O gosto do morango

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Assim é a vida. Há os que apoiam e os que discordam, os que aplaudem e os que vaiam, mas recentemente os brasileiros se uniram para elogiar as Paraolimpíadas realizadas no Rio de Janeiro.

Durante onze dias, atletas de diversas nacionalidades e com as mais variadas limitações físicas se superaram em provas que a maioria da população nem se arrisca a praticar. Foco, entusiasmo, determinação, perseverança foram atributos que inspiraram e nos forçaram a refletir sobre o que está sendo feito e o que precisa melhorar para acolher os portadores de deficiências físicas e mentais no dia a dia de uma cidade.

Por essa razão, gostei da feliz coincidência de O gosto do morango, escrito pela baiana Nathalie Guerreiro, ter sido lançado nessa época.

Com muita sensibilidade a autora conta como foi a adaptação de Eduarda, uma menina com dificuldades de locomoção à nova escola. Na verdade foi uma dupla adaptação, porque ela também havia mudado de país.

A primeira reação das crianças não foi das mais simpáticas. A chegada de quem é diferente ou estrangeiro, num grupo onde todos se conhecem, costuma gerar desconfiança.

Mas o gesto de amizade de uma colega fez com que os demais se aproximassem de Eduarda e, ao conhecê-la melhor, deixassem o estranhamento de lado e a incluíssem na turma.

Pode ser feito um paralelo entre o legado das Paraolimpíadas e a mensagem de O gosto do morango. Ambos estimulam a inclusão e nos fazem refletir sobre como uma sociedade se prejudica quando adota um comportamento acomodado e excludente.

Está mais do que na hora de acolhermos as diferenças dos outros para que eles passem a ser nós.

 

  • O gosto do morango

Nathalie Guerreiro

Ana Maria Moura (ilustrações)

Solisluna Editora

R$ 49,90

A voz do livro

AnaLu-Palma-Livro-FaladoPara aqueles que amam a leitura, chega a ser quase física a dor que se sente, por saber que muitas pessoas não leem por falta de acesso aos livros. Essa realidade é ainda mais cruel quando a dificuldade resulta de uma deficiência visual. Neste caso, não se trata de bibliotecas inexistentes ou com acervos desatualizados, mas estar com o livro nas mãos e não o poder ler.

Penso em todos os lançamentos que chegam quase que diariamente às livrarias, e fico imaginando quantos serão transcritos para o Braille. Acredito que pouquíssimos, e, se o forem, terão tiragens muito pequenas e portanto insuficientes. Por sua vez, os livros escritos em Braille são enormes, ocupam muito espaço, sendo praticamente impossível montar uma biblioteca particular com eles.

Mas e se os livros fossem gravados? Fiz uma pesquisa rápida, na internet, sobre a oferta de áudio-livros no mercado nacional. Encontrei alguns códigos de Direito, alguns livros espíritas e muitos cursos de línguas estrangeiras. Quanto aos livros mais vendidos na semana (Inferno de Dan Brown, A culpa é das estrelas de John Green, a biografia de José Dirceu escrita por Otávio Cabral e Kairós do Padre Marcelo Rossi), não encontrei NENHUM no formato áudio.

As grandes editoras nacionais já começaram a disponibilizar os lançamentos em modo digital, mas se um portador de deficiência visual quiser ler o que está ”na crista da onda” vai precisar contar com a boa vontade de um amigo ou parente, para que grave o livro desejado.

Recentemente conheci AnaLu Palma, uma  carioca, de sorriso largo e generoso. Em 2002 ela criou o projeto Livro Falado que, até hoje, procura incluir os portadores de deficiência visual no mundo apaixonante e inesgotável da leitura.

Contando com o apoio do poeta Ivan Junqueira e a colaboração de vários ledores*, foram gravados diversos livros escritos por membros da Academia Brasileira de Letras do RJ. Depois, essas obras foram reunidas e viraram 42 mil CDs distribuídos gratuitamente pelas audiotecas de todo o Brasil.

AnaLu encontrara um mercado sequioso de “livros falados”, mas percebeu também que faltavam ledores, e aqueles que liam e gravavam por conta própria o faziam de forma amadora e desordenada.

Foi então que o projeto entrou em uma segunda fase e oficinas foram montadas para capacitar novos voluntários.

Apesar de não existirem regras formais de como gravar um livro, AnaLu procurou padronizar a gravação, de tal forma que o portador da deficiência visual tivesse a certeza de que escutaria uma cópia, a mais fiel possível, ao livro que fora escrito em tinta.

Inicialmente gravavam-se os livros em fita K7. Não era a forma ideal, porque com o passar do tempo a fita magnética podia quebrar ou mofar, e a qualidade do som deixava sempre a desejar – a não ser que a  gravação fosse feita em estúdio, o que gerava custos imprevistos.

Corria o ano de 2008 quando AnaLu conheceu o programa de computador Audacity. Foi uma revolução! Além de ser baixado gratuitamente da internet, agora era possível gravar e editar o texto sem sair de casa. Gaguejos e tropeços, palavras “comidas” e ruídos de fundo indesejáveis sumiam com o teclar de alguns simples comandos.

Com o novo programa o ledor não precisava mais entregar pessoalmente ou se deslocar até o correio para enviar os livros gravados. Tudo era mais fácil, bastava transpor os arquivos das gravações para o formato MP3 e enviá-los por e-mail. Simples assim!

Graças aos patrocínios da Universidade Estácio de Sá e do Ministério da Cultura,  AnaLu Palma oferece cursos – com duração de 1 mês em encontros semanais de 3 h – para  capacitar voluntários que têm interesse em gravar livros utilizando a nova ferramenta.

Eu fiz o curso e amei! Inicialmente a novidade pode intimidar um pouquinho, mas nada que não se resolva na segunda aula. O importante é “brincar” muito, sem medo de errar, acostumar-se à própria voz (o que é sempre muito esquisito) e tirar as dúvidas na aula seguinte.

Depois é sair “plantando” livros por aí afora, e aguardar a chegada dos novos leitores-ouvintes.

* Aquele que lê para alguém

  • Projeto Livro Falado

Responsável: AnaLu Palma

(21) 2549-6376

http://www.livrofalado.pro.br/

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