Cebola crua com sal e broa

Não acredito que o último livro de Miguel Sousa Tavares, Cebola crua com sal e broa, venha a ser publicado no Brasil. O livro é português demais. Quero com isto dizer que apesar de ser uma quase autobiografia, o autor comenta bastante sobre a política portuguesa. Assunto que duvido interesse aos leitores brasileiros, mesmo quando ele faz uma breve apreciação sobre os fatos ocorridos no Brasil, que acabaram por se desdobrar em Portugal:

Quando vi os antigos heróis do PT reconvertidos à próspera e promíscua advocacia de tráfico de influências, de mãos dadas com os seus mais ilustres colegas do ramo lisboeta da mesma actividade, compreendi que mais uma esperança tinha morrido para o Brasil.*

Mas nem tudo é política em Cebola crua com sal e broa. No livro o autor narra passagens de sua infância e vida profissional: primeiro como advogado, depois como jornalista, apresentador de programas de televisão e escritor.

Uma em especial me fez recordar o modo de viver dos portugueses, antes de terem suas vidas chacoalhadas pelo vendaval que foi a Revolução dos Cravos:

As pessoas gozavam a paz salazarenta de uma vida em que nada acontecia e davam graças a Deus por isso, numa existência em que apenas pediam que cada dia fosse igual ao anterior e terem uma “santa morte” no final.

Essa pasmaceira refletia-se na maneira de vestir dos portugueses. As roupas dos homens eram sempre nas cores cinza, preto, castanho e azul marinho. O único colorido visível era o branco das camisas, usadas com gravatas escuras. Acostumada a essa sobriedade, levei um susto quando, ao me mudar com a família para o Rio de Janeiro, vi pela primeira vez rapazes de bermudas floridas caminhando no calçadão ou usando sungas nas praias.

A leitura de Cebola crua com sal e broa foi também uma aula concisa do que aconteceu em Portugal depois que vim para o Brasil. Personagens públicos que até então minha ignorância desvalorizava, tornaram-se heróis. Foi o caso do político Mário Soares. Eu não sabia que ele tinha sido responsável, juntamente com o apoio de outros governantes europeus,  por Portugal não ter se tornado um país satélite da URSS, igual aos do leste europeu.

Pelo que li em Cebola crua com sal e broa, imagino que a personalidade de Miguel Sousa Tavares seja considerada por seus conterrâneos controversa. Ele não tem papas na língua e diz exatamente o que pensa, sem se preocupar se está “pisando nos calos”de algum poderoso.  Dito isto, gostei de conhecer o pensamento e a trajetória de vida daquele que escreveu um dos meus livros favoritos: Equador. Uma leitura inesquecível.

 

 

*Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

E eu fui a Lisboa!

Antes de mais nada, quero pedir desculpas às amigas portuguesas por não as ter procurado quando estive recentemente em Portugal. Foram poucos dias e as saudades que tinha da minha irmã e de meu filho eram tantas que foi neles que concentrei todos os meus beijos e vontade de atualizar as conversas.

Levei o guia ‘’Vá a Lisboa e me leve com você’’. Minha irmã, que acompanhou as andanças, ficou impressionada como ele está atualizado.

Quando o adquiri no início do ano, montei um mini roteiro com o que pretendia visitar da próxima vez que fosse a Lisboa. Claro que não pude fazer tudo o que queria, mas mesmo assim estive no Museu Nacional do Azulejos e apreciei o painel O Casamento da Galinha mencionado no guia. Dentro do complexo, do qual faz parte o museu, surpreendi-me com a beleza da igreja do convento Madre de Deus, de deixar qualquer visitante de queixo caído.

Consegui tambem almoçar n’O Magano em Campo de Ourique. Felizmente fizemos reserva, porque o restaurante estava socado de gente. O couvert oferecido, por si só, era uma refeição completa: saladinha de polvo, mini rissoles de camarão, empadinhas de galinha, cogumelos recheados. Cada entrada mais deliciosa do que a outra. Para fechar com chave de ouro o programa, sentado numa mesa ao lado rodeado de amigos, estava o escritor Miguel Sousa Tavares. Ele é o autor de um romance histórico que muito aprecio e costumo indicar para todo mundo: Equador.

A minha empolgação foi grande porque na véspera ao fazer  uma visita relâmpago a uma livraria, tinha comprado o seu último livro: Cebola crua com sal e broa. Pena que o deixara no hotel e não pude pedir-lhe que escrevesse uma dedicatória.

Na verdade, eu tinha ido à livraria atrás de outro livro, que me havia sido indicado pela professora do curso que estou fazendo no Instituto das Letras. Era a primeira vez que ouvia falar em Afonso Cruz e achei o título muito curioso: ‘’Vamos comprar um poeta’’.

Fiquei sabendo que o escritor é tambem ilustrador, cineasta e músico, e recebeu diversos prémios nas áreas em que atua. Aqui no Brasil a editora Companhia das Letras publicou: ‘’Flores’’ e “Jesus Cristo bebia cerveja’’.

A ideia inicial era ler rapidamente ‘’Vamos Comprar um Poeta’’, visto que o livro tem apenas 100 páginas, e depois oferecê-lo à professora. Mas achei a história tão original que mudei de ideia. Posso até emprestá-lo (que perigo!), mas quero guardá-lo na minha estante.

Na manhã do dia em que regressei ao Brasil, encontrei tempo para visitar o Centro Cultural de Belém. Depois, passei rapidinho na loja de souvenirs. Bem na entrada, uma capa despojada com um título sucinto chamou minha atenção: ‘’Lisboa o guia ilustrado’’, um projeto pessoal de Amir-Alexandros Afendras. Folheei-o apressadamente e me apaixonei. O livro era todo ilustrado com aquarelas que contavam resumidamente os costumes e a história da cidade.

