HEIMAT

Recentemente vi o filme Jojo Rabbit que, de maneira irreverente, retratou pelo olhar de um menino a ascensão do nazismo e os impactos dessa ideologia na vida de cidadãos comuns.

Apesar da abordagem caricatural, ele me fez refletir, pela milésima vez, como as pessoas se comportam em épocas de crise.

Recordei a minha infância e a lavagem cerebral que recebi durante o governo salazarista. Do alto dos meus onze anos, de tanto ouvir falar na grandeza da nação costumava dizer que preferia morrer a perder as colônias portuguesas. Por esse motivo não estranhei que um garoto se deixasse contaminar, e tivesse como amigo imaginário o próprio Hitler.

Entretanto não consegui apreciar a minissérie Hunters, onde, mais uma vez, os nazistas e suas ideias abomináveis entram em cena. Admito que me distraí em alguns momentos e até mesmo gostei do desfecho surpreendente. Mas incomodou-me a utilização leviana de relatos verídicos, sobre o grande sofrimento infligido aos judeus, para contar uma história caricata entre mocinhos e bandidos. Quando terminou fiquei com a impressão de ter assistido a mais uma desnecessária teoria de conspiração.

Por coincidência, na mesma época em que vi o filme e a minissérie, estava lendo um romance gráfico que me agradou bastante. Trata-se de Heimat – ponderações de uma alemã sobre sua terra e história. Nele, a escritora Nora Krug recuperou as lembranças dos familiares que viveram durante a Segunda Guerra Mundial. O livro é composto de recortes, documentos oficiais, fotos, cartas e colagens e revela como foi a vida durante esse período sombrio da história da Alemanha. Estão lá os medos, dores, inseguranças, omissões e pouquíssimas esperanças. Um passado vivido por toda uma nação do qual as novas gerações procuram se distanciar.

Os alemães têm palavras bem compridas para designar com precisão uma sensação ou um sentimento. É o caso da palavra que dá nome ao título do livro: Heimat.

Heimat é um lugar especial onde você se sente acolhido e seguro. É mais do que um lar, ele pode ser real ou imaginário, mas você o associa a uma sensação de pertencimento onde suas crenças e valores o deixam confortável e não é necessário explicar quem se é. Mas qual seria esse lugar para a autora quando não se conhecem as fundações que o apoiam?

O livro não procura fazer um acerto de contas. Apenas reconhece que se grandes erros foram cometidos também houve tímidos e vitais gestos de solidariedade.

Ao tirar do limbo a história da família e se reconciliar com ela, Nora Krug abraça o presente sem guardar esqueletos escondidos no armário.

Heimat é uma biografia nada convencional que merece ser desfrutada.

O árabe do futuro

 

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É brincando que se dizem as verdades e é brincando que se aprende muito.

Pois é assim de forma divertida e politicamente incorreta que o escritor e cineasta francês Riad Sattouf narra a sua infância no livro O Árabe do Futuro – uma juventude no Oriente Médio (1978-1984).

A história contada em quadrinhos começa antes de ele nascer, quando os pais se conhecem na Sorbonne. A mãe é uma autêntica francesa, criada sob os princípios de um estado laico e democrático. Por sua vez, o pai é um estudante sírio sunita, agraciado com uma bolsa de estudos. Fascinado pela França, o tema de sua tese de doutorado é esdrúxulo: “A opinião pública francesa em relação à Inglaterra, de 1912 a 1914”.

Como a maioria dos jovens, o futuro pai de Riad é um jovem cheio de sonhos. Um deles é mudar a mentalidade do mundo árabe: “Eu obrigaria todo o mundo a largar o fanatismo, a estudar e a entrar no mundo moderno”.

Outro sonho é ser professor em uma universidade europeia de renome. Decepcionado por não ser aprovado em nenhuma, considera isso como posições racistas e preconceituosas dos contratantes. Esperançoso, volta sua atenção para os países árabes, de onde só escuta notícias animadoras e ufanistas.

Grandes reformas socialistas e bons salários para os professores universitários o convencem a embarcar com a mulher e o filho para a Líbia. Na época o país era governado pelo todo poderoso Muamar Kadafi, responsável pelo surgimento de um estado socialista justo e igualitário.

E é a partir daí que a história começa pra valer. Com muito humor, o autor mostra as contradições entre a propaganda governamental e a realidade.

