Lampião e o Vovô da Vovó na cidade de Mossoró!

Quem me conhece sabe que sempre gostei muito de ler. Mas, de uns tempos para cá, tenho me dedicado cada vez mais aos trabalhos manuais.

Parece que não estou sozinha. Diversas jovens têm se debruçado sobre tecidos, linhas e agulhas em tarefas que requerem serenidade e tempo. A persistência é recompensada ao ver surgir gradativamente o resultado de seus esforços.

Algo parecido acontece quando garimpamos pelas narrativas que nos foram transmitidas na infância e das quais recordamos apenas pedaços. Depois de muito pesquisar encontramos verdadeiras preciosidades.

Atendendo a um pedido da filha, que queria ouvir uma história verdadeira antes de dormir, a autora recuperou uma lembrança familiar contada por sua mãe.

A história de Rodolpho Fernandes, trisavô da menina. Um homem corajoso e destemido, que auxiliado pelos habitantes da cidade, enfrentou valentemente os ataques de Lampião desejoso de invadir e saquear o lugar onde todos moravam.

A narrativa de Marcela Fernandes de Carvalho mistura prosa, versos, rimas e lindos bordados. Como são bonitas as ilustrações do livro Lampião e o Vovô da Vovó na cidade de Mossoró!

A fusão deu certo. Afinal, como diz a autora “escrever e bordar são coisas bem parecidas, pois criamos ponto a ponto uma história encantada”.

 

  • Lampião e o Vovô da Vovó na cidade de Mossoró!

Marcela Fernandes de Carvalho

Editora Zit / Escrita Fina

R$ 49,90

O leitor que eu imagino – Jorge Miguel Marinho

Jovem Leitor – Ignat Bednarik / pintor romeno

O leitor que eu imagino sente e sabe que a leitura é um modo de ser feliz.

Ele sempre termina a leitura de um livro com o sentimento, calmo e inquieto, de recomeço.

Ele também nunca lê um livro querendo apenas entender ou decifrar o que o livro quer dizer – ele recria o que o livro é capaz de sugerir.

O leitor que eu imagino é criativo quando pergunta e criativo quando responde – para ele o livro é uma eterna indagação.

Ele não tem o menor interesse em saber quantos livros leu na vida porque cada livro são muitos livros dentro de um livro só.

O leitor que eu imagino quer que o livro seja ele, o próprio leitor, e escreve nas beiradas da página, grifa as palavras, rabisca o livro para poder assim ficar e existir dentro e fora do livro.

O leitor que eu imagino lê nos livros as situações mais conhecidas ou desconhecidas por ele sempre com olhos de primeira vez – por isso mesmo ele chama o livro de “lugar de revelações”.

O leitor que eu imagino lê em silêncio e silenciosamente conversa com o mundo, trocando palavras e imagens num diálogo sem fim.

O leitor que eu imagino sabe que a literatura faz existir o que ainda não existe.

Ele, O leitor que eu imagino, acolhe e hospeda cada vez mais personagens dentro dele e igualmente se torna mais solidário com a vida, depois de cada livro que lê.

Ele interrompe a leitura, mesmo quando ela é inadiável, pelo prazer de fingir que o livro não existe por um momento e, de repente, poder lembrar que o livro é de verdade e voltar a ser feliz.

O leitor que eu imagino nunca é capaz de saber o momento exato em que abriu e iniciou a leitura de qualquer livro – ele precede e pressupõe os sentidos de um livro antes de começar a ler.

Ao menos muitas vezes ou quase sempre na vida do leitor que eu imagino, ele pede, compra, empresta e até rouba livros sabendo muito bem que ele não vai ter tempo o bastante para ler todos os livros que tem.

Este mesmo leitor sabe, porque outro leitor sensível já alertou que, se ler não salva, não ler salva menos ainda, às vezes não salva nunca.

É preciso saber atribuir sentidos às palavras, criar sentidos ou até mesmo inventar os sentidos de um livro para ser o leitor que eu imagino.

É destino e missão do leitor que eu imagino aprender a escutar as palavras e as idéias e os silêncios de um livro, sem que ele, o livro, se imponha para ser lido – o livro apenas é.

O leitor que eu imagino, antes de buscar o conhecimento utilitário ou pragmático dos livros, vive a experiência da leitura como puro devaneio.

Para leitor que eu imagino existe um livro escrito especialmente para ele, igual a um amor predestinado, ainda que este encontro viva somente no imaginário de quem lê como quem ama e de quem ama como quem lê.

 

Este texto que me tocou profundamente foi retirado do artigo, “O LEITOR (de criatura a criador)”, escrito por Jorge Miguel Marinho, e que saiu no Jornal Literário Rascunho de fevereiro deste ano.

