Bordados em dose dupla

Semana passada estive no CRAB (Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro). Queria ver as duas novas exposições que estavam sendo apresentadas: Galeria Pop e A Casa Bordada.

A proposta da primeira é bem interessante. Todas as obras expostas – num total de 250 – estão à venda.  De tão bonitas que são, precisei me segurar para não levar algumas para casa.

Entretanto, eu estava mesmo de olho na outra exposição, a Casa Bordada. Sou apaixonada, e dou muito valor a tudo o que é feito com as mãos: quer seja uma aquarela, um pote de cerâmica, uma comida saborosa, uma peça de crochê ou um bordado.

Pois o CRAB reuniu os trabalhos de diversas bordadeiras e criou um espaço belo, que transporta o visitante para uma tenda no deserto ou um barco de velas enfunadas. Os panos estão revestidos de pássaros, peixes e flores, barcos, frutos, rostos de amigos, tradições religiosas e atividades do cotidiano. Os pontos utilizados têm nomes curiosos como vagonite, richelieu, cruz, labirinto, cheio, aberto, turco, livre, da vovó…

Numa sala contígua a da exposição principal, acontecia outra mais singela. Se a “casa” era bem colorida, o ambiente menor reunia trabalhos feitos, apenas, com linha branca sobre tecidos da mesma cor. Este tipo de bordado foi muito utilizado na confecção de enxovais de casamento, vestidos de batizado, paramentos religiosos, lençóis e toalhas de mesa de antigamente. Vestígios de uma época em que se valorizava a paciência e se costuravam delicadezas.

Por coincidência, na véspera da minha visita ao CRAB eu havia terminado de ler Memória por Correspondência da pintora colombiana Emma Reyes.  A artista foi uma exímia bordadeira, ofício que aprendeu quando viveu confinada num estabelecimento religioso, misto de convento de freiras e instituição de caridade para crianças pobres.

Memória por Correspondência reúne as 23 cartas que ela enviou para o amigo, diplomata e historiador German Areiniegas.

As cartas não têm nenhuma pretensão literária, inclusive porque a autora só aprendeu a ler e escrever com mais de dezessete anos. Entretanto, elas cativam o leitor por narrarem, com precisão de detalhes, uma época extremamente dura e sofrida sem serem lamurientas ou queixosas. Emma apenas constata o que viveu. Como quando deveria ter uns quatro ou cinco anos e um menino, com quem costumava brincar, quis saber “(…) se eu tinha pai e mãe, e eu lhe perguntei o que era isso; ele respondeu que também não sabia.”

Emma e a irmã eram filhas ilegítimas de um figurão político que jamais as reconheceu. Depois de perambularem de cidade em cidade na companhia de uma mulher – que talvez fosse, mas a quem nunca chamaram de mãe -, as meninas acabaram por ser abandonadas na instituição religiosa.

Emma aprendeu a costurar e tornou-se uma das melhores bordadeiras da escola. Nada mais lhe foi ensinado. Afinal, ela, assim como as outras internas, estava ali para aprender um ofício e, no futuro, servir às famílias abastadas de Bogotá.

O livro termina com Emma contando como fugiu do convento. Mas e depois, como foi que ela se tornou uma artista famosa? Felizmente, o livro traz um posfácio escrito pelo jornalista Diego Garzon contando um pouco sobre a vida adulta de Emma Reyes. O que ele apurou é tão interessante que, com certeza daria um ótimo livro ou até mesmo um filme… Um filme ou, quem sabe, uma minissérie! Se fosse dirigido pelo cineasta colombiano Rodrigo Garcia (filho de Gabriel Garcia Marquez) com certeza seria um sucesso. Afinal, tragédias e triunfos não faltaram na vida de Emma Reyes.

  • CRAB

Praça Tiradentes 69, 71

Centro – Rio de Janeiro

(21) 3380-1805

(as duas exposições podem ser vistas até 30/11/18)

  • Memória por Correspondência

Emma Reyes

Companhia das Letras

R$ 39,90

E-Book R$ 23,90

 

Leituras entrelaçadas

hot-sulGosto de coincidências. Principalmente quando acrescentam sabor à vida, como duas pontas soltas e autônomas que se encontram involuntariamente e se entrelaçam em harmonia.

Pois foi assim, de maneira inesperada, que o poético Migrar topou com o vigoroso Hot Sul da escritora colombiana Laura Restrepo, que eu terminara de ler.

A prosa intensa da escritora pode ser ficcional ou talvez não. Por ser jornalista, ela retrata com riqueza de detalhes a trajetória de uma parcela de imigrantes ilegais que enfrentam uma infinidade de problemas para realizar o Sonho Americano.

Após ser jogada injustamente na prisão, Maria Paz uma jovem latina, escreve com sofreguidão páginas e páginas narrando a sua vida. Ela segue o conselho do professor de escrita criativa, que ao ministrar aulas na penitenciária onde ela se encontra dissera: Aquilo que não se narra é como se não tivesse acontecido.

A intenção de Maria Paz era que seu longo relato virasse um livro. Infelizmente quando o texto chegou até ao professor ele estava morto.

Esses papéis cairão nas mãos do pai do rapaz, que ao juntá-los com o que o filho escreveu em seu diário, o farão mergulhar numa realidade até então desconhecida.

Um país transformado em uma grande torta de mil folhas com camadas e camadas escondidas sob a superfície; bastava escavar um pouco para descobrir realidades insuspeitas. A sociedade norte-americana, até ontem sólida e inquestionável, era agora uma viga carcomida de caruncho.

Apreciei tanto a leitura de Hot Sul que mesmo depois de terminada, o “fantasma” de Maria Paz continuou comigo. Eu seguia pensando nas vicissitudes enfrentadas por todos aqueles que, por mil razões diferentes, decidem deixar seu país natal.

Dias depois ao participar de uma feira literária, meus olhos caíram sobre um livro de capa preta retangular, amarrado por uma fita. Foi o tempo de abri-lo, me encantar com sua originalidade e comprá-lo.

migrarEm casa, debrucei-me com mais atenção sobre o meu mais recente objeto de desejo: Migrar* com texto de José Manuel Mateo e ilustrado por Javier Martínez Pedro.

O mesmo tema de Hot Sul, mas desta vez contado por uma criança. Apreciei o texto enxuto e preciso, mas o que me encantou de verdade foi a forma inovadora da história ser contada.

Não uma leitura normal feita com o virar das páginas, mas em uma única e longa ilustração preta e branca, a ser apreciada à medida que se desdobrava como um biombo vertical.  Estava tudo lá: os momentos felizes vividos num povoado agrícola, a migração dos habitantes em busca de melhores oportunidades de trabalho, a partida do menino junto com a mãe e a irmã, e os perigos enfrentados até chegarem ilegalmente aos EUA onde esperavam se reunir ao pai.

Um encontro de duas fitas, ou melhor, de dois livros. Um laço dado, um nó amarrado, uma bonita coincidência.

 

* Migrar foi o vencedor do Prêmio New Horizons – Feira de Bolonha 2012 ( concedido a um livro de algum pais latino-americano, africano ou asiático. O prêmio visa destacar alguma obra que de acordo com o entendimento do júri, traga grande inovação editorial.) – informação http://www.revistaemilia.com.br  / fevereiro 2012

 

  • Hot Sul

Laura Restrepo

Editora Bertrand Brasil

R$ 59,90

disponível em E-Book

  • Migrar 

José Manuel Mateo e Javier Martínez Pedro

Editora Pallas

R$ 45,00

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