O colecionador de ossos e as películas automotivas

colecionado de ossosNão eram 11h da manhã quando passei por uma barreira policial que estava sendo montada numa rua interna da Pituba. Estranhei. Ainda era cedo para verificar o nível alcoólico dos motoristas. Afinal, a maioria dos restaurantes só abriria as portas para comemorar o Dia das Mães dali a uma hora.  Meu carona comentou que a blitz era para inspecionar a documentação dos automóveis e se as películas escuras coladas nos vidros dos carros estavam de acordo com a legislação.

Apesar dos argumentos favoráveis à sua utilização, nunca coloquei essas películas no meu carro. Tudo por causa de um livro que li há mais de quinze anos: O colecionador de ossos, de Jeffery Deaver. Verdade seja dita, também nunca mais peguei um táxi no aeroporto de qualquer cidade que não conheço com a mesma confiança e tranqüilidade de antigamente.

A história do livro começa com um casal chegando a Nova Iorque para participar de uma feira organizada pela empresa onde trabalham.

Despreocupados, entram no primeiro táxi disponível e informam ao motorista para onde querem ir. Sentados no banco dos passageiros, os dois conversam sobre o que esperam ver e aprender durante o evento. O trajeto é longo mas, a certa altura, o homem que já estivera outras vezes na cidade percebe que o motorista não está fazendo o trajeto usual. Querendo saber a razão da mudança – talvez a ponte esteja interditada para obras de manutenção – bate na divisória que separa o condutor do passageiro. O motorista parece não prestar atenção. O homem bate mais forte e – se não me falha a memória – o motorista aumenta o volume do rádio. Nervoso, o passageiro agora está esmurrando a divisória e continua sendo totalmente ignorado.

O carro entra em ruas que ele não conhece e se afasta cada vez mais do destino final. Aflita, a acompanhante tenta abrir a janela do carro mas, assim como as portas, ela está travada. O casal percebe com horror que são prisioneiros daquele motorista insano.  A região por onde passam é inóspita e os raros pedestres não os podem ver nem ouvir seus apelos desesperados pedindo ajuda. Os vidros do carro estão revestidos com uma película escura que esconde o que está acontecendo dentro dele.

Pois é, fiquei traumatizada. Não há nada nem ninguém que me convença a colocar as tais películas no carro.

Há quem argumente que elas protegem o motorista de assaltos. Mas se eu seguir à risca a legislação, o interior deverá ficar visível. Se os bandidos podem me ver e eu também posso vê-los, qual é a vantagem da película?

Depois, desconfio de quem intencionalmente coloca uma película mais escura daquela permitida por lei, a ponto de não se poder dizer quem está dirigindo ou quantas pessoas estão dentro do carro. Quem me garante que no interior do automóvel não se esconde um marginal?

Colocar películas para diminuir o calor interno do automóvel? Não é um argumento que me convença. Por enquanto a lembrança de O Colecionador de Ossos é muito forte para me fazer mudar de opinião.

 

  • O Colecionador de Ossos

Jeffery Deaver

Editora Record

R$ 27,90 (edição de bolso)

R$ 25,00 (E-Book)

Uma Praça em Antuérpia

Uma-praça-em-antuerpiaJá lhe aconteceu de ter que ir a um lugar ou a uma festa, sem estar com a menor vontade, e tudo sair exatamente ao contrário do que esperava? O lugar é sensacional e a festa termina por ser o maior sucesso.

Foi mais ou menos assim, um tanto ou quanto desmotivada, que comecei a ler Uma Praça em Antuérpia de Luize Valente.  O livro anterior da escritora já fora debatido no meu grupo de leitura. Não é que não tivesse gostado do O Segredo do Oratório, mas, na minha opinião, estava na hora de seguir adiante e conhecer outro autor brasileiro. Na reunião seguinte – à qual faltei – os participantes do grupo conversaram via Skype com Luize e decidiram ler seu último romance. Ainda bem que tomaram essa decisão porque o livro é ótimo!

Se em O Segredo do Oratório a autora resgatou a memória judaica que havia sido esquecida no interior do nordeste brasileiro, em seu novo livro ela aborda as vicissitudes sofridas pelos judeus nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial e nos primeiros anos seguintes.

Na verdade, a narrativa começa no Rio de Janeiro quando Olivia, uma senhora portuguesa octogenária, conta para sua neta os motivos que a fizeram vir morar no Brasil.

De revelação em revelação, a jovem fica sabendo que sua avó tinha uma irmã gêmea, que se casou em Portugal com um pianista judeu alemão perseguido pelos nazistas. Theodor, o marido de sua irmã Clarice, também era comunista, um motivo mais do que suficiente para ser detido pelo governo de Salazar e deportado para seu país natal. Por essa razão, os dois decidiram sair de Portugal. Eles estavam felizes vivendo em Antuérpia quando a Bélgica foi invadida pelas tropas nazistas.

De novo precisaram fugir, mas nada fora planejado e eles tiveram que se juntar a milhares de fugitivos que se encontravam na mesma situação. Para o casal tudo era mais complicado. Eles preocupavam-se não só com a própria segurança mas também com a do filho, que tinha apenas quatro anos de idade, e com a gravidez adiantada de Clarice.

Uma Praça em Antuérpia é um romance baseado em fatos históricos que foram pesquisados pela autora em diversos jornais da época.

Enquanto lia, tinha a impressão de ver os lugares descritos e sentir a superposição de odores provenientes de corpos suados e mal alimentados. As descrições dos engarrafamentos e das multidões desesperadas se acotovelando na tentativa de escapar do inimigo são aflitivas.

