O fazedor de velhos

O fazedor de velhos

Ler O fazedor de Velhos, do escritor carioca Rodrigo Lacerda, já estava nos meus planos há algum tempo, mas uma antipatia inexplicável pelo título fazia com que procurasse outros livros enquanto mantinha seu nome devidamente  anotado, para uma eventual e futura leitura.

Recentemente ao esquadrinhar as estantes da pousada onde me hospedara, fui atraída por uma lombada laranja. Era ele, e desta vez não havia razão para ignorá-lo.

O texto não era muito grande e imaginei que terminaria o livro em dois dias, a tempo de devolvê-lo à estante de onde o havia retirado.

Sentada no sofá – em frente à lareira que crepitava – fui logo fisgada pelo primeiro parágrafo: Eu não lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo, mas foi cedo.

O “Eu” é Pedro – narrador da história – rapaz da classe média do Rio; “devorador” de livros, já carregando uma desilusão amorosa, e inseguro quanto à carreira profissional que escolheu seguir.

Confuso, questiona-se sobre quais rumos tomar na vida, mas como diz o ditado “quando o aluno está pronto o mestre aparece”.

E aquele homem – O Fazedor de Velhos, que já havia cruzado o seu caminho outras vezes – será seu mentor. As tarefas exigidas serão tediosas, sem sentido, e os ensinamentos recebidos – conviver com a frustração, aprender a pensar e sentir – difíceis de serem seguidos. Mas o Tempo – o verdadeiro mestre de todos nós – fará com que Pedro encontre o verdadeiro amor e descubra qual é a sua real vocação.

Em linhas gerais esta é a história do livro, mas ele oferecia “um algo mais” que muito me agradou.

Enquanto narra a história, Pedro fala das leituras pelas quais – graças à insistência da mãe – se apaixonou, e de outras que descobriu por conta própria.

Foi assim que conheci o belíssimo poema I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias, indianista brasileiro do séc.XIX; fiquei com vontade de reler Eça de Queirós; e tomei coragem de enfrentar Rei Lear de Shakespeare – usando o mesmo método de Pedro: assistir primeiro o filme com Laurence Olivier, para só depois ler a peça. Ele também me apresentou ao atormentado escritor americano Raymond Carver, deixando-me com vontade de ler suas crônicas e poemas.

Assistindo a uma entrevista com o autor, compreendi o porquê do meu desconforto inicial com o titulo do livro. Ele conta que primeiro escolheu o título e só depois começou a escrever o livro. A primeira ideia era criar um vilão. No entanto, à medida que desenvolvia a história, acabou por criar um personagem simpático, alguém que valorizava o envelhecer – um fazedor de velhos com uma conotação positiva.

A leitura de O Fazedor de Velhos foi uma agradável surpresa. O livro indicado inicialmente para o publico juvenil já vendeu mais de 32 mil exemplares e ganhou em 2009 o Prêmio FNLIJ na categoria melhor livro para jovens.

E não, não consegui ler o livro em apenas dois dias. Mas assim que terminar de escrever este texto, pretendo devolvê-lo pelo correio, e, ao fazer isso, agradecerei mentalmente por ter dado uma chance a este livro maravilhoso.

O bom leitor

Pilha-de-livros

Recentemente li uma entrevista* com o escritor Luis Antonio de Assis Brasil onde dizia que, para ele, o bom leitor era: “O que lê muito len-ta-men-te, buscando a fruição do texto, valorizando cada palavra, cada parágrafo. Um romance que exigiu seis anos de escrita, dúvidas, alegrias e pesares, não pode ser lido numa tarde”.

Realmente, o autor merece ter a sua obra apreciada com vagar e cuidado, mas como isso fica mais difícil de se conseguir a cada dia que passa!

Já comentei antes que não sou uma “devoradora” de livros. Normalmente permito-me uma leitura tranquila que dura em torno de uns quinze dias. Entretanto aquela vozinha interior não para de lembrar que, enquanto leio len-ta-men-te, outros tantos se acumulam. Dessa forma minha insatisfação é permanente, e as anotações de livros, que pretendo ler um dia, não param de crescer.

Recentemente acrescentei mais cinco títulos à lista. Os estilos são bem diferentes, e de autoras que não conheço. Curioso, só agora percebi que os escritores, pelos quais me interessei, são todos mulheres.

O primeiro é “Tipos de perturbação” um livro de contos bem curtinhos, escrito por Lydia Davis, autora americana, e ganhador este ano do prestigiado Man Booker Prize;  depois me interessei por ”O povo eterno não tem medo” primeiro romance de Shani Boianjiu, jovem escritora israelense, que narra o amadurecimento precoce de três amigas, que têm a pouca sorte de prestar o serviço militar obrigatório durante a guerra;  foi através do meu filho que ouvi falar, pela primeira vez, da jornalista Juliana Cunha autora do blog “Já matei por menos”. Os melhores textos foram reunidos em um livro editado pela Lote 42. Quero conhecer o trabalho desta escritora hipster**, que provavelmente logo o deixará de ser, visto que acaba de ser citada no blog de alguém com idade para ser sua mãe;  “Três mulheres fortesfoi escrito por Marie NDiaye e ganhou o prêmio Goncourt 2009. Marie é francesa, mas o sobrenome revela sua ascendência africana – o pai é senegalês;  por último na lista está “Quiçá” de Luisa Geisler, escritora brasileira selecionada pela revista Granta como integrante do grupo dos melhores jovens escritores brasileiros.

Haja tempo e dinheiro para ler tudo o quero!

* Jornal Rascunho  março 2003

**Algo ou alguém que está na vanguarda dos modismos culturais. Quando começa a ser popular ou lugar-comum deixa de ser hipster.

Olhar com olhos de ver

Quando terminei de ler Bonsai veio-me à lembrança uma história, que narra o encontro entre um pequeno comerciante e seu amigo Olavo Bilac.

Pretendendo vender o seu sitio, o comerciante pediu ao poeta que redigisse o anúncio de venda da propriedade.

O tempo passou e quando voltaram a se encontrar, Olavo Bilac perguntou-lhe se já tinha vendido a casa. Este respondeu que não.

As qualidades enumeradas no anúncio revelaram uma propriedade, que apesar de sua, até então não havia percebido. Ao tomar emprestado o olhar do poeta, decidiu mantê-la e desfrutá-la.

É esse “olhar com olhos de ver” que está presente em Bonsai.

Alejandro Zambra é chileno, e foi eleito pela revista britânica Granta como um dos vinte e dois melhores jovens escritores hispano-americanos.

Com texto limpo e enxuto o autor narra uma história de amor igual a tantas outras e que um dia termina, sem explicações, como outras mais.

Assim como um bonsai tem podados os galhos e folhas desnecessárias; aqui são cortadas as palavras inúteis, transformando este pequeno livro, de apenas 91 páginas, em um romance único e especial.

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