O que tenho visto durante a quarentena

Quando a quarentena começou, imaginei que iria pôr a leitura em dia, e fazer todas aquelas arrumações que estou sempre adiando por falta de tempo.

Ingenuamente supus que também faria um detox das redes sociais. No entanto, aconteceu exatamente o contrário. Sem perceber, enredei-me em postagens que discutiam a necessidade de todo mundo colocar, ou não, uma máscara de proteção para ir à rua; se o isolamento horizontal não poderia ser substituído pelo vertical; se a hidroxicloroquina realmente era eficiente no combate ao corona vírus; sem contar nos embates ideológicos e teorias conspiratórias, tendo desta vez a China como vilã.

Como era de se esperar, a minha concentração para a leitura ficou seriamente prejudicada. Mudei então o meu foco para filmes e minisséries da Netflix.

Apesar de não ser fanática por futebol apreciei The English Game. Ela conta como o jogo surgiu na Inglaterra e deixou de ser um esporte das elites para se tornar uma atividade tremendamente popular. O que me chamou atenção foi a história e o roteiro serem de Julian Fellowes, o criador do megassucesso Downton Abbey.

Depois assisti A vida e a história de Madam C. J. Walker, sobre a primeira mulher afro-americana a se tornar milionária poucos anos depois da escravidão ter sido abolida dos EUA. Interpretada pela maravilhosa Octavia Spencer, Madam Walker fez fortuna ao criar uma rede de produtos de cabelos que eram vendidos por mulheres através de franquias.

Califado pegou-me de jeito, e em apenas três dias vi os oito capítulos. Trata-se de uma minissérie sueca, inspirada em acontecimentos reais que entrelaça três histórias: a atuação do extremismo islâmico para cooptar para suas hostes jovens que vivem em um país democrático e liberal; a luta contra o relógio para desarmar um atentado terrorista que não se sabe onde vai acontecer; e uma jovem que se arrependeu de ter casado com um jihadista e quer fugir da Síria.

Para aliviar a tensão, assisti à não menos interessante Nada Ortodoxa, uma minissérie baseada nas memórias da escritora americana Deborah Feldman. A personagem Esty cresceu numa comunidade judaica ultraortodoxa de Nova Iorque, na qual não se encaixa. Apesar de não ter estudos ou uma profissão consolidada, ela faz o caminho inverso de seus ancestrais e se refugia em Berlim, onde pretende recomeçar a vida.

Nada Ortodoxa é uma produção alemã e reconstitui de maneira fiel os costumes dessa comunidade hassídica de origem húngara que de tão fechada parece uma sociedade secreta. São apenas quatro episódios que se veem de uma tacada só.

Por último, continuo assistindo à minha favorita: Os caminhos do senhor. Trata-se de uma produção dinamarquesa que retrata uma família cujos membros são, há gerações, pastores da igreja luterana. Faz muito tempo que não via algo tão denso e especial. As interpretações são extraordinárias, os diálogos de primeira qualidade, as tensões e questionamentos profundos e a fotografia maravilhosa. Não dá para assistir a um capítulo seguido de outro. Os caminhos do senhor são para serem apreciados com parcimônia, degustando um episódio por vez.

Recomendo também o drama histórico espanhol A trincheira infinita. O filme ganhou diversos prêmios, inclusive o de melhor direção (Jon Garaño). Ele conta a história verídica de um homem que precisou se esconder quando os comunistas foram vencidos pelas forças nacionalistas de Franco. Ele sabia que, se fosse pego, teria o mesmo destino de seus companheiros de luta: a forca ou o paredão de fuzilamento. Por essa razão, ele viveu escondido dentro de casa por trinta anos (é isso mesmo que você leu). Por mais angustiada que eu tenha ficado ao assistir ao filme, ele me ajudou a encarar com mais tranquilidade o atual confinamento. Poderia ser bem pior.

Belgravia

belgraviaBelgravia é um daqueles livros que se leem de um fôlego só. Principalmente se você assistiu a mini série inglesa Downton Abbey e gostou.

Está tudo lá. As rígidas convenções sociais e as divisões de classes entre nobres e empregados. No livro entra outra casta pouco explorada na série: a dos empreendedores, que trabalhavam e construíram suas fortunas de maneira legítima. Eles eram menosprezados não só pela aristocracia mas também pelos próprios empregados domésticos, que se pudessem escolher prefeririam trabalhar para patrões mais ilustres.

Um fato curioso muito bem caracterizado em Belgravia é a posição social do segundo filho. Sorte de quem nasceu primogênito. Eu disse primogênito e não primogênita. Se fosse homem herdaria o título nobiliárquico, as propriedades rurais, a mansão, enfim, tudo. Se fosse mulher deveria procurar fazer um “bom casamento” porque o herdeiro universal seria o irmão mais novo. Se não houvesse um, o afortunado passaria a ser o parente masculino mais próximo na linha sucessória.

É de se supor que à medida que cada irmão ficava ciente de sua posição na escala sucessória, as relações deixavam de ser fraternais e passavam a ser alimentadas por sentimentos nada nobres como a inveja, o despeito e a desconfiança.

Se para a grande maioria burguesa este arranjo sucessório parece injusto, o mais espantoso é saber que ele persiste até hoje na Inglaterra.

Belgravia é um romance de costumes, repleto de tramoias e fofocas que prende a atenção do leitor do começo ao fim. Definitivamente eu o recomendo.

 

  • Belgravia

Julian Fellowes

Editora Intrínseca

R$ 49,90

E-Book R$ 34,90

 

 

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