A autora, Marie NDiaye, começou a escrever muito cedo, com 12 anos, e desde então não parou mais. Seus livros já receberam diversos prêmios, sendo o último, em 2009, o mais importante e prestigiado da literatura francesa – o Prêmio Goncourt .

A autora fala do que conhece bem. Assim como a personagem de uma das histórias, ela também é filha de mãe francesa e pai senegalês. Os desencontros culturais retratados nas duas primeiras narrativas não lhe são estranhos, e certamente escutou mais de uma vez, o relato que conta por último.

A prosa de Marie NDiaye tem força. Ela mergulha no íntimo dos personagens e revela de forma magistral o que eles têm de mais mesquinho e frágil.

Os parágrafos podem, inicialmente, parecer um tanto ou quanto cansativos, mas é graças a essa descrição minuciosa que as angústias e sonhos dos protagonistas passam a pertencer ao leitor.

Três mulheres vivendo situações limite transitam entre o Senegal e a França. Em mundos onde os homens ainda são algozes; uma sociedade destruidora de sonhos, mas  incapaz de aniquilar a chama interior que cada uma carrega dentro de si. Submissas por falta de opção aos respectivos destinos, mas nunca derrotadas.

  • Três Mulheres fortes

Marie NDiaye

Editora Cosac Naify

R$ 55,00

O bom leitor

Pilha-de-livros

Recentemente li uma entrevista* com o escritor Luis Antonio de Assis Brasil onde dizia que, para ele, o bom leitor era: “O que lê muito len-ta-men-te, buscando a fruição do texto, valorizando cada palavra, cada parágrafo. Um romance que exigiu seis anos de escrita, dúvidas, alegrias e pesares, não pode ser lido numa tarde”.

Realmente, o autor merece ter a sua obra apreciada com vagar e cuidado, mas como isso fica mais difícil de se conseguir a cada dia que passa!

Já comentei antes que não sou uma “devoradora” de livros. Normalmente permito-me uma leitura tranquila que dura em torno de uns quinze dias. Entretanto aquela vozinha interior não para de lembrar que, enquanto leio len-ta-men-te, outros tantos se acumulam. Dessa forma minha insatisfação é permanente, e as anotações de livros, que pretendo ler um dia, não param de crescer.

Recentemente acrescentei mais cinco títulos à lista. Os estilos são bem diferentes, e de autoras que não conheço. Curioso, só agora percebi que os escritores, pelos quais me interessei, são todos mulheres.

O primeiro é “Tipos de perturbação” um livro de contos bem curtinhos, escrito por Lydia Davis, autora americana, e ganhador este ano do prestigiado Man Booker Prize;  depois me interessei por ”O povo eterno não tem medo” primeiro romance de Shani Boianjiu, jovem escritora israelense, que narra o amadurecimento precoce de três amigas, que têm a pouca sorte de prestar o serviço militar obrigatório durante a guerra;  foi através do meu filho que ouvi falar, pela primeira vez, da jornalista Juliana Cunha autora do blog “Já matei por menos”. Os melhores textos foram reunidos em um livro editado pela Lote 42. Quero conhecer o trabalho desta escritora hipster**, que provavelmente logo o deixará de ser, visto que acaba de ser citada no blog de alguém com idade para ser sua mãe;  “Três mulheres fortesfoi escrito por Marie NDiaye e ganhou o prêmio Goncourt 2009. Marie é francesa, mas o sobrenome revela sua ascendência africana – o pai é senegalês;  por último na lista está “Quiçá” de Luisa Geisler, escritora brasileira selecionada pela revista Granta como integrante do grupo dos melhores jovens escritores brasileiros.

Haja tempo e dinheiro para ler tudo o quero!

* Jornal Rascunho  março 2003

**Algo ou alguém que está na vanguarda dos modismos culturais. Quando começa a ser popular ou lugar-comum deixa de ser hipster.

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