Vivendo numa sociedade patriarcal e machista, a figura da mãe quase não se percebe. O pai é o grande herói do filho, apesar de só desenhar carros Mercedes com rodas quadradas.

As “reformas” feitas pelo Guia Supremo continuam céleres, mas quando a lei de trocar obrigatoriamente de profissões é decretada, quem é professor deve trabalhar como camponês e o camponês deve ser professor, é hora de retornar para a França.

Uma nova proposta de trabalho é oferecida ao pai de Riad, e mais uma vez toda a família se muda para um país árabe, a Síria. Nele mora toda a família do pai do autor, que é governado com mão de ferro por Hafez al Assad, “O Leão”.

Sem dó nem piedade, e de quadrinho em quadrinho, os bastidores do regime ditatorial e da sociedade muçulmana são revelados.

Os valores culturais são tão arraigados e sedutores que paulatinamente voltam a ser admissíveis pelo pai de Riad, apesar de terem sido veementemente criticados por ele no tempo em que estudou na França.

O Árabe do Futuro é uma fascinante aula de Ciências Sociais. Infelizmente, ao terminar sua leitura, compreendi porque ocorrem tantos choques ideológicos nos países europeus para os quais árabes e muçulmanos imigraram.

Resta sempre a esperança de que, em curto prazo, os políticos aprendam a contornar as diferenças e procurem soluções de convivência, assim como fizeram os pais de Riad, pelo menos neste 1º volume. Outros dois mais virão para dar continuidade à história.

 

  • O Árabe do Futuro

Riad Sattouf

Editora Intrínseca

R$ 39,90

E-Book R$ 24,90

Segredo de Família

segredo-de-família-eric-heuvelFoi o alerta dado pela Casa Anne Frank que fez Eric Hauvel decidir-se a escrever Segredo de Família.

Simplesmente a nova geração de jovens parecia desconhecer os acontecimentos vividos nos idos de 40 pelos senhores e senhoras que, atualmente, tinham idade suficiente para serem seus avós.

Considerado um dos maiores cartunistas holandeses da atualidade, os desenhos de Eric Heuvel lembram muito os de Hergé, criador do personagem Tintim. Trata-se de um fato curioso porque, além dos cartunistas serem de gerações distintas, enquanto que o primeiro denuncia as atrocidades do nazismo, o segundo foi defensor dessa mesma ideologia.

Mas quando, finalmente, os alemães foram derrotados em 1945, a maioria do povo holandês procurou esquecer os cinco longos anos de ocupação e sofrimento.

Muitas atitudes reprováveis foram, com o tempo, deliberadamente “varridas” para debaixo do tapete, assim como muitas outras dignas de serem lembradas seguiram o mesmo caminho, por recordarem momentos dolorosos e perdas prematuras de pessoas queridas.

Segredo de Família é uma história ficcional, que reúne na família de Helena Van Dort as dificuldades vividas por diversas famílias holandesas, durante a Segunda Guerra Mundial.

A narrativa começa muitos anos depois, quando ao remexer no sótão da casa da avó, o neto de Helena encontra recortes de jornais, fotografias antigas, um punhal exótico, um pano amarelo recortado em forma de estrela e um uniforme de policia.

Curioso, pergunta a quem pertenceu tudo aquilo. Confrontada com o passado, ela relembra como os familiares tiveram comportamentos antagônicos durante a ocupação alemã e a perda da melhor amiga que desapareceu ao ser levada pelos nazistas.

Ao terminar a conversa longa e penosa, Helena não imaginava que, graças a ela, o neto iria fazer uma descoberta maravilhosa que a levaria finalmente a se reconciliar com o próprio passado.

Recomendo Segredo de Família não só para os adolescentes, mas também para os adultos que  poderão aproveitar a leitura desta história envolvente. Por ser um relato fiel dos acontecimentos históricos, muito é recordado e outro tanto é aprendido.

Para quem tiver interesse em se aprofundar no tema, A Busca desenhado pelo mesmo cartunista, irá contar a história de uma adolescente de 16 anos que procurou refugio numa fazenda na Holanda e assim escapar do Holocausto.

(recomendo para maiores de 11 anos)

Segredo de família

Eric Heuvel

Quadrinhos na Cia.

R$ 34,50

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