Um poço sem fundo

Um blog que acompanho sugeriu, para quem gosta de livros que falam sobre outros livros, a leitura de Firmin. O livro foi escrito por Sam Savage, um autor norte-americano falecido no início deste ano. Ao ser publicado em 2006, a obra fez bastante  sucesso, não só pela qualidade do texto, mas também pelo inusitado personagem principal e narrador: um rato.

Lembrei que ganhara o livro de um representante da editora na época em que trabalhei na Livraria Galeria do Livro em Salvador. O meu exemplar era especial, porque as bordas haviam sido propositalmente “roídas”. Essa peculiaridade fez com que o guardasse por quase dez anos.

Aproveitei que iria me refugiar na serra fluminense para fugir dos blocos de Carnaval e do calor infernal do Rio de Janeiro, e desentoquei-o da estante.

Gostei da história contando os dissabores vividos por um rato. Para aplacar a fome, ele devorava as páginas dos livros guardados no depósito da livraria onde havia nascido. O efeito colateral dessa dieta forçada foi que aprendeu a ler por conta própria. No início qualquer livro servia, mas aos poucos o gosto dele foi se refinando:

“Percebi, primeiro, que cada livro tinha um gosto diferente – doce, amargo, azedo, rançoso, salgado, ácido. Notei também que cada sabor trazia consigo uma carga de imagens, representações mentais de coisas sobre as quais eu não sabia nada, devido à minha limitada experiência do mundo real. (…) Com o passar do tempo, fui lendo mais e mastigando menos até que, finalmente, passei a gastar quase todas as minhas horas de vigília lendo e mordiscando apenas as bordas.”

A leitura de Firmin despertou-me a curiosidade para conhecer alguns dos escritores ali mencionados. Foi o caso de Grace Metalious. Gostei da sonoridade do nome, Metalious, Metalious… quem seria Grace Metalious?

Descobri que a escritora chocou a sociedade puritana norte-americana, no final da década de cinquenta, com o seu romance, Peyton Place. A trama retratava os segredos e a hipocrisia de uma pequena cidade suburbana, supostamente aquela onde a escritora morou. Apesar de ter sido considerado um lixo pela crítica especializada, o livro vendeu mais de 12 milhões de exemplares.

No ano seguinte, virou um filme, A Caldeira do Diabo. Com um grande elenco de astros de Hollywood, a versão cinematográfica de Peyton Place concorreu a nove Oscares, mas não ganhou nenhum.

A expressão Peyton Place virou sinônimo de um local ou grupo repleto de fofocas, segredos e traições, e  tornou-se metáfora para algo escandaloso: “É Watergate ou Peyton Place?”, perguntou um congressista americano durante as audiências de impeachment de Clinton, em 1998.

Encontrei um site que comercializa uma caneca com a frase Peyton Place e a respectiva explicação, sugerindo que ela seja oferecida de presente ao atual presidente dos EUA. Há gosto para tudo.

Agora, não me aflijo apenas com os livros que jamais terei tempo de ler, mas também com os filmes que gostaria de ver. Preciso de outras vidas para dar conta de tanta curiosidade. Ela é um poço sem fundo.

 

* Infelizmente, Firmin está esgotado e só pode ser comprado através do site Estante Virtual.

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