Aqui estão os sonhadores

É difícil de acreditar, mas o número de imigrantes ilegais vivendo nos EUA é quase o dobro dos moradores da cidade do Rio de Janeiro. São mais de onze milhões de pessoas vindas de diversos cantos do mundo – sabendo ou não falar inglês, com ou sem habilidades profissionais– desejosas de alcançar o tão mitificado “sonho americano”. Fico imaginando que tipo de vida essas pessoas levavam em seus países a ponto de desistirem de tudo e se arriscarem numa aventura incerta e cara.

Pois é sobre um casal assim que trata o primeiro romance da escritora camaronesa Imbolo Mbue, residente nos EUA há mais de uma década.

Aqui estão os sonhadores” conta a história de Jende e sua mulher Neni que imigraram para os EUA na esperança de construírem um futuro melhor do que aquele que teriam no país natal (Camarões). Eles acreditavam na própria capacidade de trabalho e desejavam, acima de tudo, dar uma vida boa para o filho de seis anos, e também para o bebê que estava para nascer.

Os primeiros empregos que Jende encontrou foram cansativos e mal remunerados. Mas graças à recomendação de um parente, que morava nos EUA há mais tempo, finalmente sua sorte começou a mudar. Ele foi contratado para ser o motorista particular de um importante executivo do banco Lehman Brothers, e de sua família.

Discreto e atencioso, Jende logo notou que a vida do casal para o qual trabalhava não era exatamente um mar de rosas. Enquanto dirigia para o patrão, também presenciava conversas telefônicas de trabalho que quase sempre terminavam em calorosas discussões.

Mas se os patrões tinham problemas, ele também os tinha. O visto temporário que lhe permitiu entrar nos EUA expirara há muito tempo, e ele precisava manter o emprego a qualquer custo para não ser deportado.

Por isso, quando a crise financeira de 2008 estourou levando à falência o banco onde o patrão trabalhava, a sua permanência nos EUA ficou ainda mais instável.

Mas será que valia a pena lutar por um sonho – por mais lindo que ele fosse – se isso viesse a causar sofrimento a outras pessoas, ou se Jende precisasse compactuar com atitudes indefensáveis?

Aqui estão os sonhadores” é uma reflexão poderosa sobre as dificuldades que os imigrantes ilegais encontram nos EUA. E graças às recentes medidas anti-imigração adotadas pelo governo Trump tornou-se um leitura mais atual do que nunca.

 

(O livro foi o vencedor do Prêmio PEN/Faulkner de ficção de 2017 concedido a escritores vivos norte-americanos)

 

  • Aqui estão os sonhadores

Imbolo Mbue

Globo Livros

R$ 49,90

Meu Avô Português

meu-avo-portuguesTerminou no ultimo domingo a 1ª primavera de Livros em Salvador organizada pela Liga Brasileira de Editoras Independente (LIBRE).

Gostei do evento principalmente por encontrar tantos títulos de livros, que normalmente ficam escondidos nas prateleiras das poucas livrarias da cidade, e não recebem o merecido destaque.

Como boa portuguesa, meu olho caiu e logo se interessou por Meu avô português publicado pela editora Panda Books.

Ele faz parte da coleção Imigrantes do Brasil da qual constam outros avós estrangeiros: africano, árabe, espanhol, italiano, japonês, grego, chinês e alemão.

O narrador é Tiago, neto de um português que no início do século passado, junto com tantos outros conterrâneos, deixou o velho continente por causa da guerra, fome e pobreza.

Para não fugir ao velho clichê, ao chegar ao Brasil montou uma padaria. Em cima dela construiu a casa onde morou com os filhos, um deles pai de Tiago.

A história relembra alguns costumes e hábitos alimentares que vieram na mala dos imigrantes.  A tia do menino aprendeu com sua mãe a pintar azulejos e manteve a tradição de utilizá-los para decorar as paredes da casa. Foi também a avó de Tiago que lhe ensinou a fazer os deliciosos pastéis de Belém.

E aqui faço um esclarecimento, o nome certo do doce é Pastel de Nata. O nome de pastel de Belém é marca registrada de uma confeitaria localizada perto do Mosteiro dos Jerônimos, e só ela pode usá-lo.

Parece bobagem, mas é o mesmo que chamar um espumante de Champanhe ou um presunto cru de Parma. Para receber esse nome é necessário que o espumante seja proveniente dessa região na França e que o presunto seja produzido exclusivamente nessa região italiana.

Também seria mais autêntico se os avós falassem entre si usando o tratamento tu e não você, assim como menos gerúndios. Então, em vez de “O que é legal? Sua avó cantando ou o pastelzinho que você está comendo com tanto gosto?”, um português diria: “O que é giro? Tua avó a cantar ou o pastelzinho que tu estás a comer com tanto gosto”?

Apesar destes pequenos deslizes, Meu avô Português faz uma bonita homenagem àqueles que deixaram seu país natal e escolheram o Brasil como Pátria de sua descendência.

 

  • Meu avô português

Manuel Filho

Alarcão (ilustações)

Editora Panda Books

R$ 35,90

 

 

 

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