Um fim sem sentido

O-sentido-de-um-fim

Você ainda não entendeu. Você nunca entendeu e jamais entenderá. Então pare de tentar.

Tive a impressão que me davam um recado, pois foi dessa forma – sem entender – que terminei a minha primeira leitura de O sentido de um fim,  escrito por Julian Barnes e vencedor do prêmio Man Booker Prize 2011.

Posso afirmar, com absoluta certeza, que gostei bastante do livro. Inclusive parei, algumas vezes, para sublinhar uma ou outra frase que havia apreciado mais:

Descobri que esta pode ser uma das diferenças entre a juventude e a velhice: quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.

Li o livro em dois dias, mas o final provocou tamanho desassossego que no dia seguinte não saí de casa para poder relê-lo.

Se fizesse parte de um grupo de leitura, com certeza o indicaria para que fosse debatido por todos – era isso que eu precisava – ouvir outras opiniões e saber como cada um compreendia o desfecho do livro. Para mim fora não só impactante, mas também premeditado com amargura e ressentimento.

O romance foi construído em cima das recordações de juventude do personagem principal; o namoro tumultuado com uma garota e o término do mesmo; a carta rancorosa que escreveu e enviou para ela e o amigo – o mais admirado e respeitado – quando soube que os dois estavam se namorando; e mais tarde, a notícia que ele se suicidara.

O tempo passou, a vida seguiu em frente sem muitos sobressaltos. Até que, quarenta anos após a tragédia, o protagonista é confrontado com a magnitude e os desdobramentos que a carta, enviada tempestivamente, provocou.

Foi nesse momento que “engasguei”com o final do livro e me solidarizei com o personagem principal.

Posso até concordar que atos impensados sempre têm consequências – na maioria das vezes não muito edificantes – mas daí aceitar que quem os fez é responsável pelas decisões e atitudes cometidas por aqueles que os receberam, já é uma outra história! Afinal onde fica o poder de escolha, o livre arbítrio de cada um de nós? Tão fácil jogar a culpa no outro… Ou, pensando melhor, será que somos, sim, responsáveis eternos pelo mal que nossos atos – mesmo quando feitos de maneira inconsequente – possam vir a causar a outras pessoas? A responsabilidade não prescreve nunca?

Um livro forte e perturbador, mas acima de tudo inesquecível.

  • O sentido de um fim

Julian Barnes

Editora Rocco

R$ 24,00

O bom leitor

Pilha-de-livros

Recentemente li uma entrevista* com o escritor Luis Antonio de Assis Brasil onde dizia que, para ele, o bom leitor era: “O que lê muito len-ta-men-te, buscando a fruição do texto, valorizando cada palavra, cada parágrafo. Um romance que exigiu seis anos de escrita, dúvidas, alegrias e pesares, não pode ser lido numa tarde”.

Realmente, o autor merece ter a sua obra apreciada com vagar e cuidado, mas como isso fica mais difícil de se conseguir a cada dia que passa!

Já comentei antes que não sou uma “devoradora” de livros. Normalmente permito-me uma leitura tranquila que dura em torno de uns quinze dias. Entretanto aquela vozinha interior não para de lembrar que, enquanto leio len-ta-men-te, outros tantos se acumulam. Dessa forma minha insatisfação é permanente, e as anotações de livros, que pretendo ler um dia, não param de crescer.

Recentemente acrescentei mais cinco títulos à lista. Os estilos são bem diferentes, e de autoras que não conheço. Curioso, só agora percebi que os escritores, pelos quais me interessei, são todos mulheres.

O primeiro é “Tipos de perturbação” um livro de contos bem curtinhos, escrito por Lydia Davis, autora americana, e ganhador este ano do prestigiado Man Booker Prize;  depois me interessei por ”O povo eterno não tem medo” primeiro romance de Shani Boianjiu, jovem escritora israelense, que narra o amadurecimento precoce de três amigas, que têm a pouca sorte de prestar o serviço militar obrigatório durante a guerra;  foi através do meu filho que ouvi falar, pela primeira vez, da jornalista Juliana Cunha autora do blog “Já matei por menos”. Os melhores textos foram reunidos em um livro editado pela Lote 42. Quero conhecer o trabalho desta escritora hipster**, que provavelmente logo o deixará de ser, visto que acaba de ser citada no blog de alguém com idade para ser sua mãe;  “Três mulheres fortesfoi escrito por Marie NDiaye e ganhou o prêmio Goncourt 2009. Marie é francesa, mas o sobrenome revela sua ascendência africana – o pai é senegalês;  por último na lista está “Quiçá” de Luisa Geisler, escritora brasileira selecionada pela revista Granta como integrante do grupo dos melhores jovens escritores brasileiros.

Haja tempo e dinheiro para ler tudo o quero!

* Jornal Rascunho  março 2003

**Algo ou alguém que está na vanguarda dos modismos culturais. Quando começa a ser popular ou lugar-comum deixa de ser hipster.

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