Alemanha em dose dupla

Meu primeiro neto nasceu no início de março na Alemanha. Antes do ano virar de ponta cabeça, cheguei a pensar em viajar em maio para conhecê-lo. As temperaturas já seriam amigáveis e os novos pais estariam mais tranquilos para dividir as atenções entre o filho e os avós que vinham de longe e não falam uma palavra de alemão.

Infelizmente, eu, assim como o mundo inteiro, precisei refazer os planos, e, pela milionésima vez, agradeci mentalmente à tecnologia que me permite acompanhar em tempo real o crescimento do bebê.

Enquanto isso, trancada em casa, encontrei na Netflix um documentário alemão: Uma Morte em Vermelho (Rohwedder – Unidade, Assassinato e Liberdade: Um crime perfeito).

O documentário tentava desvendar quem foram os responsáveis pelo assassinato do empresário Detlev Rohwedder, escolhido para comandar a privatização e a venda das empresas estatais da Alemanha Oriental, durante o período da reunificação alemã.

Impossibilitada de viajar, o melhor que eu tinha a fazer era me informar sobre a história recente do país do meu neto.

Por morar na América do Sul, longe de onde tudo aconteceu, fiquei com a ideia de que a queda do Muro de Berlim havia sido uma grande festa para todos os alemães. No entanto, a minissérie mostrou uma outra realidade, a dos alemães do lado Oriental, principalmente os mais velhos, bastante insatisfeitos com a reunificação.

Acostumados a viver sob a proteção de um governo socialista onde o acesso à saúde e educação eram gratuitos e o trabalho garantido, de uma hora para a outra, viram-se desempregados ou disputando trabalho com uma mão de obra mais qualificada e competitiva.

Apesar do tema principal da minissérie ser o assassinato de Rohwedder – a versão mais plausível é de que foi perpetrado por um grupo terrorista da extrema-esquerda, conhecido fora da Alemanha como Baader-Meinhoff, fiquei mais interessada em saber o que de fato acontecera a um povo que viveu separado apenas por quarenta anos.

Paro para reler o que acabei de escrever. “Apenas” quarenta anos pode ser um curto intervalo de tempo em termos históricos, quando se é estudado dentro de uma biblioteca ou em sala de aula. Mas vá dizer isso para aqueles que o viveram e tiveram seus destinos alterados por forças externas, muitas vezes para sempre, e não puderam escolher se era isso mesmo o que queriam ou não. Para eles quarenta anos é uma eternidade.

Ao pesquisar na internet sobre essa época, encontrei no meio de vários títulos sisudos um que me agradou: A Casa no Lago.

O livro foi escrito pelo jornalista inglês, Thomas Harding, e conta a história da Alemanha desde a década de trinta do século passado até os dias atuais, tendo como eixo principal uma casa localizada à beira de um lago perto de Berlim, e as transformações pelas quais passou enquanto cinco famílias diferentes ali viveram.

Harding é o neto da primeira moradora, que fugiu para Londres com os pais assim que as perseguições contra os judeus se intensificaram. Com o fim do nazismo, a casa ficou do lado controlado pelos soviéticos, e um muro duplo foi construído entre ela e o lago impedindo que os moradores passassem para a outra margem controlada pelos aliados. Quando a guerra fria terminou a casa à beira do lago ficou abandonada. Quem seria o seu legítimo dono?

Decidido a resgatar a casa que sua avó considerava como o seu “lugar da alma”, o autor fez uma pesquisa exaustiva, entrevistando antigos moradores, mobilizando residentes e autoridades até conseguir evitar que ela fosse demolida.

Depois de muitas idas e vindas, a casa foi considerada um marco histórico da reconciliação germano-judaica e abriu à visitação púbica.

(Enquanto escrevo este post, em dezembro de 2020, a casa encontra-se fechada aguardando o retorno de dias mais seguros e saudáveis.)

HEIMAT

Recentemente vi o filme Jojo Rabbit que, de maneira irreverente, retratou pelo olhar de um menino a ascensão do nazismo e os impactos dessa ideologia na vida de cidadãos comuns.

Apesar da abordagem caricatural, ele me fez refletir, pela milésima vez, como as pessoas se comportam em épocas de crise.

Recordei a minha infância e a lavagem cerebral que recebi durante o governo salazarista. Do alto dos meus onze anos, de tanto ouvir falar na grandeza da nação costumava dizer que preferia morrer a perder as colônias portuguesas. Por esse motivo não estranhei que um garoto se deixasse contaminar, e tivesse como amigo imaginário o próprio Hitler.

Entretanto não consegui apreciar a minissérie Hunters, onde, mais uma vez, os nazistas e suas ideias abomináveis entram em cena. Admito que me distraí em alguns momentos e até mesmo gostei do desfecho surpreendente. Mas incomodou-me a utilização leviana de relatos verídicos, sobre o grande sofrimento infligido aos judeus, para contar uma história caricata entre mocinhos e bandidos. Quando terminou fiquei com a impressão de ter assistido a mais uma desnecessária teoria de conspiração.

