Mais leituras na quarentena

O livro ficou guardado na estante por mais de dois anos. Ganhei-o de presente, e apesar de ter me interessado pela história que ali era contada, a leitura das primeiras páginas não me seduziu.

No entanto, como este ano o escritor norte-americano Colson Whitehead ganhou pela segunda vez o prêmio Pulitzer na categoria ficção, e estimulada pelo movimento “vidas negras importam”, decidi dar uma segunda chance a The Underground Railroad – os caminhos para a liberdade”.

Desta vez, a história fluiu. Logo estava torcendo por Cora, uma jovem escrava que, auxiliada por um amigo, usou uma rota de fuga conhecida como Ferrovia Subterrânea para escapar aos horrores sofridos em uma plantação de algodão no sul dos Estados Unidos.

Apesar de ter esse nome, esse sistema de fuga, que surgiu no final do século XVIII e teve o seu apogeu no início e meados do séc. XIX, não era totalmente subterrâneo e muito menos ferroviário. Com efeito, o primeiro e verdadeiro transporte subterrâneo de passageiros só foi inaugurado em janeiro de 1863 e, bem longe dali, em Londres.

O esquema de fuga consistia em pular de um esconderijo para outro, quer ele fosse um celeiro, igreja, porão ou gruta, sempre contando com o auxílio de abolicionistas, negros nascidos livres e ex-escravos. O destino final eram os estados livros do norte, o Canadá e também o México. Uma estimativa indica que até 1850, cem mil escravos alcançaram a liberdade graças a esse sistema.

Entusiasmada com a leitura de “The Underground Railroad”, emendei com O olho mais azul” * da escritora, também norte-americana, Toni Morrison. Se o primeiro já tinha sido uma paulada, este foi uma surra completa.

A história de Pecola, uma menina negra de onze anos, se passa nos anos 1940 num bairro pobre dos EUA, e é contada por aqueles que acompanharam com indiferença ou impotência o seu desmoronar: colegas de escola, vizinhos, parentes, e um falso pastor.

Nascida num lar pobre e disfuncional, ela queria saber: Como é que se faz isso? Quero dizer, como é que a gente faz alguém amar a gente?

A menina acreditava que o problema estava no tom de sua pele, e todas as noites rezava para que a cor de seus olhos mudasse para azul.

Pecola baseou a sua ideia de beleza no que ela podia ver – os livros disponíveis na escola apresentavam crianças brancas, as bonecas eram bonecas brancas, as casas limpas e cuidadas eram a dos brancos. O seu mundo era feio e sujo e os pais a rejeitavam.

Já se passaram quase oitenta anos desde que O olho mais azul foi escrito e infelizmente a sua história permanece atual. Ainda não podemos balançar a cabeça com indignação – como fazemos em relação à escravidão – para as condições de vida da maioria dos negros, tanto nos EUA quanto no Brasil.

Achamos natural que morem em favelas ou bairros sem saneamento básico, que as escolas tenham um ensino de qualidade inferior, que sofram nos corredores dos hospitais, que não tenham acesso aos infinitos recursos da justiça, que só frequentem os restaurantes como empregados e que tenham medo de serem parados pela polícia, pois sabem que receberão um tratamento bem diferente daquele dado a um branco.

Enquanto não for possível responder com um “Claro, qual é o problema?” à pergunta: “Você gostaria de ser negro no Brasil?”, estaremos muito longe de ser uma sociedade justa e igualitária.

* O exemplar que eu li é do clube de leitura TAG. No momento, a editora Companhia das Letras só disponibiliza o formato E-book.

Arrancar as raízes

Li os três livros em sequência: primeiro Kindred, depois Minha História e por último Cadernos de memórias coloniais. Só bem no final é que me dei conta do vinculo que os unia. De estilos e abordagens bem diferentes, todos foram escritos por mulheres, e se não discorrem abertamente sobre os horrores e as consequências da escravidão tocam no tema, quer ela tenha ocorrido em tempos passados ou mais recentes.

Kindred – Laços de sangue foi escrito por Octavia E. Butler, considerada uma das grandes damas da ficção científica norte-americana. Sua literatura apresenta personagens femininos fortes, como a protagonista principal de Kindred. O livro conta a história de Dana – esse é seu nome – que ao mudar-se para um novo apartamento com o marido, inexplicavelmente é transportada de 1976 para o século XIX.  A viagem no tempo a coloca numa situação muito perigosa porque ela é negra e vai parar numa fazenda sulista americana onde se torna escrava.

