Um festival necessário

Jamais esquecerei a emoção que senti ao folhear o esboço da minha primeira história devidamente ilustrada.

O que antes era apenas um sonho, um desejo, tornou-se realidade após conhecer a artista visual Flávia Bomfim.

Nosso encontro aconteceu em 2013, quando participei do 1º Festival de Ilustração e Literatura da Bahia. Flávia era a organizadora. Ela reuniu diversos artistas nacionais e estrangeiros de estilos e técnicas diferentes, que expuseram seus trabalhos e falaram sobre os respectivos processos criativos.

Ao final do evento, ainda inebriada por tudo o que tinha aprendido, tomei coragem e perguntei se ela indicaria alguém que pudesse ilustrar uma história minha. Na maior simplicidade, sem mesmo conhecer o que eu escrevia, Flávia respondeu: eu posso.

Dois anos depois aconteceu o segundo Festival de Ilustração e Literatura, e em 2017 o terceiro, agora renomeado de Festival de Ilustração e Literatura Expandido (FILExpandido).

Tive a satisfação de estar presente em todos os eventos e acompanhar o seu fortalecimento. A cada nova edição mais ilustradores consagrados pediam para participar, e  talentosos profissionais baianos ganhavam visibilidade.

Quando me mudei para o Rio de Janeiro estava convicta que o Festival encontrara um lugar definitivo no calendário cultural de Salvador. Eu estava errada.

Felizmente, como boa leonina que é, Flávia Bomfim não se deixou abater e criou um financiamento coletivo para que o 4º FILExpandido aconteça em 2020.

Acredito na importância do Festival, no seu potencial criativo e agregador. Afinal, se não fosse por ele o meu livro “A pergunta mais importante” não existiria.

Certa de que muitas outras parcerias poderão acontecer, convido todos que lerem este texto a contribuir para a realização do próximo festival.

Alguns poderão dizer: ah, mas eu não moro em Salvador… Certo, mas se der uma olhadinha nas recompensas que estão sendo oferecidas, aposto que vai mudar de ideia.

Entro em 2020 com esperança de que estarei presente no 4º FILExpandido!

 

https://www.catarse.me/filexpandido_4_fde9?project_id=106399&project_user_id&fbclid=IwAR0FOu4EAEZph8E5e9NBHhiJlgmUArsTpPYBQLLHTQmewS0KU3jNqicctcw

Caixa de chocolates

Já dava como perdida a encomenda que meu filho enviara pelo correio no início do ano, quando, finalmente, o porteiro me entregou uma caixa de papelão maltratada.

Dentro estavam três presentes cuidadosamente embrulhados em papel com motivos natalinos. O primeiro era para o casal: um calendário de parede com fotografias da cidade histórica onde ele mora e que ainda não conhecemos. O segundo presente era exclusivo para o pai: uma caixa de deliciosos bombons de chocolate. E o terceiro era para mim: um livro sobre livrarias independentes.

Ao examinar o livro pensei que, de tão bonito que era, teria sido uma maldade se a caixa tivesse se extraviado pelo caminho. Sem querer desmerecer os outros presentes, pude imaginar a satisfação de meu filho quando a namorada lhe mostrou o que ela havia encontrado para mim.

A capa de “Footnotes* from the world’s greatest bookstores” é dura e se levanta na vertical como uma tampa, protegendo o miolo da publicação. Depois, é só folhear o conteúdo normalmente.

O livro reúne ilustrações de 78 livrarias e sebos espalhados pelo mundo inteiro. Os desenhos são do cartunista norte americano Bob Eckstein. Cada um deles vem acompanhado de uma breve explicação sobre o estabelecimento comercial e comentários curiosos proferidos pelos proprietários, vendedores e freqüentadores, que tanto podem ser pessoas famosas como simples anônimos. Algumas das livrarias mencionadas tornaram-se saudosas recordações. Felizmente, a maioria continua de portas abertas.

 

Footnotes* from the world’s greatest bookstores” foi a minha “caixa de chocolates”. Cada página virada era como se eu saboreasse um diferente tipo de bombom. Tinha o sabor “livraria escondida no final de um longo túnel que desemboca num antigo abrigo antiaéreo”; o sabor “livraria-restaurante que oferece três livros de graça ao cliente no final da refeição”; o sabor “livraria móvel que circula por Lisboa com títulos de autores portugueses para que os estrangeiros os conheçam’; o sabor de “uma minúscula livraria parisiense onde cabem apenas quatro a cinco pessoas”; o sabor “livraria londrina flutuante”, e muitos outros “bombons” deliciosos.

Além de poder saboreá-los quantas vezes eu quiser, estes chocolates não engordam! Tem presente melhor?

 

Se eu fosse um livro

No início de maio, realizou-se em Salvador o 3º Festival de Ilustração e Literatura Expandido. O evento acontece de dois em dois anos e já tem lugar garantido no cenário cultural da cidade. A organizadora, Flávia Bomfim, sempre convida artistas gráficos que além de mostrarem seus trabalhos mais recentes, também apresentam propostas inovadoras para a produção literária. Um dos temas que mais me agrada é o que diz respeito ao universo das ilustrações.

