Passarinha

Ao arrumar a estante de livros encontrei Passarinha, escrito por Kathryn Erskine. Comprei-o há alguns anos, mas, como passei outras leituras na frente, ele ficou esquecido por muito tempo. Na época interessei-me pelo livro porque Passarinha ganhara o prestigiado National Book Award de 2010, na categoria juvenil.

Comecei a folheá-lo e como estivesse gostando, reli as informações da contracapa. Um comentário em especial chamou-me a atenção:

Este livro vai lhe dar uma boa sacudida e se não se tornar um clássico, há algo de errado com todos nós”.

Quem seria esse Jim Trelease que o escreveu? Parei a leitura e fui pesquisar. (sou expert em me desviar daquilo que estou a fazer no momento) O Google informou tratar-se de um educador norte-americano que enfatiza a importância de se ler em voz alta para crianças, por acreditar que essa é a melhor forma delas se apaixonarem pela literatura.  Ele escreveu o livro The Read-Aloud Handbook (O manual de leitura em voz alta) traduzido para diversos idiomas tão diferentes quanto polaco e japonês e que vendeu mais de duas milhões de cópias ao redor do mundo. Hum… será que foi publicado no Brasil? (mais uma pesquisa na internet) Não, não foi, e acho até que seria uma boa ideia.

Mais outra ressalva: Para melhor se aproveitar Passarinha, recomendo a leitura de O sol é para todos de Harper Lee, ou, melhor ainda, que se veja o filme baseado no livro. O ator principal, Gregory Peck, teve uma atuação memorável, merecedora de ganhar o Oscar de Melhor Ator em 1963. O livro de Kathryn Erskine faz muitas referências ao clássico americano. Inclusive o próprio título é a tradução livre de Mockingbird, o pássaro que consta no título original: To kill a mockingbird.

E agora foco, Paula, pare de dispersar! Volte ao livro Passarinha razão deste post.

O livro conta a história de Caitlin, uma menina com uma capacidade acima da média para a leitura, que desenha muito bem em preto e branco e é portadora da Síndrome de Asperger. Este transtorno a impede de fazer amigos, porque além de não compreender o que as expressões faciais querem dizer, ela é muito literal ao falar e a entender o que lhe dizem.

Se já não é fácil decodificar o mundo que a cerca, Caitlin precisa, também, aprender a lidar com o assassinato do irmão. Era ele quem a ensinava a se comportar diante das situações corriqueiras do cotidiano.

O livro impressionou-me bastante por mostrar, com clareza, como pensa um portador com essa síndrome. Por diversas vezes tive vontade de abraçar e acarinhar a personagem, mesmo sabendo que isso seria impossível, pois Catlin não gosta que as pessoas invadam o seu espaço pessoal.

Apenas um exemplo: Para Catlin a hora do recreio era uma autêntica tortura. Enquanto para as outras crianças o recreio era diversão, para ela era uma “aula”, onde se gritava, a luz era forte de mais e se recebiam empurrões de todos os lados.

Gostei muito de Passarinha. Uma leitura sofrida e, ao mesmo tempo, apaixonante. Como não me encantar com uma história que fala de empatia e solidão? Se há um sentimento que perpassa toda a história é a necessidade de acolher aqueles que são diferentes de nós. Nada mais atual e necessário.

Aguapés

aguapes_capa.pdfQuando em 2013 soube que Jhumpa Lahiri havia escrito um novo romance fiquei animadíssima. Ela é a autora de Intérprete de Males, um livro que considero como dos melhores que li até hoje.

Apesar de saber que esse novo romance, Aguapés, fora finalista de dois prêmios literários importantíssimos, o Man Booker Prize e o National Book Award, resisti o quanto pude para o ler. Estranho, não?

Talvez nem tanto se explicar que tenho a estranha mania de não ler mais nada de um escritor se após ler algo que me agradou muitíssimo, leio em seguida algo dele que me decepciona. E foi isso o que aconteceu com O Xará, de Jhumpa Lahiri. Não me recordo mais qual foi a razão, pois já faz muito tempo, mas não gostei do livro.

Recentemente reli Intérprete de Males e mais uma vez senti o frescor e contentamento da primeira leitura.

Deixei de lado as minhas bizarrices e comprei Aguapés. Mas não me rendi facilmente. O livro estáva ali, do meu lado, mas vários outros passaram na sua frente.

Aguapés foi a ultima leitura do ano, e posso dizer que o fechei com chave de ouro!

Entrei em águas conhecidas e mergulhei na prosa elegante e enxuta de Jhumpa Lahiri que desliza sem sobressaltos.

Aguapés são bonitas plantas aquáticas que nascem nos rios ou em terras alagadas.  Podem ser utilizadas para despoluir as águas que estiverem contaminadas por esgotos. Mas se proliferarem desordenadamente acabam por “asfixiar” os rios e lagoas que haviam salvado.

Pois foi à beira de terras como essas, na periferia de Calcutá na Índia,  que os irmãos Subhash e Udayan cresceram. Inseparáveis e de temperamentos opostos, eles se completam. Até que o mais velho decide seguir os estudos nos EUA e o mais novo entra numa organização politica clandestina.

Durante algum tempo trocam cartas contando como corre a vida de cada um. Mas Subhash conhece o irmão melhor do que ninguém e percebe o fosso que se forma entre eles dois.

Um dia recebe um telegrama avisando, sem maiores explicações, que Udayan morreu.

Ao retornar à casa dos pais conhece a cunhada, agora viúva e grávida. É Gauri que lhe conta que o irmão foi assassinado pela polícia.

Num gesto impensado Subhash decide se casar com ela e levá-la para os EUA. No entanto as coisas não correm exatamente como imaginou. Por mais que se esforce, eles não conseguem construir uma familia. Gauri ergue muralhas invísiveis ao seu redor e silencia sobre o próprio passado, do qual não consegue se libertar.

São muitos os estranhamentos e descompassos – tanto culturais quanto os de relacionamento entre os personagens – e  Jhumpa Lahiri  com sua prosa segura e delicada os apresenta de maneira magistral e sedutora.

Um segredo pode ser tão danoso quanto um aguapé.  Inicialmente pode proteger alguém, mas com o passar do tempo torna-se um fardo difícil de suportar, alastra-se silenciosamente e quando nos damos conta já contaminou tudo ao redor.

  • Aguapés

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