Uma noite, Markovitch

É fundamental que vendedores de livrarias sejam pessoas que amem os livros, que gostem de ler e saibam o que estão vendendo. Adoro aquelas livrarias onde o vendedor conversa com a gente e dá sugestões, dizendo que leu tal ou tal livro e adorou.” (Heloisa Seixas em O prazer de ler)

É por concordar em gênero, número e grau com essa afirmação que não consigo acreditar que algum dia as livrarias se tornem lugares obsoletos. Para quem gosta de ler, não há nada melhor do que conversar com um vendedor experiente sobre os novos lançamentos. É claro que ele não conseguirá ler todos, mas por estar em contato com um público variado trocará com os clientes indicações preciosas. Como substituir um bom livreiro por um algoritmo que diz: quem comprou este produto também comprou…

Já encontrei vendedores especializados em todos os gêneros, inclusive um que sabia tudo sobre ficção científica. Graças a ele, conheci diversos autores do gênero e pude criar um interessante canal de comunicação com o meu filho, na época ainda adolescente, que me achava totalmente desinformada. Quem disse que a leitura é uma atividade pouco sociável? Uma boa conversa sobre livros cria pontes e conexões com ramificações ilimitadas!

Foi através de uma das “minhas” livreiras favoritas que conheci “Uma noite, Markovitch”, da escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen.

Quando emendo uma leitura na outra, costumo ter certa dificuldade em me adaptar ao estilo do novo escritor. Isso aconteceu bem no início do livro – cheguei a questionar se a indicação não teria sido um equivoco -, mas bastou ultrapassar as primeiras páginas para gradativamente me apaixonar pela história e a maneira de como ela era contada.

A narrativa se passa na Palestina pouco antes e logo depois da formação do Estado de Israel.

Para fugir de uma enrascada amorosa, dois amigos aceitam participar de uma missão arriscada. Retornar à Europa para salvar jovens judias da barbárie nazista. Tudo o que precisam fazer é se casar com elas e as levar para a Palestina. É apenas uma formalidade, mas, no sorteio de quem se casaria com quem, coube ao rapaz mais destituído de carisma e atributos físicos, a mulher mais linda e desejada por todos, e, ele se recusa a conceder o divórcio conforme o combinado.

As tramas paralelas são tão interessantes quanto a principal, e os personagens são intensos, apaixonantes e trágicos. A certa altura me vi sublinhando frases como:

Ele sabia muito bem que o contrário absoluto do amor não era o ódio, e sim a apatia. Durante muitos anos as pessoas o tinham tratado com indiferença. E a indiferença ia subtraindo cada gota de sua existência. Mas o ódio de Bela não só não subtraíra nada de sua existência como a fizera mais presente. Apesar do medo e da preocupação que o assomavam quando pensava em sua casa de pedra na colônia, preferia o ardor do ódio de Bela ao olhar frio e indiferente de todos os outros.

Uma noite, Markovitch”, me surpreendeu e arrebatou. Tornou-se um daqueles títulos que indico com entusiasmo para os amigos.

O que mais posso desejar de um livro?

 

  • Uma noite, Markovitch

Ayelet Gundar-Goshen

Editora Todavia

R$ 64,90

E-book R$ 44,90

O livro certo

2º festival ilustração bahia

Inspiro-me no entusiasmo de quem não dá ouvidos aos maus agouros e executa sonhos e projetos.

Não foi fácil, mas mais uma vez Flávia Bomfim realizou em Salvador o 2º Festival de Ilustração e Literatura da Bahia.

Novos participantes e velhos conhecidos se reuniram para criar um evento alegre, colorido e alto astral.

Apesar de já ter participado dessa mesma oficina há dois anos, eu quis ouvir novamente o ilustrador Odilon de Moraes falar sobre O livro ilustrado no Brasil. Afinal, além de profissional de mão cheia, Odilon é um excelente divulgador do trabalho de seus pares, e sempre tem novidades para apresentar.

A oficina durou um dia inteiro, mas passou num piscar de olhos. Foram muitos os livros apreciados pelos participantes e muitas as informações que recebemos. Nessa longa conversa, Odilon pontuou as influências e a preocupação dos colegas em retratar a diversidade social e cultural do país.

Os-invisiveisNo meio de tantos, pincei um livro publicado em 2013 que aborda com muita sensibilidade um tema complicado: a invisibilidade social. Se o texto de Tino Freitas fala de um menino que possui o super poder de ver pessoas que ninguém mais vê, as ilustrações de Renato Moriconi revelam quem são essas pessoas ignoradas pela sociedade.

Os Invisíveis é um livro que merece ser debatido com as crianças. Quem sabe ele funcione como um pontapé inicial e estimule os pequenos leitores a reverter – num futuro próximo – essa triste realidade.

Mas voltando à oficina, Odilon foi forçado a encerrá-la quando o avisaram sobre a longa a fila que o aguardava  para autografar “Lá e Aqui”.

Trata-se do último livro que ilustrou, e foi feito em parceria com sua mulher Carolina Moreyra. “Lá e Aqui” aborda um outro tema difícil e doloroso para as crianças: A separação dos pais.La-e-aqui

Por vezes a infância pode ser uma época cheia de armadilhas e medos. Felizmente, hoje em dia, não existe assunto ou tema que não possa ser conversado com uma criança. Basta apenas encontrar o livro certo.

