O leitor que eu imagino – Jorge Miguel Marinho

Jovem Leitor – Ignat Bednarik / pintor romeno

O leitor que eu imagino sente e sabe que a leitura é um modo de ser feliz.

Ele sempre termina a leitura de um livro com o sentimento, calmo e inquieto, de recomeço.

Ele também nunca lê um livro querendo apenas entender ou decifrar o que o livro quer dizer – ele recria o que o livro é capaz de sugerir.

O leitor que eu imagino é criativo quando pergunta e criativo quando responde – para ele o livro é uma eterna indagação.

Ele não tem o menor interesse em saber quantos livros leu na vida porque cada livro são muitos livros dentro de um livro só.

O leitor que eu imagino quer que o livro seja ele, o próprio leitor, e escreve nas beiradas da página, grifa as palavras, rabisca o livro para poder assim ficar e existir dentro e fora do livro.

O leitor que eu imagino lê nos livros as situações mais conhecidas ou desconhecidas por ele sempre com olhos de primeira vez – por isso mesmo ele chama o livro de “lugar de revelações”.

O leitor que eu imagino lê em silêncio e silenciosamente conversa com o mundo, trocando palavras e imagens num diálogo sem fim.

O leitor que eu imagino sabe que a literatura faz existir o que ainda não existe.

Ele, O leitor que eu imagino, acolhe e hospeda cada vez mais personagens dentro dele e igualmente se torna mais solidário com a vida, depois de cada livro que lê.

Ele interrompe a leitura, mesmo quando ela é inadiável, pelo prazer de fingir que o livro não existe por um momento e, de repente, poder lembrar que o livro é de verdade e voltar a ser feliz.

O leitor que eu imagino nunca é capaz de saber o momento exato em que abriu e iniciou a leitura de qualquer livro – ele precede e pressupõe os sentidos de um livro antes de começar a ler.

Ao menos muitas vezes ou quase sempre na vida do leitor que eu imagino, ele pede, compra, empresta e até rouba livros sabendo muito bem que ele não vai ter tempo o bastante para ler todos os livros que tem.

Este mesmo leitor sabe, porque outro leitor sensível já alertou que, se ler não salva, não ler salva menos ainda, às vezes não salva nunca.

É preciso saber atribuir sentidos às palavras, criar sentidos ou até mesmo inventar os sentidos de um livro para ser o leitor que eu imagino.

É destino e missão do leitor que eu imagino aprender a escutar as palavras e as idéias e os silêncios de um livro, sem que ele, o livro, se imponha para ser lido – o livro apenas é.

O leitor que eu imagino, antes de buscar o conhecimento utilitário ou pragmático dos livros, vive a experiência da leitura como puro devaneio.

Para leitor que eu imagino existe um livro escrito especialmente para ele, igual a um amor predestinado, ainda que este encontro viva somente no imaginário de quem lê como quem ama e de quem ama como quem lê.

 

Este texto que me tocou profundamente foi retirado do artigo, “O LEITOR (de criatura a criador)”, escrito por Jorge Miguel Marinho, e que saiu no Jornal Literário Rascunho de fevereiro deste ano.

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