Emília, a mãe que lê

Gosto de lembrar como conheci a escritora Emília Nuñez. Estava eu, na livraria Boto Cor de Rosa, colocando a conversa em dia com Flávia Bomfim, quando o telefone do estabelecimento tocou. Era Emília querendo saber se estavam vendendo A Pergunta mais Importante.

Ela ganhara o livro de presente da mãe, que sabia do seu interesse por histórias com bicicletas. Além da pertinência do tema, Emília ficou encantada quando viu que as ilustrações de A Pergunta mais Importante eram da Flávia, com quem tinha acabado de fazer uma oficina sobre ilustrações de livros infantis. Na ocasião, Flávia não mostrou nenhum trabalho próprio.

Sarah, dona da livraria, disse que não só tinha o livro como, por coincidência, tanto a autora quanto a ilustradora estavam ali, naquele momento, papeando e tomando um cafezinho. Sarah perguntou se ela gostaria de falar comigo, mas pega de surpresa Emilia desligou. Claro, que ligou logo em seguida. Trocamos algumas amenidades e marcamos um encontro.

Olhando para trás parece que faz muito tempo, mas na verdade só se passaram três anos. Na época, Emília acabara de criar o blog “Mãe que lê” (que acabou virando só Instagram), onde estimulava os pais a lerem para o filhos e indicava livros para crianças. Se não me falha a memória, havia publicado o seu primeiro livro, A menina da cabeça quadrada, que estava começando a fazer o maior sucesso.

Conversamos sobre nossos projetos pessoais e  ela me mostrou a “boneca” do seu próximo livro: Felicidade bicicleta. Na hora entendi por que sua mãe a presenteara com o meu.  Ambas as histórias falavam de filhos que aprendiam a andar de bicicleta com os pais.

Desde então tenho acompanhado com admiração a trajetória profissional da Emília, que atualmente considero como amiga. Juntamente com o irmão, ela montou uma editora. Desse projeto, além dos dois primeiros livros, nasceram duas coleções: a turma da Jaquinha  e a Meninocas. A primeira é para crianças pequeninas  e aborda temas como o que fazer quando se morde o amiguinho ou não se quer largar as fraldas. A outra coleção é dirigida a um público mais “velho”, especialmente meninas na faixa entre 6 e 10 anos.

Mas o meu livro favorito é um pequenino, ilustrado pela mineira Anna Cunha: Brincar de Livro. A ideia surgiu depois que Emília leu a dissertação de mestrado de Maria Beatriz Serra, falando sobre livros de literatura para bebês e crianças pequenas.

O livro não tem texto escrito, mas a narrativa que Emilia quis contar está toda lá, só que em ilustrações. E quem conhece o trabalho da Anna Cunha sabe exatamente o impacto e beleza que elas provocam.

O livro é do tamanho certo para um bebê de seis meses segurar, mas nada impede que a mãe conte a história mesmo antes dele nascer.

Por experiência própria, posso dizer que escrever um livro não é um processo fácil. Risca-se muita coisa e as inseguranças são muitas. Por essa razão, fiquei sensibilizada por Emília ter me mostrado o projeto do livro quando ele ainda estava bem no início. Se Emília Nunez e Anna Cunha são as mães de Brincar de Livro, eu me considero um pouco madrinha.

Construído com tanto esmero, não me surpreendi quando foi escolhido para fazer parte do catálogo brasileiro apresentado na Feira de Bolonha* deste ano, e recebeu o selo de altamente recomendável pela FNLIJ**.

Ah! E como se tudo o que contei fosse pouca coisa, Emília Nuñez ignorou as notícias alarmistas do mercado editorial e livreiro, e acaba de abrir uma livraria em Salvador, a “Mãe que Lê” ***. A perseverança de Emília é inspiradora e merece uma salva de palmas!