A minha impressão é de que Kindred – laços de sangue foi escrito para um público jovem. A narrativa mostra que o racismo se aprende pelo exemplo, e que se não for combatido passará de uma geração para outra como um comportamento natural e justificável.

A segunda leitura foi Minha História de Michelle Obama. Preciso admitir que logo no início – ainda no prefácio – fiquei encantada com a franqueza e a escrita desenvolta da autora. Apesar dos avanços, duramente conquistados pelos afro-americanos, os estereótipos entranhados por uma sociedade escravocrata persistem.

“Era impossível ser uma estudante negra de uma faculdade de maioria branca e não sentir a sombra da ação afirmativa. Eu quase conseguia ver o escrutínio no olhar de certos estudante e até de certos professores como se quisessem dizer: Eu sei por que você está aqui.”

Ou quando durante a campanha do marido, Michelle se questionou se o país estaria preparado para eleger um presidente negro. Durante os oito anos em que morou na Casa Branca ela sabia que era julgada com mais rigor do que as predecessoras. Como se esperassem que, a qualquer momento, ela fizesse uma besteira para legitimar o preconceito.

O último livro, Cadernos de memórias coloniais de Isabela Figueiredo, tocou-me fundo. Apesar de não ser uma retornada, sou da mesma geração que a escritora. Se não nasci numa província ultramarina (nome dado às colônias), cresci ouvindo comentários degradantes sobre a população nativa.

A autora recorda o passado idílico vivido pelos colonos portugueses às custas de um povo que só conceitualmente não podia ser descrito como escravizado. Pela pouca idade que tinha na época, essa conta não lhe pode ser cobrada.

Os adultos com o passar do tempo procuram justificativas para as próprias atitudes, as crianças não. O entendimento do que é certo ou errado ainda não se esmaeceu com subterfúgios atenuantes. É sofrido acompanhar a divisão interna sentida pela autora, em relação ao próprio pai. Se por um lado não compactuava com o pensamento dele, por outro amava-o profundamente.

O livro é brutal e verdadeiro. Muitos leitores se queixaram que Isabel exagerou nas tintas. Não é essa a minha opinião. Mesmo sem ter estado lá, reconheço que essa ideologia respingou em mim e desde sempre esforço-me para que ela não contamine as minhas atitudes ou pensamentos.

Kindred, Minha História e Cadernos de memórias coloniais espoem as diversas faces do racismo, e reforçam a necessidade de continuar arrancando as  raízes desse mal  profundamente entranhado na nossa sociedade.

 

Um defeito de cor

“A palavra do candidato sobre sua cor será o único critério das universidades federais para definir os alunos que serão beneficiados por cotas. O MEC não quer criar comissões para confirmar a informação, como já é feito na UnB” – Folha de S. Paulo 16/10/12

Quando atualmente um estudante utiliza a cor de sua pele, como diferenciador positivo, para ser admitido na Universidade, nem imagina que no final do século XIX e inicio do século XX, se desejasse exercer um cargo público ou até mesmo tornar-se um eclesiástico, precisaria fazer exatamente o oposto e assinar um documento renunciando à sua etnia.

Naquela época as políticas governamentais procuravam embranquecer a população brasileira e esses cargos eram exclusivos dos que eram ou se consideravam brancos.

Tomei conhecimento dessa aberração quando li há seis anos “Um defeito de cor” de Ana Maria Gonçalves. O livro é uma grande aula sobre a escravidão no Brasil e nem as mais de novecentas páginas me assustaram.

Fazia pouco tempo que me mudara para Salvador e ficava encantada ao reconhecer os lugares que eram citados pela autora. Sempre que podia procurava compartilhar a leitura com amigos e conhecidos, afinal a maior parte da história se passava nessa cidade e no Recôncavo Baiano.

Recentemente conheci as cidades históricas de Minas Gerais e lembrei-me de “Um defeito de cor”. As igrejas visitadas, os altares revestidos com o ouro extraído das minas da região, as esculturas feitas por Aleijadinho, os canais construídos nas serras para levar água até aos povoados, tudo bradava o trabalho realizado com o sangue e o sofrimento dos negros escravizados.

Ana Maria Gonçalves fez uma minuciosa pesquisa e escreveu um belíssimo romance histórico. Para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler, recomendo. Trata-se de uma leitura imperdível.

Um defeito de cor

Ana Maria Gonçalves

Editora Record

R$ 82,90

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