Nem mesmo todo o oceano

Morreu Alcione Araujo, dramaturgo, roteirista e escritor mineiro, autor de Nem mesmo todo o oceano, livro que li há mais de dez anos e que muito me marcou na época.

Trata-se de um Senhor romance. Grande no tamanho e com uma trama envolvente.

Em mais de 700 páginas somos apresentados aos fatos históricos e costumes que marcaram o Brasil nas décadas de 50 a 70, pano de fundo para ascensão e a derrocada de um rapaz ambicioso, de origem humilde, nascido no interior de Minas Gerais, e que se torna médico no Rio de Janeiro.

Preocupado apenas em alcançar o sucesso profissional e ascender socialmente, sem se identificar com qualquer partido ou ideologia política, o personagem termina participando ativamente no submundo repressivo da época.

Ao escrever Nem mesmo todo o oceano Alcione Araujo pensava menos nas razões políticas e ideológicas da nação, e mais nas motivações éticas das atitudes humanas. Para tal, construiu um personagem cativante, sedutor e exemplo de obstinação profissional, mas que, ao longo de sua trajetória, derrapa moralmente na própria ambição e se revela um autentico anti-herói. Um comportamento que suscita discussão sobre a personalidade perversa adormecida nos seres humanos, os meios de alcançar o sucesso e a responsabilidade moral sobre nossas escolhas.

Empolgante, instrutivo, perturbador e com um final surpreendente, Nem mesmo todo o oceano, nos convida a refletir um pouco mais nas escolhas que fazemos levianamente. As consequências podem se transformar num tsunami não só em nossas vidas, mas também naquelas de quem mais amamos.

Nem mesmo todo o oceano

Alcione Araujo

Editora Record

R$ 57,90

Um defeito de cor

“A palavra do candidato sobre sua cor será o único critério das universidades federais para definir os alunos que serão beneficiados por cotas. O MEC não quer criar comissões para confirmar a informação, como já é feito na UnB” – Folha de S. Paulo 16/10/12

Quando atualmente um estudante utiliza a cor de sua pele, como diferenciador positivo, para ser admitido na Universidade, nem imagina que no final do século XIX e inicio do século XX, se desejasse exercer um cargo público ou até mesmo tornar-se um eclesiástico, precisaria fazer exatamente o oposto e assinar um documento renunciando à sua etnia.

Naquela época as políticas governamentais procuravam embranquecer a população brasileira e esses cargos eram exclusivos dos que eram ou se consideravam brancos.

Tomei conhecimento dessa aberração quando li há seis anos “Um defeito de cor” de Ana Maria Gonçalves. O livro é uma grande aula sobre a escravidão no Brasil e nem as mais de novecentas páginas me assustaram.

Fazia pouco tempo que me mudara para Salvador e ficava encantada ao reconhecer os lugares que eram citados pela autora. Sempre que podia procurava compartilhar a leitura com amigos e conhecidos, afinal a maior parte da história se passava nessa cidade e no Recôncavo Baiano.

Recentemente conheci as cidades históricas de Minas Gerais e lembrei-me de “Um defeito de cor”. As igrejas visitadas, os altares revestidos com o ouro extraído das minas da região, as esculturas feitas por Aleijadinho, os canais construídos nas serras para levar água até aos povoados, tudo bradava o trabalho realizado com o sangue e o sofrimento dos negros escravizados.

Ana Maria Gonçalves fez uma minuciosa pesquisa e escreveu um belíssimo romance histórico. Para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler, recomendo. Trata-se de uma leitura imperdível.

Um defeito de cor

Ana Maria Gonçalves

Editora Record

R$ 82,90

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