O Buda no sótão

Acompanho a seção Books and Literature do jornal New York Times. Na maioria das vezes, passo rapidamente os olhos pelas postagens, mas em abril deste ano surgiu uma coluna muito interessante, a Match Book.

Escrita pela jornalista Nicole Lamy, ela sugere leituras em resposta aos pedidos feitos pelos leitores. A um que gostou de “Um rapaz adequado”, de Seth Vikram, e procura por outra longa saga familiar, Nicole indica a tetralogia de Elena Ferrante. Já para o filho único que deseja ler histórias que falem de relacionamentos entre irmãos, ela aconselha “Aguapés”, de Jhumpa Lahiri ou “Os Pescadores”, de Chigozie Obioma.

As solicitações são as mais variadas possíveis, mas uma em especial chamou a minha atenção: A de um casal que se reveza lendo, em voz alta, para o outro. Antes de continuar, quero dizer que achei esse hábito extremamente bonito, de uma cumplicidade e intimidade impar.

Uma das indicações que a jornalista ofereceu ao casal foi “O Buda no sótão”, da escritora Julie Otsuka , vencedora do prêmio Pen/Faulkner* de 2012.

Interessei-me pela história. No início do século passado, jovens japonesas deixaram o país natal para se casar com desconhecidos. Elas respondiam às cartas enviadas por compatriotas solteiros, que haviam emigrado para a costa oeste dos EUA em busca de oportunidades de trabalho e riqueza. Durante anos trabalharam arduamente ao lado de maridos que mal conheciam, criaram filhos num país cujos hábitos culturais não compreendiam e sem falar inglês. Em troca receberam dos americanos apenas a desconfiança.

Após o ataque a Pearl Harbour, 120.000 pessoas de etnia japonesa foram confinadas em campos de concentração, apesar de mais da metade já serem cidadãos americanos.

A leitura de “O Buda no sótão” não poderia ter sido mais oportuna. Impossível não fazer uma analogia entre a generalização, feita naquela época, de que todos os japoneses eram espiões, e a atual, segundo a qual os muçulmanos são vistos como terroristas em potencial. O mesmo obscurantismo, o mesmo medo.

Por diversas vezes retornei à epígrafe do livro, que tão bem resumiu a vida dessas mulheres:

Alguns deles deixaram um nome que ainda é citado com elogios. Outros não deixaram nenhuma lembrança e desapareceram como se não tivessem existido. Existiram como se não tivessem existido, assim com seus filhos depois deles.  (Eclesiástico 44,8-9)

Este pequeno livro, com pouco mais de 130 páginas, dá voz a centenas de mulheres que mesmo sendo tratadas como invisíveis, deixaram sua marca indelével na sociedade americana.

A quatro meses para o ano terminar, posso dizer, sem medo de errar, que “O Buda no sótão” foi a minha leitura favorita em 2017.

 

*O prêmio é conferido exclusivamente a escritores-norte americanos ainda vivos cujos trabalhos de ficção se destacaram durante o ano.

  • O Buda no sótão

Julie Otsuka

Editora Grua

R$ 34,90

 

Aguapés

aguapes_capa.pdfQuando em 2013 soube que Jhumpa Lahiri havia escrito um novo romance fiquei animadíssima. Ela é a autora de Intérprete de Males, um livro que considero como dos melhores que li até hoje.

Apesar de saber que esse novo romance, Aguapés, fora finalista de dois prêmios literários importantíssimos, o Man Booker Prize e o National Book Award, resisti o quanto pude para o ler. Estranho, não?

Talvez nem tanto se explicar que tenho a estranha mania de não ler mais nada de um escritor se após ler algo que me agradou muitíssimo, leio em seguida algo dele que me decepciona. E foi isso o que aconteceu com O Xará, de Jhumpa Lahiri. Não me recordo mais qual foi a razão, pois já faz muito tempo, mas não gostei do livro.

Recentemente reli Intérprete de Males e mais uma vez senti o frescor e contentamento da primeira leitura.

Deixei de lado as minhas bizarrices e comprei Aguapés. Mas não me rendi facilmente. O livro estáva ali, do meu lado, mas vários outros passaram na sua frente.

Aguapés foi a ultima leitura do ano, e posso dizer que o fechei com chave de ouro!

Entrei em águas conhecidas e mergulhei na prosa elegante e enxuta de Jhumpa Lahiri que desliza sem sobressaltos.

Aguapés são bonitas plantas aquáticas que nascem nos rios ou em terras alagadas.  Podem ser utilizadas para despoluir as águas que estiverem contaminadas por esgotos. Mas se proliferarem desordenadamente acabam por “asfixiar” os rios e lagoas que haviam salvado.

Pois foi à beira de terras como essas, na periferia de Calcutá na Índia,  que os irmãos Subhash e Udayan cresceram. Inseparáveis e de temperamentos opostos, eles se completam. Até que o mais velho decide seguir os estudos nos EUA e o mais novo entra numa organização politica clandestina.

Durante algum tempo trocam cartas contando como corre a vida de cada um. Mas Subhash conhece o irmão melhor do que ninguém e percebe o fosso que se forma entre eles dois.

Um dia recebe um telegrama avisando, sem maiores explicações, que Udayan morreu.

Ao retornar à casa dos pais conhece a cunhada, agora viúva e grávida. É Gauri que lhe conta que o irmão foi assassinado pela polícia.

Num gesto impensado Subhash decide se casar com ela e levá-la para os EUA. No entanto as coisas não correm exatamente como imaginou. Por mais que se esforce, eles não conseguem construir uma familia. Gauri ergue muralhas invísiveis ao seu redor e silencia sobre o próprio passado, do qual não consegue se libertar.

São muitos os estranhamentos e descompassos – tanto culturais quanto os de relacionamento entre os personagens – e  Jhumpa Lahiri  com sua prosa segura e delicada os apresenta de maneira magistral e sedutora.

Um segredo pode ser tão danoso quanto um aguapé.  Inicialmente pode proteger alguém, mas com o passar do tempo torna-se um fardo difícil de suportar, alastra-se silenciosamente e quando nos damos conta já contaminou tudo ao redor.

  • Aguapés

Jhumpa Lahiri

Globo Livros (Biblioteca Azul)

R$ 44,90

E-Book R$ 31,40

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