Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre é uma escritora paulista que merece ser conhecida. Gostei do seu primeiro livro, Restos de Nós (premiado pela Fundação Biblioteca Nacional), e agora ela se superou. A temática de “Arroz, feijão, crimes e farofa e O banquete das hienas” é bem diferente  do livro anterior. Se Restos de Nós era um romance histórico e transcorria entre duas épocas cronologicamente distintas, este é bem atual e espirra sangue para todos os lados.

Na verdade são dois títulos reunidos no mesmo volume. O primeiro engloba vinte contos, ao mesmo tempo, brutais e belos. Estranho não? Como é possível encontrar beleza naquilo que é abjeto ou cruel? Pois a escritora consegue essa proeza. A linguagem literária é limpa, quaisquer excessos e penduricalhos foram eliminados, e a violência é descrita no osso. Os horrores são viciantes, difíceis de serem esquecidos.

Segundo Bia Onofre, as histórias são ficcionais, mas para o leitor instala-se a dúvida.  Cometidos por pessoas comuns, iguais aquelas com quem esbarramos todos os dias, passamos a olhar para os vizinhos com mais cuidado. Será que esse rapaz tão simpático esconde alguma coisa, e o gerente de banco, e o menino de rua?  Quantas maldades perambulam por aí que nem desconfiamos?

A segunda parte do título, O banquete das hienas, reúne mini e nano contos. A temática é a mesma. Só que, desta vez, alguns explicitam aquilo que pensamos ou gostaríamos de verbalizar e realizar… caso fossemos psicopatas.

 

“Tentei explicar que o problema era no hardware, mas ele não me ouviu. Culpa do Windows, alegou. Foi fechando os programas, precisava formatar.

Não me perguntou se eu tinha back-up. Arremessei lá de cima. Pela única janela que o analista havia deixado aberta.”

 

Raphael Montes que se cuide. Bia Onofre chegou com vontade de dividir com ele o espaço dedicado às histórias de crime e horror.

 

  • Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre (biaonofre@hotmail.com)

Giostri Editora

R$ 30,00

O Anjo Pornográfico

Apesar de só assistir a jogos de futebol de quatro em quatro anos e apenas quando o Brasil entra em campo (depois da derrota na ultima sexta vou hibernar até 2022), lembro que gostei bastante de ler a biografia de um jogador de futebol: “Estrela solitária- um brasileiro chamado Garincha”, escrita pelo jornalista Ruy Castro.

Recentemente, deleitei-me com a transcrição no Jornal Literário Rascunho da conversa feita pelo escritor durante a abertura do evento cultural Paiol Literário, que  ocorreu em junho em Curitiba.

O escritor discorre sobre o seu processo de escrever biografias e cita algumas normas que costuma seguir: a de não aceitar pedidos para escrever sobre alguém específico ou que ainda esteja vivo. Comenta sobre o trabalho descomunal que é pesquisar a vida de uma pessoa, e que é impossível traçar um perfil consistente sem entrevistar no mínimo duzentas outras.

Uma observação em especial chamou minha atenção. A de que os parentes costumam ser os menos informados sobre o biografado. É verdade que conhecem seus hábitos, seus gostos e idiossincrasias, mas o que sabem daquele homem ou mulher quando se encontrava longe do ambiente familiar? Afinal é esse lado escondido que torna a vida do biografado interessante e verossímil.

O moderador perguntou a Ruy Castro o que achava de ter sido processado por revelar assuntos que, na maioria das vezes, os familiares preferiam que continuassem escondidos. O escritor concordou que o biógrafo poderia ser responsabilizado caso fizesse um trabalho mal feito, mas que a obra não deveria ser censurada. Em último caso, quem não concordasse com os fatos narrados que escrevesse a própria versão.

Todas as irmãs do Nelson Rodrigues ficaram de mal comigo. (…) Elas acharam que protegi a viúva do Nelson. As irmãs – não só do Nelson como de todos os Rodrigues – tinham uma relação quase incestuosa com seus irmãos e ódio a todas as cunhadas, naturalmente. Tanto que se você ler as peças do Nelson, todas aquelas tias virgens, solteironas e neuróticas são as irmãs dele.

O comentário fez-me retroceder a quando cheguei ao Brasil e a revista reinante nos cabeleireiros cariocas era a Fatos &Fotos. Foi ela quem me apresentou à obra de Nelson Rodrigues. Na época procurava com uma mistura de fascínio e pudor a página com a crônica do escritor maldito. Agora, essa curiosidade ressurgia.

Quando terminei de ler o artigo lembrei que tinha diversos livros do Ruy Castro na estante. Será que a biografia sobre Nelson Rodrigues conseguira sobreviver às mudanças de apartamentos e cidades? Lá estava ela junto aos outros livros do Ruy Castro, que meu marido e eu compramos ao longo dos anos (não me desfiz de nenhum). O livro tinha as páginas amareladas pelo tempo e conservava a etiqueta da livraria Sicilano.

Assim que li os primeiros parágrafos,  atraquei-me a O Anjo Pornográfico.