 

  • Os Invisíveis

Tino Freitas & Renato Moriconi

Editora Casa da Palavra

R$ 34,90

  • Lá e Aqui

Carolina Moreyra & Odilon Moraes

Editora Zahar (Selo Pequena Zahar)

R$ 39,90

Apenas um ligeiro tremor

No início do mês foi noticiado mais um terremoto no Chile. Na verdade foram dois tremores de terra. O primeiro de magnitude 8,2 na escala Richter, e o segundo, sentido dois dias depois, de menor intensidade. Mas nenhum pode se comparado aquele que aconteceu em fevereiro de 2010, quando morreram 723 pessoas.

Na verdade o ano de 2010 começou muito mal. Em janeiro o frágil e paupérrimo Haiti foi atingido por um abalo sísmico que deixou um rastro de destruição com 300 mil mortos. Até hoje o país não se recuperou dessa tragédia.

A devastação causada por cataclismos naturais costuma ser enorme. Em dezembro o mundo relembrará o tsunami que há dez anos invadiu as praias paradisíacas da Indonésia, destruindo o futuro de muitas famílias que ali se encontravam para comemorar as festas de final de ano.

Guardo comigo a lembrança de acordar, numa longínqua madrugada de inverno, com o matraquear nervoso provocado pela medalha do anjo da guarda, ao se bater freneticamente contra o espaldar da cama. Depois, esta começou a  tremer e minha irmã que dormia na cama ao lado, também acordou assustada. Ouvi gritos no corredor, e nossa mãe entrou no quarto segurando uma vela acessa, porque não só a casa, a rua, mas todo o bairro estavam sem luz. Foi um tremor de terra, o ultimo e o maior sismo que aconteceu em Portugal no séc. XX.

Todos esses eventos aguçaram minha curiosidade e a vontade de ler relatos sobre terremotos, saber como esses momentos de angustia foram percebidos pelos sobreviventes e como conseguiram retomar suas vidas após o cataclismo.

quando-lisboa-tremeuPor isso foi com interesse que comecei a leitura de “Quando Lisboa tremeu – o terremoto histórico de 1755 (…)” de Domingos Amaral. Supus que seria uma boa oportunidade para aprender sobre um período da história de Portugal do qual pouco sei, conhecer melhor a figura controversa e carismática do então secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra – posteriormente Marquês de Pombal, e saber qual foi o impacto dessa catástrofe nas finanças do Estado.

Infelizmente o livro pouco respondeu às minhas perguntas. Com efeito, trata-se de uma boa história de aventuras que se lê com gosto, mas pouco mais oferece. A descrição das catástrofes é muito convincente, tem-se uma noção bem nítida de como tudo deve ter acontecido, mas os personagens parecem saídos de um folhetim. O motivo que levou o futuro marquês a ordenar o fechamento do porto e cercar a cidade de Lisboa – proibindo a entrada e a saída da população – parece piada. Quando vivo Sebastião José de Carvalho e Melo deve ter ouvido muitas mentiras a seu respeito, mas com certeza, se reviraria no túmulo se escutasse mais esta.

Quero com isto dizer que não gostei do livro? Não. Então, que não o darei de presente? Também não é verdade. O que posso dizer é que não o guardarei na estante.

 

  • Quando Lisboa tremeu 

Domingos Amaral

Editora Casa da Palavra

R$ 53,00

 

Insisti e não gostei

“Alguns livros são do tipo que, quando você larga, não consegue pegar mais” – Millor Fernandes *

Compra-se um livro por indicação da resenha lida no jornal, por recomendação de amigo, porque a capa é atraente. Compra-se um livro por tantos motivos…

Mas depois de ler umas três a quatro páginas percebe-se que a leitura não flui. Talvez este não seja o momento certo de lê-lo, pensamos. Não dizem que o livro escolhe a hora e o leitor?

Passado um tempo dá-se lhe uma nova chance, e nada. Mas foi tão recomendado, tão elogiado…  Como é possível que sua leitura só provoque um imenso tédio e desinteresse?

Juro que tentei, mas não consegui chegar à metade de dois livros que receberam excelentes críticas, inclusive de pessoas com quem gosto de trocar opiniões sobre o que estão lendo. São eles “A elegância do ouriço” e “A lebre com olhos de âmbar”.

Percebo o meu desapontamento, não desfrutarei o que essas leituras oferecem e que foram imensamente prazerosas para leitores cujas opiniões respeito. Não poderemos comentar sobre as ideias que surgiram, falar sobre os personagens que nos mobilizaram. Serei responsável pelo fim precoce de uma conversa que apenas se iniciava. Sem opção, simplesmente direi “não gostei”.

Não sou daquelas pessoas que querem sempre acertar de primeira nas escolhas que fazem. Se vamos ao cinema e não gostamos do filme, se vamos a um restaurante e não apreciamos o prato escolhido, por que então teríamos que acertar sempre na compra de um livro?

O que me consola é saber que  também há aqueles que desdenham a trilogia “Millenium” de Stieg Larsson e não fazem a menor ideia do que estão perdendo.

* “Frases para guardar

Marcel Souto Maior

Casa da Palavra

R$ 19,90

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