Tirza

Os motivos que me levam a escolher um livro são, por vezes, bem inusitados.

Certa vez, conversava com a vendedora da Livraria Argumento, quando ela me perguntou se eu já tinha lido algo de Arnon Grunberg.

Surpresa com a minha resposta negativa, meio brincando meio falando a sério, ela me disse que só voltaria a trocar “figurinhas” comigo depois que eu lesse o escritor. Achei engraçado o desafio e perguntei por qual deveria começar. Ela recomendou-me Tirza.

Este episódio aconteceu pouco antes do início da pandemia e, apesar de a livraria já ter voltado a funcionar, ainda não tive a oportunidade de lhe dar a minha opinião sobre o livro.

Quando a encontrar, vou dizer que há muito tempo uma leitura não me impactava tanto: desconfortável, angustiante, mas impossível de largar.

O autor holandês prende o leitor a um personagem que é obcecado pela filha mais nova. Difícil saber se gostamos dele ou, se assim como a sua ex-mulher, o menosprezamos. Ela abandonou-o e às duas filhas adolescentes, para viver uma aventura amorosa irresistível. Anos depois, quando foi forçada a engolir do mesmo veneno, retornou para casa como se nada tivesse acontecido. E, para minha revolta, ele a aceitou de volta!

O personagem se esforça, se rebaixa, faz de tudo para criar – de acordo com o que acredita ser o certo – um ambiente idílico para as suas meninas. Mas o projeto parece uma frágil canoa em alto-mar, cheia de furos impossíveis de serem tapados. Todos percebem o naufrágio eminente, menos ele.

Publicado em 2007, Tirza ganhou diversos prêmios. Em 2010 virou filme e foi selecionado para representar a Holanda ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ao Oscar no ano seguinte.

Guardei o livro na estante faz alguns meses, mas, até hoje, quando lembro do final, revivo o choque que senti na época. Estou tomando coragem para ver o filme.

Terra Americana

A primeira vez que ouvi falar no livro Terra Americana, da escritora Jeanine Cummins, foi na revista O da apresentadora Oprah Winfrey. Além de fazer rasgados elogios, ela o incluiu no seu famoso clube de leitura. Fiquei bastante interessada e, em tempos de pandemia, pensei em comprá-lo no formato audiolivro apesar de ter dúvidas se entenderia um inglês mais coloquial e carregado de gírias. Felizmente, no mesmo dia precisei ir ao supermercado e, como já estava na rua, aproveitei para ver as novidades na Livraria Argumento que voltara a funcionar depois de ficar fechada por quatro meses. E lá estava ele, exposto na sessão dos lançamentos. Mais não preciso dizer.

Terra Americana começa de forma eletrizante: uma família inteira é chacinada durante uma comemoração de aniversário de quinze anos. Salvam-se apenas um menino de oito anos e sua mãe, Lydia. O mandante foi Javier, chefe do cartel de narcotráfico mais poderoso de Acapulco no México.

Até a tragédia acontecer, Javier e Lydia eram amigos. Eles se conheceram quando Javier se tornou um cliente assíduo da livraria que era de Lydia. Os dois tinham gostos literários muito parecidos, as conversas fluíram facilmente, e, pouco a pouco, estavam falando de suas vidas.

Mesmo depois de saber pelo marido, que era jornalista, a verdadeira identidade desse cliente gentil e educado, ela não conseguiu romper a amizade com Javier. Talvez por essa razão, não esperasse que ele reagisse de forma tão violenta quando saiu no jornal uma matéria, escrita pelo marido, dizendo quem realmente Javier era, e falando dos crimes que ele cometera.

Apavorada, Lydia precisou fugir com o filho e se tornou, de uma hora para outra, num daqueles casos que costumava acompanhar pelo noticiário com distanciamento e uma certa pena: o de homens, mulheres e crianças que, pelos mais variados motivos, tentavam entrar a todo custo nos EUA.

Inicialmente o livro foi recebido com muitos elogios tanto por outros escritores quanto pelo público. John Grisham chegou a dizer: “Escrevo porque gosto de ler e há muito que uma leitura não me provocava tanta emoção. O enredo é inteligente e imprevisível. A mensagem é oportuna sem ser política. As personagens são violentas, bondosas, frágeis e heroicas. É um livro autêntico.”

Entretanto, logo surgiram vozes discordantes dizendo que a autora não tinha legitimidade para falar sobre migração ilegal porque, além de não ser mexicana, não vivenciara as situações descritas no livro. Jeanine defendeu-se afirmando que havia procurado dar visibilidade ao sofrimento dos migrantes clandestinos e que, durante cinco anos, pesquisara exaustivamente sobre o tema, chegando a visitar o México diversas vezes para poder narrar com maior veracidade as histórias daqueles que eram tratados como indesejáveis.

Vivemos tempos estranhos. Desde quando um escritor precisa se perguntar se pode ou não abordar um tema que lhe interesse? Quem diz o que um escritor pode ou não escrever? Um homem não se pode imaginar sendo mulher e vice-versa? Alguém que veio de uma classe social mais favorecida não pode se colocar no lugar de um desvalido? Uma pessoa que enxerga não pode criar um personagem deficiente visual? Quem não matou ninguém não pode escrever sobre assassinatos? Outros olhares e visões de mundo não são mais permitidos? Onde fica o contraditório, a imaginação e principalmente a empatia? Um bom escritor oferece ao leitor a chance de conhecer outras vidas, de “calçar os sapatos do outro”. Qualquer movimento que impeça um escritor de falar através de seus personagens tem, para mim, um nome: censura.

No meio da algazarra surgiu uma voz respeitada no mundo literário para defender o livro: o da escritora Sandra Cisneros, de origem mexicana. Inicialmente ela disse que “Terra Americana não é apenas o grande romance americano, é também o grande romance de Las Americas, o grande romance do mundo! A história internacional dos nossos tempos”. Como a polêmica continuasse, insistiu: “Terra Americana tem o potencial de educar um público que não foi previamente exposto às histórias dos migrantes, que desconhece os problemas que acontecem nas fronteiras. Alguém comprará o livro pensando apenas em se divertir, e a história entrará como um cavalo de Troia, trazendo reflexões e conhecimento. Terra Americana vai mudar as mentes (dos americanos), de um jeito que eu não consegui fazer com as minhas histórias”

Se essa não é a função primordial de um livro, não sei mais o que dizer.

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