Uma ideia amalucada e outras mais

É muito gratificante quando uma editora decide, entre tantos textos recebidos, publicar o seu trabalho. Para quem já passou por essa experiência, sabe o que quero dizer.

Até há pouco tempo, entregava-se o “filhinho” cercando-o de recomendações, e torcia-se para que alguma delas fosse acatada pela editora.  Depois, o escritor assistia como mero espectador o amadurecimento do seu projeto – por vezes orgulhoso e outras vezes nem tanto – sem poder opinar.  Felizmente hoje em dia, autor e editor são parceiros, e trabalham juntos para que o livro ganhe a maior visibilidade possível.

Ainda assim há escritores que preferem se autopublicar, tomando para si a inteira responsabilidade de mostrar e promover o próprio trabalho. Se o ato de escrever é solitário, a concretização de um texto em livro é uma atividade gregária e desgastante. São mil e uma tarefas desde lidar com notas fiscais, alimentar as mídias sociais, participar de eventos, e até cuidar da distribuição, que tanto pode ser feita através de muitas idas ao correio como pela entrega pessoal dos exemplares. Todas essas atividades lembram a versão moderna dos 12 Trabalhos de Hércules!

Esta longa introdução é para apresentar a escritora, Renata Fernandes, que vem movimentando o cenário literário de Salvador.

Depois de trabalhar por 20 anos como publicitária, Renata começou a escrever para crianças e a publicar os próprios livros: cinco no total.

A escritora visita as escolas apresentando suas criações. Por proporcionarem boas risadas e estimularem a imaginação das crianças já foram adotados em diversos colégios de Salvador.

Renata é parceira do projeto social Livres Livros, que incentiva o hábito da leitura através da troca de livros depositados em casinhas de madeira espalhadas pela cidade. Além de abastecer gratuitamente estas casinhas – que lembram as de passarinhos – o projeto realiza atividades de contação de histórias em praças públicas e em instituições carentes, onde a escritora também se apresenta com regularidade.

Este ano Renata publicou  o divertido “Uma ideia amalucada”, ilustrado pelo artista baiano Heitor Neto.  A prosa de Renata é muito gostosa e corrobora a ideia de que o que tem qualidade agrada tanto a gregos quanto a troianos (no caso, adultos e crianças).

Se quiser conhecer um pouco mais o trabalho desta paulista, baiana de coração, visite o site https://renatafernandesblog.wordpress.com  tenho certeza que vai gostar.

The sound of silence

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Acho que nunca li tanto na vida como ultimamente, mesmo não sendo necessariamente livros. Por e-mail recebo artigos e resenhas de diversos sites e blogs com os assuntos mais variados. Acontece de se acumularem por dias até que, num rompante, jogo tudo fora sem ler.  Um dos sites que costuma sofrer com esses meus arroubos de limpeza é o Brain Pickings, cujos artigos exigem uma leitura demorada e atenta. Normalmente os olhos pulam de um título para outro, sem que eu me dê ao trabalho de abri-los.  Entretanto, se deparo num livro infanto-juvenil com bonitas ilustrações tudo muda de figura.

Sei por experiência própria como é difícil escrever para o público infantil e encontrar a cadência certa para mantê-lo interessado até o fim. É um trabalho de revisar e riscar (ou melhor, deletar),  de ficar parada olhando o cursor piscar na tela e se perguntar: o que eu quero mesmo dizer com isto?

Suponho que o (a) ilustrador (a) passe por questionamentos parecidos. Só que no caso dele (a) o erro pode ser mais complicado.  Como consertar o borrão em uma aquarela ou salvar a ilustração que não capturou o espírito da história? Muitas vezes é impossível fazer um simples retoque, e não há outro jeito a não ser recomeçar em uma nova folha de papel.

O processo criativo exige concentração, serenar a mente, o que me parece mais difícil à medida que o tempo passa. Deveria ser o contrário, não? Afinal para que serve a suposta maturidade adquirida com os anos?

Pois foi numa dessas visitas ao site Brain Pickings que encontrei o livro The Sound of Silence, escrito por Katrina Goldsaito e ilustrado por Julia Kuo.