Entendi porque me identifiquei mais com este romance do que com o primeiro. As perseguições e as fugas que ocorreram há mais de setenta anos estão acontecendo de novo. Desta vez chegam à Europa levas de refugiados escorraçados de seus países de origem por causa da religião que professam ou do grupo étnico a que pertencem. Fogem apenas com a roupa do corpo, abandonando às pressas casas e negócios, em busca de um lugar seguro para viver em paz.

Quando o grupo de leitura voltou a se reunir para debater o livro, mais uma vez conversamos com a autora via internet. Desta vez eu estava presente e fiquei chocada com uma informação que ela nos passou: Quando a guerra terminou, Salazar enviou um telegrama de pêsames ao governo alemão e decretou luto oficial de três dias pela morte do ditador. *

https://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal_na_Segunda_Guerra_Mundial

 

  • Uma Praça em Antuérpia

Luize Valente

Editora Record

R$ 45,00

E-BooK R$ 12,00

A Garota no Trem

Capa A Garota no Trem AG.aiTomara que você esteja com tempo para mergulhar no suspense psicológico A Garota no Trem da escritora inglesa Paula Hawkins. O livro é daqueles que quando se começa a ler não se quer mais parar.

Se estiver soterrado por afazeres e compromissos, deixe-o guardado para quando entrar de férias. Senão seu pensamento vai ficar distante, enredado num labirinto de informações e pistas falsas criadas pela imaginação fértil da personagem principal.

A história é narrada por Raquel uma mulher ainda jovem, recém-divorciada, que de segunda a sexta pega o trem para Londres fingindo que vai trabalhar. Na verdade ela não tem coragem de contar a ninguém que foi demitida por causa de seu problema com a bebida. Ela é alcoólatra e, quando exagera, não consegue lembrar depois o que disse ou o que fez.

De dentro do vagão, Raquel vê os quintais das casas que margeiam a linha do trem. Em uma delas mora um casal que ela não conhece, mas que imagina levar a vida que sempre desejou para si: uma união afetiva harmoniosa. Uma vida que chegou a conhecer, mas que infelizmente perdeu por causa de seu descontrole com a bebida.

Certa manhã, ela vê algo perturbador acontecendo no quintal do casal. Pouco tempo depois, a foto da jovem que tanto endeusava está estampada na primeira página dos jornais, noticiando o seu desaparecimento.

Raquel acha que tem informações que poderão ajudar a encontrar Megan – esse é o nome da jovem, mas ninguém a leva a sério. Afinal, se não consegue lembrar o que fez na véspera como pode ter certeza do que viu quando olhou pela janela de um trem?

O romance parece um quebra cabeças distorcido. Quando um pedaço encaixa no outro, logo aparece mais um para ocupar esse mesmo lugar. À versão de Rachel se contrapõem e complementam as interpretações de Megan e a de Anne, atual mulher do ex-marido de Rachel.

Quem avisa amigo é. Se embarcar nesse trem não vai querer saltar até descobrir toda a verdade. Definitivamente uma leitura viciante.

(Como era de se esperar o livro já está sendo adaptado para o cinema. O desenrolar da história que ocorre nos subúrbios de Londres foi transferido para os de Nova Iorque. Gostei da escolha da  atriz Emily Blunt para representar Rachel. O filme deve chegar às salas de cinema em outubro de 2016.)

 

  • A Garota no Trem

Paula Hawkins

Editora Record

R$ 35,00

E-Book R$ 24,00

O Segredo do Oratório

O-segredo-do-oratorioAs resenhas não podiam ser mais elogiosas e O Segredo do Oratório foi recomendado por uma livreira cujo gosto literário costuma bater com o meu.

O tema também era interessante e cercado de mistérios: a história dos judeus perseguidos pela Inquisição que escolheram o nordeste brasileiro como sua nova pátria. Sob a dominação holandesa viveram tranquilos por quase duas décadas, mas quando estes, em 1654, foram expulsos pelos portugueses, a intolerância religiosa voltou a reinar. Alguns judeus preferiram se embrenhar pelo sertão nordestino, mas aqueles que haviam se convertido ao catolicismo e voltaram a praticar o judaísmo foram encarcerados e enviados de volta a Portugal para serem julgados e condenados sumariamente pelo Santo Ofício.

O romance, propriamente dito, começa no início deste século narrando os esforços de uma jovem paraibana para recuperar a memória de seus ancestrais cristãos-novos. Ela procura provar sua legitimidade como judia e, assim, não precisar passar pelo ritual ortodoxo da conversão.

No entanto, á medida que lia O Segredo do Oratório, me perguntava se estava gostando ou não da leitura.

Se por um lado aprendi bastante, ao ponto de achar que o livro deveria ser adotado como leitura interdisciplinar pelos colégios brasileiros, por outro senti falta de certa leveza literária. Por diversas vezes tive a impressão de estar participando de uma palestra, na qual a autora introduzia as histórias paralelas dos personagens apenas como forma da plateia poder repousar e absorver todas as informações recebidas.

Apesar do didatismo encontrado em O Segredo do Oratório a autora consegue prender atenção do leitor até o final, ao mesmo tempo que resgata a desconhecida herança judaica na formação do povo brasileiro.

 

 

  • O segredo do oratório

Luize Valente

Editora Record

R$ 45,00 (esgotado no momento)

E-Book R$ 27,00

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