Coração de inverno, coração de verão

Assim que deslizei a ponta dos dedos pelas pequeninas saliências – semelhantes a flocos de neve – que cobriam a capa do livro, intui estar diante de uma história sensível e delicada.

Escrito pela carioca Leticia SardenbergCoração de inverno, coração de verão”, aborda um tema complicado: o luto infantil. Principalmente quando se trata da perda dos pais. Não sabemos como e onde isso aconteceu, mas o mundo dessa criança congelou numa saudade que não tem mais fim.

A autora compara o luto a um rigoroso e interminável inverno que o menino atravessa sozinho e desesperançado. Conselhos, cuidados e distrações o ajudaram um pouco, mas só por alguns momentos.

Entretanto, da mesma maneira que é impossível impedir uma estação do ano de suceder à anterior, algo parecido também acontece com essa criança.

Sem querer, ele encontra uma jovem com um coração luminoso e acolhedor que compreende e respeita a sua tristeza. E pouco a pouco, o que antes era inverno passa a ser verão, e o menino que antes sofria sozinho agora compartilha alegrias.

As ilustrações de “Coração de inverno, coração de verão” são do premiado ilustrador paulista Alexandre Rampazo, e retratam com muita sensibilidade sentimentos que merecem e precisam ser expressos.

 

  • Coração de inverno, coração de verão

Leticia Sardenberg (texto)

Alexandre Rampazo (ilustrador)

Editora Zit

Público-alvo: a a partir de 8 anos

R$34,90

Lampião e o Vovô da Vovó na cidade de Mossoró!

Quem me conhece sabe que sempre gostei muito de ler. Mas, de uns tempos para cá, tenho me dedicado cada vez mais aos trabalhos manuais.

Parece que não estou sozinha. Diversas jovens têm se debruçado sobre tecidos, linhas e agulhas em tarefas que requerem serenidade e tempo. A persistência é recompensada ao ver surgir gradativamente o resultado de seus esforços.

Algo parecido acontece quando garimpamos pelas narrativas que nos foram transmitidas na infância e das quais recordamos apenas pedaços. Depois de muito pesquisar encontramos verdadeiras preciosidades.

Atendendo a um pedido da filha, que queria ouvir uma história verdadeira antes de dormir, a autora recuperou uma lembrança familiar contada por sua mãe.

A história de Rodolpho Fernandes, trisavô da menina. Um homem corajoso e destemido, que auxiliado pelos habitantes da cidade, enfrentou valentemente os ataques de Lampião desejoso de invadir e saquear o lugar onde todos moravam.

A narrativa de Marcela Fernandes de Carvalho mistura prosa, versos, rimas e lindos bordados. Como são bonitas as ilustrações do livro Lampião e o Vovô da Vovó na cidade de Mossoró!

A fusão deu certo. Afinal, como diz a autora “escrever e bordar são coisas bem parecidas, pois criamos ponto a ponto uma história encantada”.

 

  • Lampião e o Vovô da Vovó na cidade de Mossoró!

Marcela Fernandes de Carvalho

Editora Zit / Escrita Fina

R$ 49,90

A Casa e o Mundo lá fora

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A primeira vez que tomei conhecimento de “A Casa e o Mundo Lá Fora” foi através de uma nota pequenina que saiu em um jornal paulista. Chamou a minha atenção o fato do livro reproduzir as cartas escritas pelo educador Paulo Freire, durante o tempo em que viveu como exilado político, para sua prima em segundo grau de apenas nove anos, Nathercia Lacerda.

É incrível como um homem ocupado, que se encontrava numa situação tão sofrida, encontrava tempo para responder às cartas escritas por uma criança. Um pequeno-grande gesto que apenas confirma o quanto o educador sempre procurou escutar e dar voz àqueles que, pelas mais variadas razões, não recebiam o devido reconhecimento ou atenção.

