Os Pescadores

os-pescadoresiiNão consigo imaginar uma maneira melhor de começar o ano do que imersa nas páginas de Os Pescadores, romance de estréia do jovem escritor nigeriano Chigozie Obioma.

Contrariando as ordens do pai, Ikenna, Boja, Obembe e Benjamin – os quatro irmãos mais velhos de uma família de seis filhos – se aventuram em pescarias no rio que serpenteia a cidade de Akure na Nigéria.

O tempo de águas cristalinas e fecundas terminou há muito tempo. Os moradores da região o evitam. Em suas margens encalham detritos de toda a espécie, até mesmo o cadáver eviscerado de uma mulher. Na mata cerrada circulam soldados sanguinários de facções rivais. Mas nem o medo do castigo paterno nem os perigos reais têm o poder de afugentar os garotos daquele lugar.

Uma tarde, ao retornarem de mais uma pescaria, encontram o louco da aldeia descansando à sombra de uma árvore.  Ele é Abulu, uma figura aterradora que tem o dom da profetizar as mais terríveis catástrofes. Os garotos não o conhecem, mas os adultos o temem.

Abulu persegue os irmãos e, num linguajar confuso, vaticina que Ikenna, o mais velho, será assassinado por um de seus irmãos.

Depois desse encontro a relação entre eles jamais voltará a ser a mesma. Como um veneno, que nenhum remédio ou mandinga consegue debelar, a tragédia se infiltra na família até destruir a vida de todos.

A narrativa é tão realista que, em certas passagens do livro, me surpreendi franzindo o nariz como se realmente sentisse os cheiros de certos lugares e corpos humanos. E quando o embate final é descrito, precisei acalmar a respiração para continuar a leitura.

Mas o que me tocou profundamente foi a cumplicidade afetuosa que existia entre os irmãos, e os sacrifícios que depois foram feitos para confirmar a lealdade que sempre os uniu.

Chigozie Obioma tem sido comparado a outro grande escritor nigeriano já falecido, Chinua Achebe, que também escreveu uma obra-prima antes de completar 30 anos, “O mundo se despedaça”. Infelizmente a versão em papel deste livro está esgotada, podendo apenas ser encontrada no site Estante Virtual a preços que variam de R$ 100,00 a R$ 180,00.

 

  • Os Pescadores

Chigozie Obioma

Globo Livros R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

Americanah

AmericanahJá tinha escutado diversos comentários elogiosos a esta escritora, mas na sua frente sempre passava a leitura de outro autor, depois outro e mais outro, e assim, Chimamanda Ngozi Adichie acabava por ficar em um dos últimos lugares na longa lista de autores que pretendo ler um dia.

Finalmente, decidi que nada iria se interpor à leitura de Americanah e, com vontade, mergulhei nas suas 514 páginas. Não me arrependi.

A trama do livro gira em torno de Ifemelu, uma jovem nigeriana, apaixonada por Obinze , que no final da década de 90 emigra para os EUA para concluir os estudos universitários.  A Nigéria vive sob uma ditadura militar, a educação está um caos e os professores entram constantemente em greve para receber os salários atrasados. Se Ifemelu consegue facilmente um visto, a mesma sorte não tem Obinze. Por medo do terrorismo, os americanos ficaram mais exigentes em emitir vistos para jovens estrangeiros, principalmente aqueles oriundos de países onde a religião muçulmana é predominante.

O choque cultural é grande, mas o que mais a incomoda é o racismo mal disfarçado. A cor de sua pele que, até então, nunca fora um problema, a coloca em uma categoria bem definida e desfavorável.

Para expressar seu inconformismo, Ifamelu escreve um blog onde comenta as nuances de tratamento e as diferentes oportunidades que existem para os negros africanos e os negros americanos.

(…) Existe uma hierarquia de raça nos EUA. Os brancos estão sempre no topo, especialmente os brancos de família anglo-saxã e protestante, conhecidos como WASP, e os negros sempre estão no nível mais baixo, enquanto o que está no meio depende do tempo e lugar (ou como dizem aqueles versos maravilhosos: ”se você é branco, tudo bem; se você é marrom, fique por aí; se você é negro volte para casa!”). (…)

Após 13 anos sem visitar a Nigéria, são tantas as saudades que Ifemelu decide voltar definitivamente para casa. Mas, mais uma vez, a adaptação não é fácil. O machismo; a preocupação em ostentar riqueza – não importando como foi obtida; a falta de opções para as mulheres fora de um casamento com um “bom partido”, tudo isso a incomoda profundamente. Não é que ela tenha voltado uma Americanah (termo pejorativo para quem volta do estrangeiro criticando tudo à sua volta), mas, definitivamente, ela não é mais a mesma. A única coisa que não mudou é o sentimento que sente por Obinze, o grande amor de sua vida, de quem se afastou nos últimos anos.

Americanah é um livro que se lê com gosto. A leitura flui ao mesmo tempo em que leva o leitor a refletir sobre temas tão diversos como o que é ser emigrante, a obrigação de alisar o cabelo e a irracionalidade do racismo.

Por mais que seja impossível uma pessoa de pele clara “calçar os sapatos” de outra de pele mais escura, é importante que a escute e a perceba. Para que, de uma vez por todas, se compreenda que julgar as competências ou o caráter de uma pessoa pela cor de sua pele ou pela textura de seu cabelo não faz o menor sentido e é uma completa e total estupidez.

 

Vencedor do National Book Critics Circle Award.
Eleito um dos 10 melhores livros do ano pela NYT Book Review.
Direitos para cinema comprados por Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Doze anos de escravidão.

 

  • Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie

Editora Companhia das Letras

R$ 54,00

R$ 38,00 (E-Book)

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