Cada botão pregado era um beijo

Cada botão pregado

A casa era pequenina e simples, mas muito bem cuidada. Ali vivia a jovem viúva do Comendador, que, depois de sofrer uma rápida e fatal moléstia, deixou-a sozinha no mundo, apenas com uma filhinha que recentemente começara a dizer as primeiras palavras. Felizmente não precisariam se preocupar com picuinhas financeiras, pois ele deixara todos os negócios muito bem encaminhados, de modo que nada faltasse à família.

O velho e solteirão Comendador apaixonara-se perdidamente por aquela que viria a ser a sua futura mulher e, para convencê-la a morar naquele fim de mundo, cercava-a de todos os agrados. A moça estudara em colégio de freiras, de onde saiu eximia costureira, daquelas a quem se podia confiar de olhos fechados a confecção de qualquer vestido. Inclusive o mais precioso de todos: o de noiva.

Durante as primeiras semanas de luto, mãe e filha se trancaram em casa, não saíram para nada. Qualquer compra ou pagamento necessário era efetuado pela empregada. Nem à missa dominical – evento que sempre havia respeitado – a viúva comparecia. Antigamente essas aparições semanais eram aguardadas com expectativa pelos moradores da pequena cidade do interior. Era bonito ver o Comendador entrando na igreja, orgulhoso, ostentando um leve sorriso, de braço com a jovem mulher – sempre muito chique –, que desfilava com vestidos certamente mais apropriados à capital.

Mas, num certo domingo, sem qualquer razão aparente, a viúva voltou a frequentar a missa, desta vez acompanhada pela filha pequenina. A primeira aparição das duas, vestidas de luto idêntico, seria comentada, durante anos a fio.

Um ano se passou, e aos poucos as cores sombrias foram deixadas de lado. Ela voltou a encomendar tecidos alegres e coloridos e com eles confeccionava vestidos iguais para si e para a menina. Cada um era uma verdadeira obra-prima, pode-se dizer. Porém, enquanto na mãe o caimento era elegante e natural, na filha parecia imperfeito e desconfortável. Por mais que a mãe tentasse ajeitar a gola revirada ou alisar a saia amassada, a menina não parava de se contorcer e parecer desmazelada.

Vários pretendentes tentaram em vão se aproximar da viúva, que, sem exceção, os dispensou educadamente. Toda a sua dedicação derramava-se na única filha, que não correspondia a esse amor, expresso em vestimentas pacientemente elaboradas e de fino acabamento.

A menina cresceu e um dia partiu para a cidade grande levando apenas uma mala. O coração da mãe estremeceu. Como poderia ela arrumar um bom emprego ou até mesmo um marido sem um mínimo de enfeite e encanto?

A filha mandava notícias espaçadas. Encontrara e dividia um apartamento com uma amiga. Trabalhava durante o dia e estudava de noite, a vida estava muito corrida e não, infelizmente não tinha tempo para visitar a mãe. Nos finais de semana precisava arrumar o apartamento e saía com os amigos. Afinal, tinha o direito de se distrair.

Quinzenalmente a mãe colocava no correio uma caixa grande, endereçada à filha. Dentro, ia acondicionado carinhosamente um belo vestido, novinho. Cada botão pregado era um beijo, cada bainha costurada correspondia a um afago que fazia na sua menina.

Um dia a saudade bateu mais forte e, sem avisar, a mãe pegou o ônibus e foi visitá-la. Quem abriu a porta foi a amiga, que, apesar do adiantado da hora, parecia ter acabado de acordar. Enquanto a moça se arrumava no banheiro, a mãe sentou-se no sofá puído e olhou em redor. Que arrumações eram essas das quais a filha tanto falava, se a sala era um desalinho só? Curiosa, empurrou a porta que levava ao quarto. O mesmo descuido visto anteriormente – camas desfeitas e a toalha molhada, jogada em cima de uma delas. O armário de roupas estava entreaberto, e seus olhos caíram num borrão luminoso, que rapidamente reconheceu.

Era o ultimo vestido que enviara à filha, amarelo, bordado com flores brancas miudinhas e folhas verdes delicadas. Puxou-o com suavidade, e ele lhe veio ainda envolto no papel de seda. Com o movimento, a porta do armário se abriu, e outros vestidos embolados tombaram a seus pés. Jamais tinham sido retirados das embalagens, jamais colocados em cabides, tampouco tinham sido usados.

Ainda escutava a água do chuveiro a correr. Silenciosamente estendeu os vestidos, um por um, no sofá e, antes que a torneira se fechasse, pegou a bolsa e saiu sem se despedir. Nunca mais olhou para trás. Algo, dentro dela, havia se quebrado.

A filha bem que a procurou, tentou se explicar, conversar com ela, mas já era tarde. Não tinham nada a dizer uma à outra, nunca tiveram. Pela segunda vez na vida a viúva voltou a se vestir de luto. Agora frequentava as missas de domingo sozinha. Ninguém mais reparava nela e nem perceberam quando o deixou de fazer.

Meses se passaram e uma carta chegou à cidade informando que a mãe fora encontrada morta rodeada por centenas de vestidos. Aparentava serenidade. Perguntavam que destino dar a todas aquelas roupas.

 

Organização: Flávia Iriarte

Editora Oito e Meio

R$ 38,00

Uma noite de lavar a alma!

Escritor ProfissionalMeu primeiro conto acaba de ser publicado pela editora Oito e Meio. Ele faz parte de uma coletânea onde foram reunidas 58 histórias escritas pelos participantes do 1º Curso Carreira Literária, promovido pela editora.

Flávia Iriarte, seu irmão Rodolfo e Tatiana Kely, os editores, criaram o curso na internet com o intuito de auxiliar os escritores de primeira viagem a divulgar seus textos literários e apresentá-los às editoras.

O trabalho deles não parou por aí e na última sexta-feira uma galera animada se reuniu para o lançamento do livro. Apesar de não ter sido possível juntar todo mundo, o encontro foi como bem resumiu Flávia “Uma noite de lavar a alma! Só gente boa, muito carinho e papo bom”.

A noite de autógrafos foi incomum. Afinal, era impossível encontrar uma mesa comprida o suficiente para acomodar tantos autores. Entre abraços, risos e muitos empréstimos de canetas, cada um autografou o próprio conto nos exemplares dos outros colegas. Para auxiliar a busca, eu me apresentava como Paula, a autora da página 148.

Troquei o título do conto três vezes. O primeiro foi “A costureira” que depois virou “A herança”. Ambos tão sem graça… Até que o mostrei a Mayrant Gallo, escritor baiano e contista de primeira grandeza. Ele fez algumas sugestões, como eliminar repetições e adjetivos em excesso, trocar alguns lusitanismos – incrível como ainda os mantenho, apesar de viver no Brasil há mais de trinta anos! – e por ultimo mudar o título para algo mais poético. A frase que ele sugeria estava lá desde o início, eu mesma tinha escrito. Como era possível que não a identificara como o título perfeito?

Obrigada Mayrant pelo toque de mestre; obrigada Flávia, Rodolfo e Tatiana por produzirem um livro tão bonito, do qual sinto o maior orgulho de fazer parte.

Para quem ficou curioso em saber o que escrevi na página 148 – assim como o que escreveram os meus novos amigos – convido todos a visitar o site da editora.

Boa leitura!

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