Três mulheres fortes

Três mulheres fortesCaso prefira uma leitura fácil e descompromissada desaconselho a leitura de “Três Mulheres Fortes”. Este é um daqueles livros que merecem ser apreciados com certo vagar.

A autora, Marie NDiaye, começou a escrever muito cedo, com 12 anos, e desde então não parou mais. Seus livros já receberam diversos prêmios, sendo o último, em 2009, o mais importante e prestigiado da literatura francesa – o Prêmio Goncourt .

A autora fala do que conhece bem. Assim como a personagem de uma das histórias, ela também é filha de mãe francesa e pai senegalês. Os desencontros culturais retratados nas duas primeiras narrativas não lhe são estranhos, e certamente escutou mais de uma vez, o relato que conta por último.

A prosa de Marie NDiaye tem força. Ela mergulha no íntimo dos personagens e revela de forma magistral o que eles têm de mais mesquinho e frágil.

Os parágrafos podem, inicialmente, parecer um tanto ou quanto cansativos, mas é graças a essa descrição minuciosa que as angústias e sonhos dos protagonistas passam a pertencer ao leitor.

Três mulheres vivendo situações limite transitam entre o Senegal e a França. Em mundos onde os homens ainda são algozes; uma sociedade destruidora de sonhos, mas  incapaz de aniquilar a chama interior que cada uma carrega dentro de si. Submissas por falta de opção aos respectivos destinos, mas nunca derrotadas.

  • Três Mulheres fortes

Marie NDiaye

Editora Cosac Naify

R$ 55,00

O bom leitor

Pilha-de-livros

Recentemente li uma entrevista* com o escritor Luis Antonio de Assis Brasil onde dizia que, para ele, o bom leitor era: “O que lê muito len-ta-men-te, buscando a fruição do texto, valorizando cada palavra, cada parágrafo. Um romance que exigiu seis anos de escrita, dúvidas, alegrias e pesares, não pode ser lido numa tarde”.

Realmente, o autor merece ter a sua obra apreciada com vagar e cuidado, mas como isso fica mais difícil de se conseguir a cada dia que passa!

Já comentei antes que não sou uma “devoradora” de livros. Normalmente permito-me uma leitura tranquila que dura em torno de uns quinze dias. Entretanto aquela vozinha interior não para de lembrar que, enquanto leio len-ta-men-te, outros tantos se acumulam. Dessa forma minha insatisfação é permanente, e as anotações de livros, que pretendo ler um dia, não param de crescer.

Recentemente acrescentei mais cinco títulos à lista. Os estilos são bem diferentes, e de autoras que não conheço. Curioso, só agora percebi que os escritores, pelos quais me interessei, são todos mulheres.

O primeiro é “Tipos de perturbação” um livro de contos bem curtinhos, escrito por Lydia Davis, autora americana, e ganhador este ano do prestigiado Man Booker Prize;  depois me interessei por ”O povo eterno não tem medo” primeiro romance de Shani Boianjiu, jovem escritora israelense, que narra o amadurecimento precoce de três amigas, que têm a pouca sorte de prestar o serviço militar obrigatório durante a guerra;  foi através do meu filho que ouvi falar, pela primeira vez, da jornalista Juliana Cunha autora do blog “Já matei por menos”. Os melhores textos foram reunidos em um livro editado pela Lote 42. Quero conhecer o trabalho desta escritora hipster**, que provavelmente logo o deixará de ser, visto que acaba de ser citada no blog de alguém com idade para ser sua mãe;  “Três mulheres fortesfoi escrito por Marie NDiaye e ganhou o prêmio Goncourt 2009. Marie é francesa, mas o sobrenome revela sua ascendência africana – o pai é senegalês;  por último na lista está “Quiçá” de Luisa Geisler, escritora brasileira selecionada pela revista Granta como integrante do grupo dos melhores jovens escritores brasileiros.

Haja tempo e dinheiro para ler tudo o quero!

* Jornal Rascunho  março 2003

**Algo ou alguém que está na vanguarda dos modismos culturais. Quando começa a ser popular ou lugar-comum deixa de ser hipster.

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