O silêncio por acaso faz barulho? Um garotinho curioso busca encontrar esse som tão especial numa cidade vibrante como Tóquio. Tudo o distrai: as buzinas dos carros, as risadas, o canto dos pássaros… Até que um dia, ao realizar uma atividade de que gosta muito, ele perde a noção do tempo e encontra o que tanto procura.

O desenho simples e seguro da ilustradora reproduz com delicadeza a descoberta de como ser único e, ao mesmo tempo, participante do turbilhão da Vida.

Não é fácil ouvir MA, o nome dado ao silêncio pelos japoneses, mas quem o escutou diz que é de uma beleza indescritível.

 

  • The sound of silence

Katrina Goldsaito

Julia Kuo (ilustradora)

Little Brown & Company

US$ 17.99

O gosto do morango

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Assim é a vida. Há os que apoiam e os que discordam, os que aplaudem e os que vaiam, mas recentemente os brasileiros se uniram para elogiar as Paraolimpíadas realizadas no Rio de Janeiro.

Durante onze dias, atletas de diversas nacionalidades e com as mais variadas limitações físicas se superaram em provas que a maioria da população nem se arrisca a praticar. Foco, entusiasmo, determinação, perseverança foram atributos que inspiraram e nos forçaram a refletir sobre o que está sendo feito e o que precisa melhorar para acolher os portadores de deficiências físicas e mentais no dia a dia de uma cidade.

Por essa razão, gostei da feliz coincidência de O gosto do morango, escrito pela baiana Nathalie Guerreiro, ter sido lançado nessa época.

Com muita sensibilidade a autora conta como foi a adaptação de Eduarda, uma menina com dificuldades de locomoção à nova escola. Na verdade foi uma dupla adaptação, porque ela também havia mudado de país.

A primeira reação das crianças não foi das mais simpáticas. A chegada de quem é diferente ou estrangeiro, num grupo onde todos se conhecem, costuma gerar desconfiança.

Mas o gesto de amizade de uma colega fez com que os demais se aproximassem de Eduarda e, ao conhecê-la melhor, deixassem o estranhamento de lado e a incluíssem na turma.

Pode ser feito um paralelo entre o legado das Paraolimpíadas e a mensagem de O gosto do morango. Ambos estimulam a inclusão e nos fazem refletir sobre como uma sociedade se prejudica quando adota um comportamento acomodado e excludente.

Está mais do que na hora de acolhermos as diferenças dos outros para que eles passem a ser nós.

 

  • O gosto do morango

Nathalie Guerreiro

Ana Maria Moura (ilustrações)

Solisluna Editora

R$ 49,90

As aventuras de Jajá

JajáNão virei a casaca não. O meu amor incondicional pelos cães continua intacto, mas admito que ao ler As aventuras de Jajá de Susana Schild pensei em adotar um gato.

A gatinha Jajá é a narradora desta história encantadora, que começa com ela caminhando vacilante em cima de um muro. De repente vem o tombo. Assustada e sem saber onde está Jajá começa a miar chorosa.  Seu lamento é ouvido por uma menina que com todo o cuidado a pega no colo, a leva para casa e lhe oferece um pires com leite.

O problema é que o pai de Luisa não concorda em ter mais um gato no apartamento. O outro gato é Nina, na verdade uma gata que enciumada não vê com bons olhos a chegada de uma concorrente.

Do mesmo jeito que Jajá encantou a menina, suas peripécias seduzem o leitor. Fiquei impressionada como um livro indicado para o público infantil pode me ensinar tanta coisa sobre os felinos. Por exemplo, eu não sabia que os gatos não gostam de portas fechadas e que são muito dorminhocos.

As aventuras de Jajá é o livro perfeito para as crianças que já adquiriram fluência na leitura e gostam de animais, principalmente de gatos.

Afinal, como resistir a um ronronar que na língua dos gatos quer dizer: Eu gosto de você.

 

  • As aventuras de Jajá

Susana Schild

ilustrações: Mika Takahashi

Editora Rocco (jovens leitores)

R$24,50

E-Book R$ 16,00

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