Janelas Abertas

Conheci o livro Janelas Abertas através de um vídeo postado na internet pela escritora baiana Mariana Paiva. Logo me interessei pelo tema que costuma ser pouco explorado: o de uma adolescente que mora com a mãe, em um quartinho, no apartamento onde esta trabalha como empregada doméstica.

Não foi fácil encontrar o livro publicado por uma pequena editora do interior de SP.  Precisei encomendá-lo, e assim que chegou, fiquei encantada com o caprichado projeto gráfico da editora Adonis.

Jéssica, a personagem principal, mora em um bairro de classe média alta e estuda numa escola pública. Ganha muitos presentes, mas não são exatamente os que gostaria de receber, porque são usados. Tem afeto pela patroa da mãe que sempre a tratou bem, mas ao mesmo tempo, ressente-se por ela pagar pouco.

À medida que a história se desenrola outros assuntos espinhosos, como preconceito racial e violência doméstica são apresentados, e o que inicialmente parecia ser uma relação desigual na verdade esconde segredos.

A narrativa tem diversas qualidades. Além de ser ágil, aborda um tema desconfortável de maneira inteligente e nem um pouco maniqueísta. Apesar de viver na interseção de dois mundos distintos, Jéssica não é amarga, nem se faz de vítima. Ela apenas procura encontrar saídas para não repetir as escolhas feitas pela mãe.

Nesse processo de autoconhecimento Jéssica contará com o apoio da melhor amiga e de uma professora.

Janelas Abertas é uma história bonita e questionadora que merece ser lida e recomendada aos jovens leitores.

 

 

  • Janelas Abertas

Lia D’Assis

Editora Adonis

R$ 39,50

 

 

 

Essa Menina – de Paris a Paripiranga

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Sempre aguardo com interesse a chegada das listas com os 10+ que aparecem todo final de ano. Elas abrangem os mais diversos assuntos e, como não poderia deixar de ser, as minhas favoritas são as que falam sobre livros.

Gosto quando li um ou outro dos recomendados, e fico curiosa se não conheço algum. Foi o que aconteceu com “Essa Menina – de Paris a Paripiranga”, escrito pela sergipana Tina Correia, e indicado por Zuenir Ventura no jornal O Globo.

O comentário elogioso do escritor – “um romance de estréia de quem domina a arte de narrar” – fez com que me interessasse por ele imediatamente.

O livro reúne diversas lembranças da infância e adolescência da autora vividas numa pequena cidade nordestina.

O jeito de Tina contar suas memórias é coloquial e repleto de regionalismos pitorescos. O que seria: “quem quisesse ter mabaços deveria comer frutas inconhas”?

Para quem não entendeu nada – assim como eu – a escritora explica: Mabaços são irmãos gêmeos, e frutas inconhas são aquelas que nascem grudadas uma na outra.

De superstição em superstição diverti-me muito, e soube de costumes populares que aos poucos foram esquecidos. Como o das meninas que mastigavam o tendão borrachudo do boi, atrás de uma porta (!), enquanto repetiam três vezes a frase “cabelouro me põe bonita!”. Este ritual era praticado pelo sexo feminino com o propósito de melhorar a aparência física.

A autora relembra também, de quando desejou conciliar a profissão de professora com a de cantora ou artista de cinema.

Após muitos anos sem cortar os cabelos – para cumprir uma promessa feita pela tia – assim que pode imitou o penteado curto da cantora Ângela Maria.

Curiosa para saber como era esse corte de cabelo fui pesquisar na internet. Além dessa informação, descobri que Ângela Maria após seis maridos e muitos namorados, em 1979, casou-se aos 51 anos com um rapaz de 18. Custei a acreditar, mas não só era verdade como os dois são felizes até hoje.

O sonho de ser artista de cinema teve seu ápice quando viu a atriz Vanja Orico atuar no filme “O Cangaceiro” dirigido pelo cineasta Victor de Lima Barreto. De novo recorri ao Google para saber um pouco mais. Aprendi que foi o primeiro filme brasileiro a ser visto no exterior, e que em 1953 recebeu dois importantes prêmios em Cannes: Melhor Filme de Aventura e Melhor Trilha Sonora.

Recentemente, uma das canções do filme, “Mulher Rendeira”, encantou o mundo inteiro ao ser tocada na cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016.

Quando terminei de ler “Essa Menina – de Paris a Paripiranga” pensei que se porventura ainda estivesse trabalhando numa livraria, o indicaria para muitos clientes. Este é um livro que merece ser conhecido.

 

  • Essa menina – de Paris a Paripiranga

Tina Correia

Editora Alfaguara

R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

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