Uma Série Genial

Tem alguns leitores que preferem o segundo, outros o terceiro ou talvez o quarto livro da série napolitana de Elena Ferrante. Mas, uma coisa é certa, se prosseguiram é porque amaram o primeiro, A Amiga Genial, e viraram fãs da escritora.

A história das duas amigas Lina e Lenu se inicia na década de 1950, na periferia da cidade de Nápoles, e é contada de trás para frente.

Quando Lenu é avisada que sua melhor amiga, que não vê há muito tempo, sumiu – e tudo leva a crer que por vontade própria –, decide colocar no papel todas as lembranças dessa amizade e, quem sabe, ao publicá-las, forçar Lina a reaparecer.

Lina e Lenu cresceram em um bairro pobre e violento, onde supostamente o destino de casar e ter filhos estava traçado desde sempre.

Mas as amigas querem mais. Sonham com futuros estimulantes e percebem que a porta de saída de uma vida previsível e sufocante terá que ser através dos estudos.

A cumplicidade que as une é forte, assim como a competitividade. Elas são aliadas e oponentes. Uma precisa do apoio da outra, mas também da crítica.

Infelizmente, apesar de sua inteligência e determinação, Lina não consegue prosseguir com os estudos e, por essa razão, os projetos de vida das duas amigas se afastam.

Cada um dos quatros livros abrange uma fase de suas vidas: infância, adolescência, início da vida adulta e maturidade. Além da amizade conflituosa, Lenu aborda os seus amores correspondidos ou não, a iniciação sexual com a pessoa errada, as brigas homéricas primeiro com a mãe e depois com as próprias filhas, as invejas e as rasteiras profissionais, e os colegas de escola futuros mafiosos ou terroristas.

A narrativa tem como pano de fundo a recente história italiana. Transita pelos movimentos contestadores dos anos 60, o surgimento da emancipação feminina, o abismo econômico entre o norte e o sul do país, o terrorismo praticado tanto por grupos de direita quanto de esquerda, e a operação Mãos Limpas, que revelou toda a podridão dos políticos. Um país em ebulição, assim como as vidas de Lina e Lenu.

Gostei imensamente da escrita clara, inteligente e nada preguiçosa de Elena Ferrante. Quando é para escarafunchar a alma dos personagens, ela o faz brilhantemente, e quando descreve um lugar, não só o leitor o consegue visualizar, como sentir os cheiros que o permeiam.

O sucesso mundial da série napolitana foi tamanho que já está sendo rodada uma minissérie baseada no primeiro livro, A Amiga Genial (os demais virão em seguida), e, apesar de ser uma produção da HBO americana, será toda falada em italiano.

Não poderia ser de outro modo. Afinal, a língua é um “personagem” importante da história. A utilização ora do italiano culto ora do dialeto bruto do bairro funciona como um delimitador invisível de território. Cada uma das formas de expressão tanto pode ser utilizada como valorização social ou a expressão sincera de sentimentos, quanto uma forma de excluir ou agredir.

Espero sinceramente que a versão televisiva seja um sucesso, mas se eu puder dar um conselho, leia os livros primeiro. Por melhor que seja a minissérie, garanto que não irá se comparar ao prazer proporcionado por uma leitura de altíssima qualidade.

 

Série Napolitana:

  • A Amiga Genial
  • História do Novo Sobrenome
  • História de Quem Foge e de Quem Fica
  • História da Menina Perdida

Elena Ferrante

Globo Livros

A Amiga Genial

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Aquilo que me faltava ela possuía de sobra, e vice-versa, num jogo contínuo de trocas e reviravoltas que, ora com alegria, ora com sofrimento, nos tornavam indispensáveis uma à outra.”

A Amiga Genial é o primeiro título da tetralogia escrita pela aclamada escritora italiana Elena Ferrante.

Há uma grande curiosidade em torno da escritora, que se recusa a participar de entrevistas e ser fotografada. É bom que seja assim porque este seu romance, de forte cunho autobiográfico, com certeza lhe traria sérios problemas com alguns dos personagens aqui retratados.

No primeiro livro, a autora relembra a sua infância e adolescência em um subúrbio pobre de Nápoles, onde “as mulheres brigavam entre si mais do que os homens, se pegavam pelos cabelos, se machucavam”. É nesse ambiente violento, desprovido de atrativos, que floresce entre a autora e uma colega de sala uma forte amizade.

As duas não poderiam ser mais diferentes, tanto de físico quanto de temperamento. Se Elena (autora/personagem) é loura e retraída, Lila é morena e arrojada. Mesmo assim, a timidez de Elena não a impede de buscar a companhia da despachada Lila e, aos poucos, os laços vão se estreitando.

A amizade de Elena e Lila é marcada pela competição, pelo desejo de ser – pelo menos aos olhos da outra – alguém de valor e respeito. Se Elena aprecia o jeito destemido da amiga e busca em Lila inspiração para vencer medos e inseguranças, por sua vez, Lila se alimenta desse apreço para sonhar cada vez mais alto e imaginar alternativas que as ajudem a fugir da mediocridade e truculência do cotidiano.

Ambas são boas alunas, apesar de Lila ter mais facilidade para aprender. No entanto, o seu temperamento rebelde e desafiador, que tantas vezes a colocou e tirou de enrascadas, fará com que a professora do ensino fundamental não a apóie e defenda apenas Elena, quando os respectivos pais estupidamente decidem que está na hora das meninas abandonarem a escola.

Lila ainda tentará por conta própria acompanhar os estudos da amiga, porém decide se reinventar para não cair numa vida sem esperanças idêntica à de todas as outras mulheres do bairro.

Com muita habilidade e segurança, a autora prende o leitor até a última página do livro, criando um suspense final que o deixa com vontade de começar imediatamente a leitura do próximo da série.

A editora não publicou todos os quatro títulos de uma só vez. Recentemente chegou às livrarias o segundo livro, “História do Novo Sobrenome”. Felizmente, já tenho o meu. O problema vai ser esperar pelo terceiro.

 

  • A Amiga Genial
  • História do Novo Sobrenome

Elena Ferrante

Biblioteca Azul

R$ 44,90 /cada

E-Book R$ 31,40

 

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