Nossas Noites

A primeira vez que ouvi falar do livro Nossas noites foi na coluna de Cora Rónai. Ela o indicava como presente a ser oferecido no Dia das Mães, dizendo que se tratava de: “(…) um pequeno romance terno e perspicaz, uma história de amor pouco convencional, sem final feliz, mas cheia de afeto e de bons sentimentos”.

Mais uma vez, segui a sua indicação e logo comprovei que era verdade tudo o que escrevera sobre ele.

A história do livro se passa numa pequenina cidade, no interior dos EUA, onde todos os moradores se conhecem, mesmo que seja só de vista. Certo dia Andie, uma septuagenária viúva, faz uma visita a Louis, que mora a poucas casas distante da sua, e lhe faz um convite inusitado. Será que ele – sendo também viúvo – gostaria de vez em quando lhe fazer companhia à noite, para conversarem e dormirem juntos?  Inicialmente surpreso, Louis concorda com a proposta.

E assim, dessa forma direta sem grandes firulas, começa uma bonita amizade entre dois idosos solitários, iguais a tantos outros que, apesar de não conhecermos, nos enternecem toda vez que os vemos passear de mãos dadas pelos corredores do shopping ou saindo de uma sessão de cinema conversando entre si.

Não espere reviravoltas na trama que flui de maneira segura e tranquila. Sendo personagens bem reais, eles têm preocupações com os filhos adultos e problemas de saúde. No entanto, o maior desafio que precisarão vencer é o preconceito de que existe um prazo de validade para iniciar um relacionamento amoroso.

Nossas noites foi o último romance escrito pelo autor americano Kent Haruf antes de falecer, e o primeiro editado pela Companhia das Letras. Espero que a editora publique os anteriores, porque definitivamente fiquei muito curiosa em conhecer a obra do autor.

 

  • Nossas Noites

Kent Haruf

Companhia das Letras

R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

Jubiabá

jubiabaO filho de uma amiga querida apaixonou-se por uma baiana. Do Rio de Janeiro vieram vários amigos para o casamento.

A maioria já conhecia Salvador, mas não as últimas novidades culturais que surgiram na cidade. Como a transformação dos fortes de Santa Maria e São Diogo em espaços culturais, sendo o primeiro dedicado à fotografia baiana e o segundo ao pintor Carybé. São dois lugares que enchem de orgulho os soteropolitanos.

Depois de visitá-los, levei meus amigos cariocas para almoçar na Casa de Tereza no Rio Vermelho. Encantaram-se com a combinação exótica de sabores das roskas e com o toque requintado dado pela chef Tereza Paim à tradicional e saborosa culinária baiana.

Depois de uma refeição substanciosa talvez meus amigos preferissem voltar para o hotel e descansar um pouco, mas como poderíamos estar tão perto da Casa do Rio Vermelho e não lhes mostrar onde viveram Jorge Amado e Zélia Gattai?

Gosto tanto desse lugar que não me incomodo de visitá-lo mesmo que por dois dias consecutivos. Na verdade foi isso que fiz: de tarde e na manhã do dia seguinte, com outro casal que também viera para o casamento.

Sempre tem alguma novidade, um detalhe que me passou despercebido. E o que dizer da atmosfera do lugar? Não é paz o que sinto, mas uma energia hospitaleira e amiga.

Pois bem, sábado de manhã lá estava eu de novo na Casa do Rio Vermelho. Desta vez prestei atenção ao vídeo que passava no ambiente dedicado aos amigos do casal e às muitas celebridades internacionais que vieram a Salvador para conhecer pessoalmente o autor de Jubiabá.

Em voz alta comentei que ainda não tinha lido esse livro. Quando a apresentação terminou fui surpreendida pelo meu marido que discretamente se afastara para comprá-lo na lojinha da casa-memorial.

Energia boa circulando, pequenas delicadezas, ali tudo inspira a reforçar os vínculos de um relacionamento amoroso.