 

Para conhecer melhor o trabalho de Emília Nuñez acesse:

Instagram: @maequele

Site: http://www.maequele.com.br

*Feira Internacional do Livro Infantil

**Fundação Nacional Livro Infanto Juvenil

***Shopping AlphaMall Alphaville 1 – Paralela – Salvador – BA

Protagonismo negro na literatura infantil

Desde que voltei a morar no Rio tenho participado de diversas oficinas sobre literatura infantil. A última aconteceu em Laranjeiras e foi organizada pela Bamboleio, um canal de comunicação virtual criado pela escritora Padmini e o sócio Victor Mello, com o objetivo de debater e divulgar literatura infantil de qualidade.

O tema do encontro era Protagonismo Negro. A mediadora foi Tatiane Oliveira. Tati, como gosta de ser chamada, é empreendedora literária e montou uma livraria itinerante. Ela visita feiras e escolas, levando livros previamente escolhidos que apresentam personagens negros inspiradores.

A conversa foi muito interessante. Tati começou mostrando o livro “Meu cabelo é de rainha”, da escritora americana bell hooks*, uma homenagem ao cabelo afro e um incentivo para que as crianças tenham orgulho de suas cabeleiras.

Mostrou também outros livros que, sem perceber, fazem um trabalho contrário. Para comprovar o que dizia leu uma história que começava desvalorizando uma característica física, para só no final a admirar. Uma outra narrativa tinha uma ilustração que colocava nas mãos de uma menina negra uma boneca branca como sendo essa a sua favorita. Na mais chocante de todas, um personagem adulto dizia para uma criança negra que anjinhos com o tom da sua pele não existiam. Duro, não? Afinal estamos falando de livros para crianças.

Para quem não vive essa realidade, pode parecer que são comentários bobos, insignificantes. Mas quando se escreve para um público infantil, não seria melhor abolir todas as observações negativas? Crianças estão em formação e precisam de exemplos que reforcem a auto-estima.

Durante o encontro, um participante comentou sobre o último projeto da escritora baiana, e minha amiga pessoal, Emilia Nuñez. Com naturalidade, ela e a ilustradora Anna Cunha escolheram personagens negros para contar a história de Brincar de Livro.  O livro não tem texto escrito. A história é contada através de ilustrações que transbordam afeto, e desenham as múltiplas aventuras que a leitura pode propiciar, mesmo antes de se aprender a ler.

Mais

Três escritores e uma bicicleta

Se há uma lembrança afetiva comum a muita gente, com certeza é a de um pai ensinando o filho ou a filha a andar de bicicleta. É uma relação bonita de entrega. A criança receosa, com medo de cair e se machucar, sendo protegida pelo pai que lhe transmite confiança. Depois, a alegria de conseguir se equilibrar sozinha, de dominar a máquina, o cavalo, ou o dragão – podem chamar como quiser -, e sair pedalando livremente, sentindo a brisa bater no rosto, com um sentimento até então desconhecido de independência.

Não sei quantas versões já foram escritas e ilustradas para contar essa história, mas, recentemente, conheci outras duas bicicletas que “emparelharam” à de Rosa, personagem do livro “A pergunta mais importante”, escrito por mim e ilustrado por Flávia Bomfim.

A primeira “magrela” pertence à Emília Nuñez, que lançou recentemente “Felicidade Bicicleta”. A parceria deu tão certo que, mais uma vez, Emília escolheu Bruna Assis Brasil para ilustrar o seu novo livro.

Se “A menina da cabeça quadrada” abordava de modo divertido o perigo do uso excessivo dos brinquedos eletrônicos, agora a escritora defende a ideia de que a bicicleta é muito mais que um simples meio de locomoção.  Ao ser utilizada de forma recreativa, ela fortalece os laços familiares, aumenta a autoestima de uma criança e proporciona momentos de muita felicidade.

A segunda “magrela” veio de Santa Catarina e pertence a Pablo Lugones. Sua estréia no universo literário infantil com “O passeio“, não poderia ter sido feita em melhor companhia do que a do ilustrador e também escritor Alexandre Rampanzo.