Por coincidência, na mesma época em que vi o filme e a minissérie, estava lendo um romance gráfico que me agradou bastante. Trata-se de Heimat – ponderações de uma alemã sobre sua terra e história. Nele, a escritora Nora Krug recuperou as lembranças dos familiares que viveram durante a Segunda Guerra Mundial. O livro é composto de recortes, documentos oficiais, fotos, cartas e colagens e revela como foi a vida durante esse período sombrio da história da Alemanha. Estão lá os medos, dores, inseguranças, omissões e pouquíssimas esperanças. Um passado vivido por toda uma nação do qual as novas gerações procuram se distanciar.

Os alemães têm palavras bem compridas para designar com precisão uma sensação ou um sentimento. É o caso da palavra que dá nome ao título do livro: Heimat.

Heimat é um lugar especial onde você se sente acolhido e seguro. É mais do que um lar, ele pode ser real ou imaginário, mas você o associa a uma sensação de pertencimento onde suas crenças e valores o deixam confortável e não é necessário explicar quem se é. Mas qual seria esse lugar para a autora quando não se conhecem as fundações que o apoiam?

O livro não procura fazer um acerto de contas. Apenas reconhece que se grandes erros foram cometidos também houve tímidos e vitais gestos de solidariedade.

Ao tirar do limbo a história da família e se reconciliar com ela, Nora Krug abraça o presente sem guardar esqueletos escondidos no armário.

Heimat é uma biografia nada convencional que merece ser desfrutada.

O farol solitário

No jardim das feras

No Jardim das Feras”  é muito mais que um empolgante romance histórico. Além de ser um relato verídico é uma magnífica aula de História!

Corre o ano de 1933 e o presidente Franklin Roosevelt após várias tentativas frustradas para preencher o cargo de embaixador em Berlim, nomeia William E. Dodd – diretor do departamento de História e professor da universidade de Chicago – para ocupar a posição na Alemanha.

Certamente um professor universitário não seria o homem ideal para assumir essa responsabilidade. Aos 64 anos o maior propósito na vida de Dodd era encontrar tempo para terminar de escrever a história do “velho” sul estadunidense.

Desconhecia por completo as sutilezas e meandros do mundo diplomático e como ele mesmo se definiu: “não sou do tipo dissimulado, de duas caras, tão necessário para a tarefa de mentir lá fora em nome do país”. Mas como poderia recusar um convite feito pessoalmente pelo presidente?

Ao desembarcar na Alemanha com a família – mulher e um casal de filhos adultos – o novo embaixador chegou com duas missões extremamente espinhosas.

A primeira, cobrar o pagamento da dívida que o governo alemão fizera com banqueiros americanos – no valor de 1,2 bilhão de dólares; e a segunda, manifestar-se contra as perseguições infligidas aos judeus, sem prejudicar as relações entre os dois países e assim inviabilizar o pagamento da dívida.

Ao fazer esse protesto deveria também ser cauteloso, para não enfurecer as autoridades alemãs e provocar uma avalanche indesejável de emigrantes, numa época em que os EUA enfrentavam uma forte recessão e desemprego.

Quando chegaram a Berlim a impressão inicial foi bastante agradável. No seu diário Martha – filha do embaixador – escreveu o seguinte: “achei que a imprensa ((americana) tinha caluniado o país, e eu queria apregoar o calor e a afabilidade das pessoas, a suave noite de verão com sua fragrância de arvores e flores, a serenidade das ruas”.

Utilizando-se dos diários e correspondências de Dodd e Martha; dos relatórios trocados entre o embaixador e seus superiores; e de relatos escritos por membros da embaixada e consulado americano, o autor constrói um detalhado e angustiante panorama das mudanças ocorridas assim que  Hitler ascendeu ao poder.

Se no início Dodd fora suficientemente ingênuo em acreditar que por ser o embaixador dos EUA poderia influenciar e, até mesmo, manter uma conversa racional com o chanceler alemão, ao final do primeiro ano estava profundamente desapontado.

Durante quatro anos e meio tentou – inutilmente – convencer o Departamento de Estado norte-americano das aberrações que presenciava e do perigo que Hitler representava para a Paz Mundial. Tratado com condescendência e certa pilhéria retornou definitivamente ao seu país no final de 1937.

Em fevereiro de 1940, poucos meses depois de Hitler invadir a Polônia – dando início à Segunda Guerra Mundial – falecia aquele a quem o presidente Roosevelt chamou de “um farol solitário da liberdade e da esperança americanas numa terra onde as trevas se avolumaram”.

  • No jardim das feras

Erik Larson

Editora Intrínseca

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