Farmácia Literária

É claro que eu sabia que estava brincando com fogo quando pedi de presente o livro Farmácia Literária. Não fosse uma pilha de livros que ainda não li, imagine querer outro que indica mais de quatrocentos livros!

Pois é… As autoras Ella Berthoud e Susan Elderkin relacionaram por ordem alfabética diversos “males” que podem ser amenizados se forem medicados com determinado tipo de leitura.

Ainda estou bem no início, na letra A, mas ao chegar às sugestões para quem procura ABRIGO, lembrei que tinha esquecido um “remédio” na estante que nunca tinha lido. Trata-se de A Casa de Papel, do escritor argentino Carlos Maria Dominguez.

O seu formato reduzido fez com que passasse despercebido no meio de outras lombadas mais robustas. Li-o de uma sentada só e me redimi do adágio popular que diz:

Um livro que não se encontra é um livro que não existe.

Em nova folheada aleatória pela Farmácia Literária encontrei O Chamado do Monstro * – um livro de que gostei muito – e que era recomendado para ajudar uma criança (e por que não todos nós?) a enfrentar uma doença fatal na família. Uma história dilacerante, mas extremamente sensível.

Procurando não perder o foco, retornei à letra A e logo fiquei interessada em uma narrativa de Neil Gaiman. Nunca li nada dele, mas a trama de O Livro do Cemitério me deixou curiosa. Indicado para falar sobre ADOÇÃO, o livro conta a história de um bebê que foi adotado por um casal de fantasmas que moram num cemitério. Bizarro, não? Tive que me segurar para não comprá-lo. Afinal ainda estou na junção AD e ainda falta, AGorafobia, ALcoolismo, AMbição, AMizade (vários tipos), AMor (nesse vou ter que me segurar!), ANsiedade, ARRependimento…

A Farmácia Literária deve ser visitada em doses homeopáticas porque, exagerando na dose, arrebenta-se com o orçamento de um leitor compulsivo. E acredite! O livro também oferece tratamento para quem sofre desse mal.

 

*O livro foi traduzido como “Sete minutos depois da meia-noite”

  • Farmácia Literária

Ella Berthoud e

Verus Editora

R$ 44,90

  • A casa de papel

Carlos María Domínguez

Editora Francis R$ 29,00

OU Editora Realejo R$ 23,00

O acerto de contas de uma mãe

acerto-de-contas-de-uma-maeSó mais tarde reparei que comprara O acerto de contas de uma mãe – A vida após a tragédia de Columbine no dia em que aconteceu o atentado à boate Pulse em Orlando. Será que estava sugestionada por mais um ataque sem sentido, que volta e meia acontece nos EUA? Talvez.

Nunca tive simpatia ou o interesse em saber o que se passava na cabeça desses assassinos malucos. Na verdade, só consigo ter muita raiva deles. Entretanto, sempre quis saber como os familiares e amigos conseguiam tocar suas vidas depois do ocorrido.

Logo nas primeiras páginas me peguei com os olhos marejados de lágrimas e, mesmo sem o querer, me identifiquei com o sofrimento da autora Sue Klebold.

Ela era a mãe de Dylan, um dos dois adolescentes que, em abril de 1999, entraram atirando na escola onde haviam concluido o segundo grau. O desejo de seu filho era matar o maior número de pessoas possível.  Desde o início ele sabia que a chacina terminaria em suicídio, o dele e o do parceiro.

Parece clichê, mas todos os relatos das pessoas que conheceram Dylan disseram que ele era um garoto legal e afetuoso. Não houve nada, absolutamente nada, diferente ou traumatizante em sua criação. Ele era o segundo filho de uma família bem estruturada, amorosa e com sólidos valores éticos.

Tanto a autora quanto o marido sempre foram muito presentes e estavam atentos às mudanças de comportamento do filho, inclusive aquelas consideradas normais em um adolescente. Infelizmente, não perceberam que o isolamento social e o aumento da irritabilidade escondiam algo mais: uma depressão profunda associada a pensamentos suicidas.

No íntimo, eu acreditava que os que estavam ao meu redor eram imunes ao suicídio porque eu os amava, ou porque tínhamos um bom relacionamento, ou porque eu era uma boa observadora, sensível e carinhosa que poderia mantê-los a salvo. Eu não estava sozinha ao acreditar que o suicídio só pudesse acontecer em outras famílias, mas estava errada.

Em momento algo a autora tenta justificar os atos do filho. Inclusive, custa a acreditar que seja ele que aparece nas imagens das câmaras de segurança da escola, ridicularizando e xingando os colegas antes de os matar.

Seu grande remorso foi não ter percebido a tempo o quanto seu filho estava doente e precisava de ajuda.

Como pais, costumamos estar atentos à saúde física de nossos filhos. Os levamos ao pediatra, dentista e a qualquer outro especialista que seja necessário. Mas relutamos em reconhecer que a saúde mental também precisa ser monitorada. Fico imaginando quantas “dores de crescimento” poderiam ser evitadas se houvesse um acompanhamento psicológico preventivo. A não ser que seja algo gritante, achamos que um comportamento diferente é apenas uma fase e que com o tempo as coisas vão se ajeitar. Problemas mentais ou doenças cerebrais, como a autora prefere chamar, são um assunto tabu.

O reconhecimento de sua própria cegueira e a percepção de que a tragédia poderia ter sido evitada impulsionaram Sue Klebold a se expor e escrever este livro.

Em momento algum ela menospreza a facilidade com que se adquirem armas de fogo, mas sua luta é para que se discuta abertamente sobre depressão e suicídio entre jovens. Afinal, pessoas mentalmente saudáveis não se matam nem dão cabo à vida de outras. Em prol dessa sanidade mental, a autora defende, como projeto de governo a inclusão de procedimentos rotineiros nas escolas de todo o país, para detectar a tempo quais jovens apresentam problemas psicológicos.

O acerto de contas de uma mãe é um dos livros mais corajosos que li ultimamente. E por mais que tenha me angustiado, recomendo-o vivamente, não só pela relevância do tema, mas por ser muito bem escrito.

 

  • O acerto de contas de uma mãe – a vida após a tragédia de Columbine

Sue Klebold

Editora Verus

R$ 39,90

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