Não quero pagar para ver

Permanentemente estou à procura de indicações de leitura. Pergunto aos amigos o que estão lendo, leio jornais e revistas, e sigo diversos blogs literários, tanto nacionais quanto estrangeiros.

Graças ao blog O Tempo Entre Meus Livros, fico a par dos novos escritores portugueses e de livros que, pela temática específica, sei que dificilmente serão publicados no Brasil. É o caso do romance histórico A Rainha Santa, escrito por Isabel Machado.

Reza a história que ao ser proibida pelo marido, o rei D. Dinis, de distribuir esmolas aos pobres, a Rainha Isabel transformou os pães que iria doar em rosas. Um fato por si só extraordinário, mas ainda mais espantoso por ter ocorrido em pleno inverno, quando nenhum botão de flor brota e muito menos floresce. A Lenda das Rosas é talvez a minha favorita entre as muitas que aprendi nas aulas de História, quando ainda morava em Portugal.

Recentemente o mesmo blog recomendou Purga, escrito pela finlandesa Sofi Oksanen. Um dos motivos que levou a autora a escolher esse livro foi por saber muito pouco sobre a Estônia, país onde transcorre a maior parte da narrativa. Se ela sabe pouco e vive no mesmo continente, imagine eu que estou do outro lado do Atlântico, no hemisfério sul.

Segui sua indicação e fiquei muito satisfeita ao descobrir que o livro já havia sido publicado no Brasil com o nome Expurgo (ah, essas confusas diferenças de português!)

Para mergulhar melhor na história, fiz uma rápida pesquisa sobre o país. Trata-se de uma pequenina nação báltica que durante séculos foi dominada por diversas potências. Para se ter uma noção, suas dimensões territoriais correspondem a metade de Portugal que, por sua vez, cabe inteirinho no estado de Pernambuco.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, a Estônia foi anexada à União Soviética como mais uma de suas repúblicas socialistas, só voltando a ser independente em 1992.

O que me fez juntar esses dois livros tão díspares? O fato de acreditar que a maneira mais prazerosa de se aprender História é através da leitura.

Mesmo não sendo um romance histórico como A Rainha Santa, a leitura de Expurgo é uma excelente oportunidade para os alunos mais adiantados do Ensino Médio aprenderem, sem ser maçante, como e porque aconteceu a ocupação soviética nos países da Europa Oriental, além de debaterem um tema infelizmente atualíssimo: o tráfico de mulheres.

Mas é preciso correr, pois há um projeto de lei que desobriga o ensino de Geografia e História nas escolas brasileiras. Se for aprovado, lendas serão esquecidas, fatos históricos nunca serão ensinados e a compreensão do que ocorre no mundo será ignorada ou pior, manipulada.

Não quero pagar para ver.

 

  • Expurgo

Sofi Oksanen

Editora Record

R$ 70,90

a máquina de fazer espanhóis

a maquina de fazer espanhois

Foi com algum receio que comecei a ler a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe. Aqueles capítulos não muito longos, com pouquíssimos parágrafos, e sem letras maiúsculas para sinalizar o inicio das frases e os nomes próprios, me assustaram.

Feita esta consideração, quero dizer que após uma pequena dificuldade inicial, apreciei a narrativa segura do autor, e me emocionei com os personagens retratados no romance.

Com a morte da mulher, António Jorge da Silva, aos 84 anos, é colocado pela filha em um asilo. Revoltado por perder sua companheira de mais de cinco décadas, e ser obrigado a viver onde nunca imaginou, ele custa a se adaptar ao novo lar.

Mas, como diz a sabedoria popular “o que tem que ser tem muita força”. Aos poucos, a tristeza vai diminuindo, graças à solidariedade que recebe dos hóspedes mais antigos, e dos cuidados de profissionais atenciosos.

O Lar da Feliz Idade é um lugar de espera. Ali há poucos sonhos, muitos pesadelos e algumas alucinações. Os ecos de um passado subserviente e a constatação de antigas crenças equivocadas, rondam as lembranças do Sr. Silva, e também de seus novos amigos.

Uma leitura apressada poderá afastar o leitor, desconfortável com um tema tão duro e potencialmente angustiante.  Espero que isso não aconteça, porque, além de iluminar e dar voz de forma digna a uma parcela da população cada vez mais numerosa, o grande mérito do livro está em confirmar o que por vezes é esquecido. O que dá sentido à Vida – quer ela esteja no seu apogeu, ou prestes a se extinguir -, o que nos faz querer viver um pouco mais, o que nos resgatará do esquecimento, é o Outro.

precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade,nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingencia da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro, eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria.

Quem não cultiva afetos, ou não se preocupa em preservá-los, já morreu e não foi avisado.

