Velhos são os outros!

O título do mais recente livro de Andréa Pachá, Velhos são os outros, remeteu-me ao de um outro livro: Precisamos falar sobre Kevin. Eles não têm absolutamente nada em comum. Nada, nadinha mesmo. Mas o “precisamos falar sobre…” ficou zunindo na minha cabeça. Precisamos falar sobre a velhice, e com urgência!

O assunto costuma ser jogado para debaixo do tapete, como se o silêncio nos mantivesse jovens para sempre. Verdade seja dita, que graças aos avanços da medicina, morre-se cada vez mais tarde. Até recentemente era raro ter na família um parente com mais de oitenta anos, quanto mais dois ou três! Antes a velhice se escondia, hoje está aí, digna e visível para quem quiser ver.

Lembro de ficar surpresa quando, há uns trinta anos, presenciei uma senhora estrangeira fazer turismo numa cadeira de rodas. Ela entrava e saía da van, ajudada pelo marido, com a maior naturalidade. Para mim esse comportamento era uma novidade. Estava habituada com idosos trancados em casa,  envergonhados de expor publicamente as suas limitações locomotoras. Felizmente isso mudou. Recentemente, vi uma velhinha conduzindo lépida e fagueira a sua cadeira de rodas motorizada, numa calçada movimentada de Ipanema.

Mas divago. Apesar de ser desse jeito desembaraçado que pretendo encarar no futuro a minha velhice, infelizmente, isso nem sempre acontece, de acordo com a juíza Andréa Pachá. O título do livro foi pinçado de uma conversa que teve com a mãe, quando lhe perguntou quando ela se havia percebido velha. Do alto dos seus longevos 77 anos a mãe respondeu: Velha, eu? Velhos são os outros!

A escritora é juíza há 24 anos e, inicialmente, trabalhou numa Vara de Família. Os embates que presenciou e julgou viraram as emocionantes histórias reunidas no livro A vida não é justa.

Atualmente, Andréa está lotada numa Vara de Sucessões. Graças ao seu olhar compassivo, consegue enxergar por trás dos processos de linguajar frio e empolado, os conflitos que eles escondem.  Ao recontar essas histórias, ela dá voz aos idosos para expressarem livremente seus desejos e necessidades.

Mas o livro também faz um alerta: Não adianta querer esconder o sol com a peneira, e fingir que a velhice só chega para os outros. É preciso aceitar com serenidade a natural ação do tempo, deixando tudo bem explicado e resolvido, para que as últimas vontades sejam respeitadas e não haja brigas  entre parentes quando não se estiver mais por aqui.

Mortais

MortaisGostei muito de Mortais – Nós, a medicina e o que realmente importa no final, escrito pelo médico norte-americano Atul Gawande. Quando terminei de ler queria conversar sobre ele e indicá-lo a todo o mundo. Reconheço, no entanto, que para muitas pessoas o tema pode ser difícil de encarar.

É fato incontestável que nossos pais estão vivendo mais que nossos avós – não porque receberam uma boa herança genética, mas por causa dos fantásticos avanços da medicina. E se a minha geração não fizer muita besteira, com certeza, viverá por um periodo de tempo bem maior que a deles.

E é sobre esse longo envelhecer que precisamos refletir: Como fazer que a vida continue valendo a pena mesmo quando estamos fragilizados, debilitados, e não podemos mais nos virar sozinhos?

Nas faculdades os médicos aprenderam a salvar vidas, a consertar um orgão que começa a falhar, priorizando sempre a segurança e a sobrevivência do paciente.

Não que isso seja errado, mas é preciso ter em mente que uma vida só tem sentido quando ainda lhe é permitido realizar as próprias vontades, por mais singelas que sejam.

Vale a pena viver em um lugar cercado de cuidados e regras, que retiram do idoso os pequenos prazeres da vida, fazendo com que ele se sinta como se vivesse numa prisão?

Vale a pena sofrer uma e mais outra intervenção cirúrgica, quando se sabe que elas não irão curar nem devolver ao paciente a qualidade de vida que ele tinha anteriormente?

O que torna a leitura de Mortais tão interessante é que coloca o idoso ou o paciente no papel de protagonista ao perguntar: “Ei! Você pode estar fragilizado e precisando de ajuda, mas estamos falando de sua vida, da sua história. Por favor, diga-nos como gostaria que ela fosse conduzida.”

Verdade que nunca foi fácil falar sobre a morte, mas se se tivermos a coragem de dizer como gostaríamos de morrer estaremos falando como pretendemos viver até o dia  em que Ela nos encontrar.

 

  • Mortais – Nós, a medicina e o que realmente importa no final

Atul Gawande

Editora Objetiva

R$ 29,90

E-Book R$ 19,90

a máquina de fazer espanhóis

a maquina de fazer espanhois

Foi com algum receio que comecei a ler a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe. Aqueles capítulos não muito longos, com pouquíssimos parágrafos, e sem letras maiúsculas para sinalizar o inicio das frases e os nomes próprios, me assustaram.

Feita esta consideração, quero dizer que após uma pequena dificuldade inicial, apreciei a narrativa segura do autor, e me emocionei com os personagens retratados no romance.

Com a morte da mulher, António Jorge da Silva, aos 84 anos, é colocado pela filha em um asilo. Revoltado por perder sua companheira de mais de cinco décadas, e ser obrigado a viver onde nunca imaginou, ele custa a se adaptar ao novo lar.

Mas, como diz a sabedoria popular “o que tem que ser tem muita força”. Aos poucos, a tristeza vai diminuindo, graças à solidariedade que recebe dos hóspedes mais antigos, e dos cuidados de profissionais atenciosos.

O Lar da Feliz Idade é um lugar de espera. Ali há poucos sonhos, muitos pesadelos e algumas alucinações. Os ecos de um passado subserviente e a constatação de antigas crenças equivocadas, rondam as lembranças do Sr. Silva, e também de seus novos amigos.

Uma leitura apressada poderá afastar o leitor, desconfortável com um tema tão duro e potencialmente angustiante.  Espero que isso não aconteça, porque, além de iluminar e dar voz de forma digna a uma parcela da população cada vez mais numerosa, o grande mérito do livro está em confirmar o que por vezes é esquecido. O que dá sentido à Vida – quer ela esteja no seu apogeu, ou prestes a se extinguir -, o que nos faz querer viver um pouco mais, o que nos resgatará do esquecimento, é o Outro.

precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade,nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingencia da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro, eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria.

Quem não cultiva afetos, ou não se preocupa em preservá-los, já morreu e não foi avisado.

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