Sempre em movimento – Uma vida

Oliver-SacksNão li nenhum dos livros que fizeram o neurologista Oliver Sacks famoso. Apesar dos títulos curiosos como Tio Tungstênio, Um antropologista em Marte, Com uma perna só e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, nunca me interessei muito pelo tema: patologias neurológicas.

Com um atraso de 25 anos, assisti ao filme Tempo de despertar, no qual Oliver Sacks é representado pelo ator Robin Williams e um de seus pacientes por Robert de Niro. O filme baseou-se no livro do mesmo nome, onde o médico narrou os resultados de uma experiência medicamentosa que fez em 80 pacientes que viviam paralisados e sofriam as sequelas de uma epidemia de encefalite letárgica, também conhecida como doença do sono, que se espalhou pelo mundo no início dos anos 1920.

Aos poucos comecei a prestar atenção nesse médico de barba branca e olhar perspicaz. No final do ano passado, li a carta de despedida que publicou no New York Times, quando soube que estava com um câncer terminal. Ao concluir a leitura estava irremediavelmente encantada por esse velhinho que até o fim se manteve curioso e grato com tudo que aprendeu e viveu.

Logo depois, ganhei de presente seu livro de memórias: Sempre em Movimento – uma vida.  Foram quase quinze dias de leitura e muitas recomendações aos amigos para que fizessem o mesmo.

Recentemente li no jornal Rascunho uma entrevista com o escritor holandês Arnon Grunberg em que ele dizia: “A nossa vida pessoal é um grande material (para criar histórias), o autor só precisa de distância e uma saudável aversão pela auto-censura.”

Pois desse mal o autor não padece. Com a maior naturalidade, comenta as próprias vivências que muitos outros em seu lugar prefeririam esconder. Uma das histórias que mais me impressionou foi a admissão de ter sido responsável, mesmo que involuntariamente, pela derrocada de um querido amigo, ao lhe apresentar drogas pesadas. Drogas que por alguns anos ele também consumiu!

Entre muitas outras lembranças o autor recorda a péssima reação da mãe ao saber que ele era homossexual; as dificuldades em conviver com um irmão esquizofrênico, e a frustração de ter suas idéias para um futuro livro “roubadas” pelo orientador.

Não foi difícil recuperar todas essas memórias porque, desde os 14 anos, o autor mantinha o hábito de escrever um diário. Na última vez que os contou, ele era composto de quase 1.000 cadernos nos mais variados tamanhos e espessuras.

Entretanto, sua verdadeira paixão sempre foi o estudo de distúrbios neurológicos e como eles afetaram a vida de milhares de pessoas.  Síndromes como a Tourette e o autismo ganharam uma visibilidade que até então não possuíam.

Após conhecer o estilo literário de Oliver Sacks, compreendi a razão de seus livros fazerem tanto sucesso. Ao aliar o rigor científico a uma escrita afetuosa e instigante, tornaram-se acessíveis ao grande público. Um público sempre ávido por compreender a linguagem misteriosa dos médicos.

 

  • Sempre em movimento – uma vida

Oliver Sacks

Editora Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,90

Gratidão

GratidãoQuer tenhamos consciência ou não, todo final do ano é um convite para fazermos um balanço de nossas vidas. O que fizemos durante o ano que, muito em breve, fará parte do nosso passado? Crescemos profissionalmente, estreitamos relações com familiares e amigos, desenvolvemos nossos talentos?

Assim como todo ano termina, da mesma forma, toda vida humana também tem um fim. Muitas vezes inesperadamente, sem qualquer preparação, sem oferecer a possibilidade de corrigir pendências ou de realizar aquilo que se adiou, às vezes por pura negligência.

Deus queira que eu morra velhinha e, quando olhar para trás, me orgulhe de minhas conquistas e aceite os fracassos, assim como Oliver Sacks o fez em seu livro póstumo: Gratidão.

Nele estão reunidos quatro ensaios onde ele fala sobre envelhecer, adoecer e a morte que se aproxima. Deprimente? Muito pelo contrário. O sentimento que perpassa todos eles é o de gratidão por uma vida bem vivida.

“Não consigo fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi. (…) Acima de tudo fui um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e uma aventura.”

Este pequeno livro, com menos de sessenta páginas, é cheio de entusiasmo e serve de reflexão para enfrentarmos com entusiasmo o novo ano que em breve se inicia.

 

  • Gratidão

Oliver Sacks

Companhia das Letras

R$ 29,90

%d blogueiros gostam disto: