Tirza

Os motivos que me levam a escolher um livro são, por vezes, bem inusitados.

Certa vez, conversava com a vendedora da Livraria Argumento, quando ela me perguntou se eu já tinha lido algo de Arnon Grunberg.

Surpresa com a minha resposta negativa, meio brincando meio falando a sério, ela me disse que só voltaria a trocar “figurinhas” comigo depois que eu lesse o escritor. Achei engraçado o desafio e perguntei por qual deveria começar. Ela recomendou-me Tirza.

Este episódio aconteceu pouco antes do início da pandemia e, apesar de a livraria já ter voltado a funcionar, ainda não tive a oportunidade de lhe dar a minha opinião sobre o livro.

Quando a encontrar, vou dizer que há muito tempo uma leitura não me impactava tanto: desconfortável, angustiante, mas impossível de largar.

O autor holandês prende o leitor a um personagem que é obcecado pela filha mais nova. Difícil saber se gostamos dele ou, se assim como a sua ex-mulher, o menosprezamos. Ela abandonou-o e às duas filhas adolescentes, para viver uma aventura amorosa irresistível. Anos depois, quando foi forçada a engolir do mesmo veneno, retornou para casa como se nada tivesse acontecido. E, para minha revolta, ele a aceitou de volta!

O personagem se esforça, se rebaixa, faz de tudo para criar – de acordo com o que acredita ser o certo – um ambiente idílico para as suas meninas. Mas o projeto parece uma frágil canoa em alto-mar, cheia de furos impossíveis de serem tapados. Todos percebem o naufrágio eminente, menos ele.

Publicado em 2007, Tirza ganhou diversos prêmios. Em 2010 virou filme e foi selecionado para representar a Holanda ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ao Oscar no ano seguinte.

Guardei o livro na estante faz alguns meses, mas, até hoje, quando lembro do final, revivo o choque que senti na época. Estou tomando coragem para ver o filme.

Jantar indigesto

O-Jantar-Herman-KochO sucesso alcançado pelo escritor holandês Herman Koch com O JANTAR é mais do que merecido. Desde seu lançamento em 2009 o livro vendeu mais de 1 milhão de exemplares (só na Europa), foi publicado em 33 idiomas, virou peça de teatro, e em breve será adaptado para o cinema com direção da atriz Cate Blanchett, que estará pela primeira vez do outro lado das câmeras.

O tema central do livro lembra a peça de teatro de Yasmina Reza Deus da Carnificina* – onde dois casais se encontram para conversar de forma civilizada sobre uma bobagem que os respectivos filhos fizeram – mas as semelhanças terminam aí.

Dois garotos de quinze anos cometeram um ato bárbaro e covarde. O crime foi registrado por uma câmera de segurança, mas a identidade dos agressores não ficou clara. No entanto ao verem as imagens transmitidas em cadeia nacional, os pais dos rapazes reconhecem os próprios filhos.

Um encontro é marcado para decidirem o que fazer diante da terrível revelação. O lugar não poderia ser mais inadequado – um restaurante de moda, onde o maître interrompe a conversa para falar sobre a procedência de cada ingrediente, e como foram preparados os pratos escolhidos.

Os pais dos adolescentes são irmãos, mas esse laço de sangue em vez de gerar uma cumplicidade fraternal esconde conflitos, até então, convenientemente disfarçados sob o manto das relações socialmente corretas. Enquanto o mais velho é um político de prestígio, o outro é um professor de ensino médio de licença por estar com problemas de saúde.

À medida em que transcorre o jantar fica mais distante a possibilidade de uma solução conjunta que agrade às duas famílias. A um debate acalorado, com pontos de vistas opostos, seguem-se decisões que levarão a um surpreendente e sinistro desenlace da trama.

Quando terminei de ler este suspense psicológico (difícil de largar) lembrei-me da frase atribuída a Maquiavel “aos amigos os favores, aos inimigos a lei”.

* A peça de teatro foi adaptada para o cinema em 2011, e o filme dirigido por Roman Polanski

  • O jantar

Herman Koch

Editora Intrínseca

R$ 29,90

E-Book R$ 19,90

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