Os desenhos referentes às comidas foram decisivos para esquecer que as malas estavam fechadas. Com certeza encontraria um espaço para guardá-lo. Onde mais, se não ali, aprenderia as diversas maneiras de beber um café (bica, italiano, carioca, pingado, garoto, com cheirinho, mazagran, abatanado e outras mais) ou encontraria uma ilustração tão bonita que mostrasse os diferentes tipos de frutos de mar servidos nos restaurantes lisboetas?

Depois, quando pude apreciá-lo com mais calma, encontrei um capítulo referente a personalidades que iam desde reis e escritores, passando por Cristiano Ronaldo e artistas plásticos. Lá estava Joana Vasconcelos –  tem um enorme e flamejante coração de Viana, construido com talheres de plástico vermelhos, bem na entrada da exposição -, e uma pessoa que não conhecia. Em cima do nome Alexandre Farto (Vhils) está desenhado um prédio cuja fachada tem um rosto pintado. Pesquiso na internet e descubro tratar-se de um pintor e grafiteiro considerado um dos maiores nomes mundiais da arte urbana. Sorrio e penso como os livros por mais despretensiosos que sejam sempre me surpreendem e ensinam alguma coisa.

Se mesmo assim minhas amigas não estiverem convencidas,  saibam que não consegui tomar um sorvete no Santini e nem comer um único pastel de nata!

 

  • Cebola crua com sal e broa

Miguel Sousa Tavares

Editora Clube do Autor

20 euros

  • Vamos comprar um poeta

Afonso Cruz

Editora Caminho

12,90 euros

  • Lisboa o guia ilustrado

Amir-Alexandros Afendras

Editora Majericon

20 euros

Viaggiando com Camila

 

viajando-pelo-mundo

Na maioria das vezes fica difícil, ou até mesmo impossível, determinar quem é o autor das informações pesquisadas na internet que irão dar corpo a um futuro post. No entanto também pode acontecer da busca levar até um novo site ou blog, que informa sobre o que se procura e muito mais!

Pesquisando sobre escritores palestinos encontrei o blog http://www.viaggiando.com.br escrito pela mineira Camila Navarro, que me apresentou The Lady from Tel Aviv. Ela leu o livro porque tem um projeto pessoal muito interessante.

Camila pretende ler 198 romances, cada um representando um dos 193 países membros da ONU, mais os dois estados-observadores (Palestina e Vaticano) e autores de Kosovo, Taiwan e Saara Ocidental, países que ainda não foram reconhecidos como nações independentes.

Seu projeto está bem adiantado, até agora já leu 81 livros. Escritores nada óbvios como Gilbert Gatore de Ruanda ela encontra no site Book Depository. Outros como o português Miguel Sousa Tavares e o norueguês Jo Nesbo já foram publicados no Brasil.

Além de falar sobre literatura o blog aborda um outro tema que me encanta: viagens!

Este tópico fala das atrações, passeios e hospedagens que cada país ou cidade oferece. Também comenta sobre gastronomia com enfoque na culinária vegetariana. O parceiro das andanças de Camila pelo vasto mundo é o marido Eduardo. Os dois já percorreram países não tão óbvios como Albânia, Kosovo e Vietnã, e esnobaram solenemente os mais manjados como França, Itália e EUA.

Camila escreve de maneira fluente e agradável, mas me conquistou definitivamente ao se declarar apaixonada por Portugal. Como diz o ditado popular Quem meus filhos beija, minha boca adoça.

Madrugada Suja

Madrugada-Suja

Eles são quatro, três rapazes e uma adolescente e acabam de se conhecer saindo de uma festa de estudantes.  Estão todos embriagados. Mesmo assim, entram no carro de um deles e vão para um sítio ermo e distante. O que pretendiam? Nada em especial ou talvez tudo, mas com certeza não esperavam que aquela madrugada terminasse em tragédia.

Pronto! É dessa forma eletrizante que tem inicio Madrugada Suja, o ultimo romance do escritor português Miguel Sousa Tavares.

No capítulo seguinte a história avançou dez anos. O passado e o presente se entrelaçam, e somos apresentados a Felipe, um dos participantes daquela noite fatídica.

Nascido e criado pelos avós em Medronhais, uma aldeia no interior de Portugal, onde os verões são escaldantes e os invernos rigorosos, o protagonista do livro é um jovem arquiteto que trabalha como funcionário público, dando pareceres sobre a viabilidade ambiental, ou não, de grandes empreendimentos imobiliários.

Madrugada Suja retrata os descaminhos pelos quais passou o país, nos últimos quarenta anos desde a Revolução dos Cravos em 1994.

Se por um lado terminaram as mortes de tantos jovens portugueses enviados como bucha de canhão para as guerras espalhadas nas colônias do ultramar –  e se colocou um ponto final no governo opressivo – por outro, não se soube usufruir da liberdade recém-conquistada e dos benefícios financeiros oferecidos pela Comunidade Europeia, para construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Miguel Souza Tavares retrata Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões que traziam da Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles.

Assim como o avô resiste solitário ao êxodo de todos os habitantes de Medronhais, seduzidos pelo canto da sereia de melhores condições de vida nas grandes cidades, Felipe não se deixa abater diante das pressões dos poderosos, e, até mesmo, às chantagens referentes ao passado que a muito custo procura esquecer.

Madrugada Suja é um daqueles livros que se leem de um fôlego só. Uma denúncia altamente recomendável para todos aqueles que, em breve, estarão escolhendo os próximos governantes.

Infelizmente, não há muitas diferenças entre Portugal e o Brasil.

 

  • Madrugada Suja

Miguel Sousa Tavares

Companhia das Letras

R$ 39,50

R$ 27,50 (E-book)

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