Ainda não terminei de ler Jubiabá, mas já estou envolta em sua magia. De lápis em punho sublinho e releio frases que me encantam:

“O silêncio e o sossego desciam de tudo e subiam de tudo”; “com a noite veio um vento grosso, que apertava os homens no pescoço e assoviava nos becos” e a minha favorita, “morreu de morte feia. Nele o olho da piedade vazou. Ficou só o da ruindade. Quando ele morreu o olho da piedade abriu de novo”.

O olho da piedade vazou… O olho da piedade vazou…”, as palavras rolam dentro da boca. Como é possível transformar a falta de compaixão, indiferença, sentimento tão ruim, em algo poético e bonito de se dizer e escutar!

Para os brasileiros, Jorge Amado é um imortal das Letras. Se vivo fosse seria um forte candidato ao prêmio Nobel da Literatura. Com certeza seu legado literário merecia.

 

  • Jubiabá

Jorge Amado

Editora Companhia das Letras

R$ 57,90

 

  • Restaurante Casa de Tereza

R. Odilon Santos, 45

Rio Vermelho – Salvador – BA

Tel. (71) 3329-3016

 

Casa do Rio Vermelho

R. Alagoinhas, 33

Rio Vermelho – Salvador -BA

Tel. (71) 3333-1919

 

 

Novidades & Críticas Literárias

Leonardo & Martha

Se em tempos de vacas magras já não é fácil um autor (a) novato (a) ser publicado no Brasil, imagine em tempos de vacas esquálidas.

Por essa razão parabenizo a editora Oito e Meio que, além de garimpar novos talentos, mostra o caminho das pedras através de cursos on-line como o Carreira Literária.

Recentemente conheci dois novos escritores brasileiros: Leonardo Villa-Forte e Martha Batalha.

Cheguei até ao primeiro quando me inscrevi na 1ª turma do Carreira Literária e quis saber quais eram os autores que faziam parte do catálogo da editora.

Leonardo é autor veterano, já publicou pela Oito e Meio um livro de contos, e no final do ano passado lançou o seu primeiro romance cujo título achei muito bonito: O princípio de ver histórias em todo o lugarFoi esse o livro que eu li.

Ele conta a história de um publicitário que se sente rejeitado pela namorada, quando ela vai fazer um curso no exterior durante três meses. Para tentar esquecê-la e conhecer outras pessoas, decide montar no seu apartamento uma oficina de Criação Literária, mesmo sem ter aptidão para isso.

No decorrer do curso, o professor começa a acreditar que os contos escritos pelos alunos expõem, na verdade, os desejos inconfessáveis de cada um deles. A reunião final do grupo termina de forma surpreendente.

Soube de Martha Batalha através de uma nota que saiu em um jornal paulista. Fiquei curiosa porque a autora apesar ter pertencido ao mundo editorial brasileiro, e na época ter reeditado escritores de qualidade como Millor Fernandes, não conseguiu o apoio de seus pares quando quis publicar o seu primeiro romance.

Só depois de ter os direitos comprados por várias editoras estrangeiras é que a Companhia das Letras percebeu que estava deixando escapar uma boa novidade literária.

A maior parte de A vida invisível de Eurídice Gusmão transcorre nos anos quarenta do século passado na Tijuca, reduto da classe média carioca. De maneira perspicaz e com muito humor a autora narra a jornada das irmãs Eurídice e Guida que não desistem de buscar um sentido para suas vidas, mesmo depois de verem diversos de seus planos e sonhos desfeitos.

Outros personagens gravitam ao redor das duas irmãs e são descritos de forma sucinta e inteligente, como Zélia a vizinha: Do pai ela herdou o gosto pela notícia, da mãe a vida restrita ao lar. Do mundo ganhou desgostos, do destino a falta de escolhas. Formou-se assim a essência da fofoqueira.