As cartas falavam das belezas do novo país para onde se mudou com a família e, como educador, ele aconselhava a menina a nunca deixar morrer a curiosidade que existia dentro dela, mesmo quando crescesse e se tornasse adulta; e que se preocupasse com os outros porque “(…) hoje não são todas (as crianças) que podem rir. Rir não é só abrir ou entreabrir os lábios e mostrar os dentes. É expressar uma alegria de viver, uma vontade de fazer coisas, de transformar o mundo, de amar o mundo e os homens, somente como se pode amar a Deus”.

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A correspondência ficou guardada por muitos anos até que numa conversa despreocupada com as amigas Cristina Porto e Denise Gusmão (sobre os pertences que cada uma guardava de recordação), Nathercia comentou sobre as cartas que escrevera e das respostas que recebeu do parente querido de quem sentia saudades. Imediatamente as duas reconheceram que estavam diante de um tesouro que precisava ser revelado.

A editora Zit acolheu com entusiasmo a descoberta e, ignorando tempos de crise e contenção de despesas, publicou um livro muito lindo. Há muito tempo eu não via um projeto gráfico tão caprichado. As ilustrações, o design da capa e do miolo são criação da premiada ilustradora Bruna Assis Brasil.

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Não é de se estranhar que o livro tenha sido escolhido para compor o catálogo que a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) apresentará na Feira do Livro em Bolonha (3 a 6/04). Torço para que volte de lá premiado.

 

  • A Casa e o Mundo Lá Fora:  Cartas de Paulo Freire para Nathercinha

Nathercia Lacerda

Bruna Assis Brasil (ilustrações)

R$ 47,90

Semeando com carinho

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Não deu para resistir, a primeira coisa que fiz quando segurei o livro “A turma da Horta Viva – como tudo começou” foi passar o dedo na capa. As letras que compõem o título têm um delicado relevo, mas são ásperas também – parece que foram desenhadas com terra. Depois quando folheei o livro notei que o papel das páginas era reciclado e, o mais incrível, as ilustrações eram, na verdade, colagens que também utilizavam material reutilizado!

A turma da Horta Viva faz parte de uma coleção direcionada às crianças que moram nas grandes cidades e têm pouco contato com a natureza. Se não a conhecem como poderão lhe dar valor e a proteger?

No primeiro livro da série um grupo de amigos decide limpar um terreno baldio e refazer a horta que ali existia no passado. Bem orientados e com a cooperação dos adultos aprendem a separar o lixo, e recebem a primeira lição: “Terra é terra, não é sujeira!”.

Depois de montar os canteiros descobrirão, entre outras coisas, que as plantas mortas são o adubo das que ali  irão crescer. É engraçada a reação das crianças quando descobrem de que é feito o esterco:

                – Mas não é… – Liz fez cara de nojo.

                – Fezes de boi – completou o professor.

                – Mas é bom para as plantas. E vem bem sequinho, quase sem cheiro. – Riu seu Bentinho.

Aos poucos essa turminha irá aprender que sem cooperação os sonhos não se realizam, e que em uma horta, assim como no planeta Terra, tudo se relaciona e se conecta para que a vida possa acontecer.

O texto foi escrito a quatro mãos por Danilo Netto especialista em desenvolver projetos educativos que ensinam como montar hortas nas escolas e Fernanda Godinho professora do ensino fundamental há mais de 20 anos,  inclusive de meu filho quando este ainda era menino.

As ilustrações/colagens são de outra dupla, Ana Sofia Mariz e Christiane Melo, responsáveis pelo criativo design gráfico da série A turma da Horta Viva.

Por último, a apresentação do livro é de André Trigueiro jornalista famoso por promover o desenvolvimento sustentável e a preservação do meio ambiente.

Ao terminar de ler a última página pensei para comigo mesma: Definitivamente tenho em mãos um livro que foi “semeado” com muito carinho.

  • A turma da Horta Viva – como tudo começou

Danilo Netto e Fernanda Godinho

Zit Editora

R$ 24,90

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