Texto e ilustração se fundem harmoniosamente para falar de um pai que após ensinar a filha a andar de bicicleta, pedala ao seu lado por muito tempo. Cada um no seu ritmo, às vezes muito próximos, outras vezes nem tanto.  Até que um dia a filha, já crescida, percebe que o pai, companheiro de tantas viagens, não está mais ao seu lado. A saudade é grande, mas, como um farol, as boas lembranças que ele deixou a auxiliarão a continuar a própria jornada.

Fico imaginando quantas outras histórias existem ou estão sendo escritas e ilustradas neste exato momento tendo como tripé a relação entre pais, filhos e bicicletas. Um tema inesgotável de afetos que faz aflorar sorrisos em todos que as leem. Como gostaria de conhecer todas elas!

 

  • Felicidade Bicicleta

Emilia Nuñez

@maequele

R$ 39,90

 

  • O Passeio

Pablo Lugones

Editora Gato Leitor

R$ 41,30

 

  • A Pergunta Mais Importante

Editora Humanidades

R$27,00

A Família Regrada

familia-regradaJá me aconteceu de achar a vida meio parada, como se pedalasse uma bicicleta ergométrica que nunca sai do lugar.

Nessas horas, procuro me animar pensando que todo esse exercício físico vai me deixar preparada para quando a roda da fortuna movimentar de novo a minha “bicicleta”.

Depois de receber respostas negativas ou nenhuma resposta, “A Pergunta Mais Importante” encontrou um lugar acolhedor para morar. Com o apoio da editora, Rosa, a personagem principal do meu primeiro livro infantil, vislumbrou novos horizontes impossíveis de alcançar se estivesse pedalando sozinha.

Nas suas andanças, conheceu a escritora e blogueira Emília Nuñez (@maequele). Esse encontro proporcionou novas aventuras não só para Rosa como também para mim.

Estimulada por Emília ignorei o acanhamento e apresentei “A Pergunta Mais Importante” em praças e eventos culturais.  Aprendi a usar o Instagram e em pouco tempo o livro estava sendo divulgado e comentado por diversos fãs da literatura infantil.

Através da rede social cheguei à “A Família Regrada”, produção independente da escritora paraense Anna Cruz (@sobreissoeaquilo).

Como normalmente costuma acontecer, o que primeiro chamou a minha atenção foi a capa. Simplesmente fiquei encantada com o traço e o colorido das ilustrações feitas por Mariamma Fonseca.

Admito que se Emília não me tivesse oferecido de presente, talvez não o adquirisse. Quando cogitei essa possibilidade, o meu censor interno gritou forte: Mais um livro não!

Mas agora “A Família Regrada” era meu, e poderia desfrutá-lo à vontade.

Trata-se de um livro pequenino de poucas páginas. Seis histórias que narram com muito humor e doçura situações vividas pela maioria das famílias.

Quem não teve ciúme do irmão (ã) e ao se tornar pai ou mãe não precisou administrar a ciumeira entre os filhos?

Engraçado, recentemente conversando com a minha irmã caçula, em tom de brincadeira que vai dizendo as verdades, ela recordou ter sido sempre a última a escolher o que era oferecido a todas.

O livro também conta uma conversa muito engraçada entre mãe e filha a respeito da pergunta clássica: Mãe, como nascem os bebês? (suspiro)

O que posso dizer é que no meu tempo a resposta não envolvia tantas alternativas e explicações. O papai botava uma sementinha dentro da mamãe e o assunto estava resolvido.

Desnecessário enumerar os benefícios de se ler para uma criança. Mas à medida que ela cresce, e começa a ler sozinha, muitas vezes esse hábito tão gostoso é deixado de lado.  “A Família Regrada” é um bom motivo para recuperar esse costume, quer seja no aconchego de um sofá ou pouco antes do último beijo de boa noite. Garanto que não vai se arrepender.

  • Instagram:

@maequele

@sobreissoeaquilo

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