A escrita de Ruy Castro além de ser extremamente envolvente – ele é uma autêntica Sherazade versão masculina – é bastante informativa. Ainda estou no início, mas já recebi uma aula de história bem interessante. A poucos meses de uma eleição presidencial, constato que por mais instável que seja o momento político brasileiro, o país já atravessou outras crises tão ou mais dramáticas do que esta. Fico imaginando o que Nelson Rodrigues teria a dizer sobre tudo isto.

P.S. Ao avançar na leitura encontrei uma frase de Nelson Rodrigues que responde à minha indagação e infelizmente continua atual: Em Brasília todos são inocentes e todos são cúmplices. 

 

  • O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues

Ruy Castro

Editora Companhia das Letras

R$ 77,90

A glória e seu cortejo de horrores

Não cheguei a fazer o mesmo que o escritor Reinaldo Moraes que, ao terminar de ler o ultimo romance da Fernanda Torres, de tão empolgado que ficou, o leu de novo. Mesmo assim posso afirmar que gostei muito de “A glória e seu cortejo de horrores”.

Conforme já tinha feito em “Fim” – quando retratou a vida de cinco amigos moradores de Copacabana – a escritora deu voz a um personagem masculino já avançado nos anos. Desta vez, o ancião nasceu e foi criado na Tijuca, de onde “fugiu” assim que iniciou a carreira artística de ator.

É o próprio artista quem conta a epopeia, desde os tempos em que se apresentou em povoados no interior da Bahia – para conscientizar as massas populares -, aos anos gloriosos de galã de novelas e ator teatral de sucesso, até o retumbante fiasco como protagonista principal de uma encenação delirante e megalomaníaca de Rei Lear.

Mais uma vez apreciei a facilidade da autora em descrever de forma irônica e, por que não dizer, um pouco cruel, o processo de envelhecimento de uma pessoa:

A meia-idade é um período de descuidos e incertezas na vida de um homem. Na da mulher, também, mas elas, pelo menos, enfrentam calores cíclicos, depressões hormonais que justificam as escolhas tortas. O homem, não, ele continua idêntico ao que sempre foi, só que pior, cada dia pior, enxaguando os cabelos, às escondidas, com xampus tonalizantes, e enlouquecendo de amor por meninas que poderiam ser suas filhas. As mulheres são mais realistas. A natureza obriga.

Também me diverti imaginando a quem ela estaria se referindo quando incorporou tantos “causos” profissionais à vida do personagem principal.

Se a escritora – criada nas coxias do meio artístico – não tem idade para ter presenciado muitas dessas histórias, com toda a certeza as escutou serem contadas pelos pais (Fernanda Montenegro e Fernando Torres) ou por seus amigos. Porque cada episódio narrado parece remeter a algum ator real, como se tivesse “um nome com endereço certo”, algo que só os iniciados poderão confirmar.

A leitura de “A glória e seu cortejo de horrores” atiçou a minha curiosidade para outros textos. Além da já mencionada peça de Shakespeare, Rei Lear, o romance de Fernanda Torres comentou sobre outra peça de teatro: “Tio Vânia”, de Tchekhov.

O meu primeiro impulso foi comprá-la. Mas bastaram alguns minutos de reflexão para desistir da ideia. Por mais que eu resista, preciso me conformar que jamais vou conseguir dar conta de tudo o que desejo ler. E assim, o nome Tchekhov foi devidamente anotado e se juntou à interminável lista de escritores que pretendo ler um dia.

 

  • A glória e seu cortejo de horrores

Fernanda Torres

Companhia das Letras

R$ 44,90

E-Book R$24,90

Coração de inverno, coração de verão

Assim que deslizei a ponta dos dedos pelas pequeninas saliências – semelhantes a flocos de neve – que cobriam a capa do livro, intui estar diante de uma história sensível e delicada.

Escrito pela carioca Leticia SardenbergCoração de inverno, coração de verão”, aborda um tema complicado: o luto infantil. Principalmente quando se trata da perda dos pais. Não sabemos como e onde isso aconteceu, mas o mundo dessa criança congelou numa saudade que não tem mais fim.

A autora compara o luto a um rigoroso e interminável inverno que o menino atravessa sozinho e desesperançado. Conselhos, cuidados e distrações o ajudaram um pouco, mas só por alguns momentos.

Entretanto, da mesma maneira que é impossível impedir uma estação do ano de suceder à anterior, algo parecido também acontece com essa criança.

Sem querer, ele encontra uma jovem com um coração luminoso e acolhedor que compreende e respeita a sua tristeza. E pouco a pouco, o que antes era inverno passa a ser verão, e o menino que antes sofria sozinho agora compartilha alegrias.

As ilustrações de “Coração de inverno, coração de verão” são do premiado ilustrador paulista Alexandre Rampazo, e retratam com muita sensibilidade sentimentos que merecem e precisam ser expressos.

 

  • Coração de inverno, coração de verão

Leticia Sardenberg (texto)

Alexandre Rampazo (ilustrador)

Editora Zit

Público-alvo: a a partir de 8 anos

R$34,90

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