Madrugada Suja

Madrugada-Suja

Eles são quatro, três rapazes e uma adolescente e acabam de se conhecer saindo de uma festa de estudantes.  Estão todos embriagados. Mesmo assim, entram no carro de um deles e vão para um sítio ermo e distante. O que pretendiam? Nada em especial ou talvez tudo, mas com certeza não esperavam que aquela madrugada terminasse em tragédia.

Pronto! É dessa forma eletrizante que tem inicio Madrugada Suja, o ultimo romance do escritor português Miguel Sousa Tavares.

No capítulo seguinte a história avançou dez anos. O passado e o presente se entrelaçam, e somos apresentados a Felipe, um dos participantes daquela noite fatídica.

Nascido e criado pelos avós em Medronhais, uma aldeia no interior de Portugal, onde os verões são escaldantes e os invernos rigorosos, o protagonista do livro é um jovem arquiteto que trabalha como funcionário público, dando pareceres sobre a viabilidade ambiental, ou não, de grandes empreendimentos imobiliários.

Madrugada Suja retrata os descaminhos pelos quais passou o país, nos últimos quarenta anos desde a Revolução dos Cravos em 1994.

Se por um lado terminaram as mortes de tantos jovens portugueses enviados como bucha de canhão para as guerras espalhadas nas colônias do ultramar –  e se colocou um ponto final no governo opressivo – por outro, não se soube usufruir da liberdade recém-conquistada e dos benefícios financeiros oferecidos pela Comunidade Europeia, para construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Miguel Souza Tavares retrata Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões que traziam da Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles.

Assim como o avô resiste solitário ao êxodo de todos os habitantes de Medronhais, seduzidos pelo canto da sereia de melhores condições de vida nas grandes cidades, Felipe não se deixa abater diante das pressões dos poderosos, e, até mesmo, às chantagens referentes ao passado que a muito custo procura esquecer.

Madrugada Suja é um daqueles livros que se leem de um fôlego só. Uma denúncia altamente recomendável para todos aqueles que, em breve, estarão escolhendo os próximos governantes.

Infelizmente, não há muitas diferenças entre Portugal e o Brasil.

 

  • Madrugada Suja

Miguel Sousa Tavares

Companhia das Letras

R$ 39,50

R$ 27,50 (E-book)

Os meus sentimentos

Os-meus-sentimentosEm caso de morte liberte-se imediatamente de seus sentimentos”. Era isso o que a personagem principal  do romance Os meus sentimentos de Dulce Maria Cardoso deveria fazer, mas não faz. Está bêbada, completamente bêbada, acabou de sofrer um grave acidente de carro e encontra-se com a cabeça virada para baixo, presa pelo cinto de segurança. Será nessa posição desconfortável que relembrará a própria vida.

Assim como ela, nós os leitores, também acompanharemos seu relato virados pelo avesso e escutaremos os fatos serem narrados, de trás para frente, como se eles se esvaíssem em veios finíssimos de sangue, sem rumo definido, simplesmente escoando devagarinho e sempre.

“A memória é feita de morte, porque só nos recordamos do que já passou. A memória é feita de fragmentos. E a memória também é imaginação, nós recriamos o nosso passado, nada do que nos lembramos aconteceu exatamente assim.” 

Várias lembranças entram e saem de mansinho: os caminhoneiros, sem nome e rosto – com os quais saciou um desejo sexual lascivo e voraz; o pai amalucado que matava, com as próprias mãos, os passarinhos que criava em cativeiro; a filha tão amada, mas com quem sempre trocou farpas verbais e cruéis; o casal de burocratas que apesar de trabalhar lado a lado nunca percebeu a presença do outro, até o dia em que, sem querer, suas peles se roçaram pela primeira vez; o irmão bastardo, e tantas outras mais.

Ecos de vidas polifônicos compõem um romance diferente, estranho, perturbador, que enredam o leitor em um transe crescente.

Consagrada como uma das grandes escritoras do contemporâneo cenário literário português Os meus sentimentos de Dulce Maria Cardoso foi publicado em 2005, recebeu em Portugal o prêmio PEN de ficção e o Prêmio da União Europeia para a Literatura.

No Brasil já foram publicados outros dois romances seus, Campo de Sangue pela Companhia das Letras e O Retorno pela editora Tinta da China sobre o qual já comentei aqui no blog: https://fagulhadeideias.wordpress.com/2012/07/04/livro-o-retorno-dulce-maria-cardoso/

Apaixonei-me pela autora e gostaria muito que seus escritos recebessem uma maior atenção. Neles não há obviedades, as histórias merecem ser lidas não só pelos temas abordados, mas principalmente pela forma precisa e original como são narrados. Para mim, a leitura de seus romances é sempre uma grata revelação.

  • Os meus sentimentos

Dulce Maria Cardoso

Editora Tinta da China 

R$ 46,00

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