Entre os convidados deste ano estava o premiado ilustrador português André Letria, que em parceria com o pai, o escritor José Jorge Letria, publicou um livro, “Se eu fosse um livro”, pelo qual me apaixonei imediatamente assim que o folheei.

Precisei segurar o desapontamento quando André confirmou que ele não estava à venda, pois fazia parte do mostruário de sua editora independente, a Pato Lógico.

Por sorte, eu tinha me inscrito numa oficina ministrada por ele, na qual os participantes trabalhariam tendo esse livro como tema.

Depois de todos conhecerem a proposta do livro, André Letria ofereceu duas pilhas de cartões arrumadas como cartas de baralho, para que escolhêssemos aleatoriamente uma imagem e uma palavra representando uma ação. O desafio proposto foi criar uma frase que obrigatoriamente começasse com: “Se eu fosse um livro…”. Isto feito, era a vez de desenhar uma imagem que representasse a frase. Nada de muito elaborado, afinal nem todos os participantes eram ilustradores.  Coube a mim a imagem de uma cadeira e a palavra analisar.

Depois de muitas frases escritas e descartadas finalmente cheguei à definitiva: “Se eu fosse um livro, distrairia quem espera sentado numa cadeira para ser analisado” Ufa, que doideira!…

Agora vinha a parte mais difícil. Como colocar isso em imagens?

Rabisquei um sujeito sentado numa cadeira lendo um livro, uma porta fechada e um relógio de parede. Queria passar a ideia de alguém que aguardava numa ante-sala para ser analisado (tanto poderia ser a de um consultório médico quanto a de um gerente de RH) mas que, de tão entretido, não percebia o tempo passar.

Satisfeita com o resultado e seguindo as instruções de André, procurei reduzir a ilustração ao essencial. De novo, desenhei a cadeira, o livro, a porta e o relógio, mas no lugar do homem coloquei um ponto de interrogação. Era o máximo que conseguia limpar da imagem.

André gostou da ideia geral e sugeriu algumas pequeninas alterações: “O que achas se diminuíssemos bem a porta e o relógio? E se transformássemos a cadeira em um livro-montanha, para ser escalado?” E assim, com essa simplicidade, tanto a expectativa da análise quanto a cadeira sumiram, e o leitor foi transportado para outro tempo e lugar.

As mudanças propostas foram tão radicais, que para reconhecer o meu trabalho, mantive a cadeirinha. Agora, ao rever o esboço feito por André reconheço o quanto ela é desnecessária.

Este post tem um final feliz. Lembrei a tempo que um amigo chegaria em breve de Portugal e, sem a menor cerimônia, pedi que trouxesse na mala o meu objeto de desejo. Agora, posso me deleitar quantas vezes quiser e dizer: Se eu fosse um livro, nunca havia de sentir pressa de ler a palavra “Fim” .

 

Soube que o livro já foi publicado no Brasil pela editora Globo Livros e custa R$ 46,00

Concurso Literário aqui vamos nós!

Mesa de trabalho da ilustradora Rebeca Silva

Mesa de trabalho da ilustradora Rebeca Silva

Os tempos sempre foram bicudos para os novos escritores e o autor precisa encontrar alternativas às editoras que educadamente se recusam a publicar ou simplesmente ignoram os textos recebidos. Uma opção para escapar a esse funil apertadíssimo são os concursos literários.

Em breve vou colocar no correio uma história infantil cujo título original era Os periquitos da Vovó. Entretanto, modifiquei-o porque fui alertada do duplo sentido do título, que ingenuamente não percebi.

A segunda alteração foi no final do texto, quando a mãe chega com muita pressa para pegar a filha na casa da avó. O motivo inicial de sua afobação era por ter deixado o carro mal estacionado. Receosa de que os jurados pudessem achar que estava incentivando uma prática nada recomendável, acabei trocando por uma banal ida à lavanderia para buscar uma roupa.

Também fui advertida que o tema poderia incomodar algumas pessoas mais sensíveis por falar da venda de animais e sua manutenção em cativeiro. Já não bastasse a luta interna que travo contra a insegurança, ainda preciso me preocupar com os censores externos. Mas quanto ao enredo da história bati pé firme e não cedi um milímetro, ou era do meu jeito ou nada feito!

A categoria do concurso na qual me inscrevi é livro infantil ilustrado. Como Flávia Bomfim, a ilustradora do meu primeiro livro, estava assoberbada de trabalho e viajando muito, indicou-me Rebeca Silva, uma jovem ilustradora baiana.

Sem nunca nos termos visto, marcamos o nosso primeiro encontro dentro de uma livraria. Ela confundiu os horários e chegou quase uma hora depois. Mesmo assim, me encantei com seu jeito suave e gentil.

Voltamos a nos ver mais uma vez. Ela me mostrou o esboço dos três personagens e fiquei tão satisfeita que não quis que me mostrasse mais nada. Minha confiança em seu trabalho é total e quero ser surpreendida quando me entregar as ilustrações que irão acompanhar o texto.

Se ganharmos o concurso dividiremos o prêmio meio a meio: quinhentos exemplares para cada uma. Se perdermos, já temos um livro muito lindo, prontinho para mostrar às editoras.

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