Não chego a ser tão entusiasta quanto a jornalista Cora Rónai que considerou “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” como um dos melhores livros que leu este ano. Entretanto, acho totalmente despropositada e injusta a crítica de Camila von Holdefer, publicada no mesmo jornal paulista que me apresentou à autora. Segundo ela, trata-se de um romance opaco e banal. Definitivamente não compartilho com sua opinião!

Quando as pesquisas mais recentes informam que os brasileiros não leem por falta de tempo, gosto e paciência, o comentário mal humorado da colaboradora faz um desserviço aos poucos leitores que procuram conhecer e compram livros de autores brasileiros, principalmente, os novatos.

 

  • O principio de ver histórias em todo lugar

Leonardo Villa-Forte

Editora Oito e Meio

R$ 39,90

  • A vida invisível de Eurídice Gusmão

Martha Batalha

Editora Companhia das Letras

R$ 39,90

E-Book  R$ 27,90

Sempre em movimento – Uma vida

Oliver-SacksNão li nenhum dos livros que fizeram o neurologista Oliver Sacks famoso. Apesar dos títulos curiosos como Tio Tungstênio, Um antropologista em Marte, Com uma perna só e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, nunca me interessei muito pelo tema: patologias neurológicas.

Com um atraso de 25 anos, assisti ao filme Tempo de despertar, no qual Oliver Sacks é representado pelo ator Robin Williams e um de seus pacientes por Robert de Niro. O filme baseou-se no livro do mesmo nome, onde o médico narrou os resultados de uma experiência medicamentosa que fez em 80 pacientes que viviam paralisados e sofriam as sequelas de uma epidemia de encefalite letárgica, também conhecida como doença do sono, que se espalhou pelo mundo no início dos anos 1920.

Aos poucos comecei a prestar atenção nesse médico de barba branca e olhar perspicaz. No final do ano passado, li a carta de despedida que publicou no New York Times, quando soube que estava com um câncer terminal. Ao concluir a leitura estava irremediavelmente encantada por esse velhinho que até o fim se manteve curioso e grato com tudo que aprendeu e viveu.

Logo depois, ganhei de presente seu livro de memórias: Sempre em Movimento – uma vida.  Foram quase quinze dias de leitura e muitas recomendações aos amigos para que fizessem o mesmo.

Recentemente li no jornal Rascunho uma entrevista com o escritor holandês Arnon Grunberg em que ele dizia: “A nossa vida pessoal é um grande material (para criar histórias), o autor só precisa de distância e uma saudável aversão pela auto-censura.”

Pois desse mal o autor não padece. Com a maior naturalidade, comenta as próprias vivências que muitos outros em seu lugar prefeririam esconder. Uma das histórias que mais me impressionou foi a admissão de ter sido responsável, mesmo que involuntariamente, pela derrocada de um querido amigo, ao lhe apresentar drogas pesadas. Drogas que por alguns anos ele também consumiu!

Entre muitas outras lembranças o autor recorda a péssima reação da mãe ao saber que ele era homossexual; as dificuldades em conviver com um irmão esquizofrênico, e a frustração de ter suas idéias para um futuro livro “roubadas” pelo orientador.

Não foi difícil recuperar todas essas memórias porque, desde os 14 anos, o autor mantinha o hábito de escrever um diário. Na última vez que os contou, ele era composto de quase 1.000 cadernos nos mais variados tamanhos e espessuras.

Entretanto, sua verdadeira paixão sempre foi o estudo de distúrbios neurológicos e como eles afetaram a vida de milhares de pessoas.  Síndromes como a Tourette e o autismo ganharam uma visibilidade que até então não possuíam.

Após conhecer o estilo literário de Oliver Sacks, compreendi a razão de seus livros fazerem tanto sucesso. Ao aliar o rigor científico a uma escrita afetuosa e instigante, tornaram-se acessíveis ao grande público. Um público sempre ávido por compreender a linguagem misteriosa dos médicos.

 

  • Sempre em movimento – uma vida

Oliver Sacks

Editora Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,90

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