O poder dos Quietos

Fugi por completo ao meu estilo habitual de leitura e li O poder dos Quietos, de Susan Cain. A mudança não poderia ter sido mais estimulante e instrutiva.

Estamos tão habituados a admirar pessoas extrovertidas que nos esquecemos que esse comportamento nem sempre foi o mais apreciado.

Até o início do século passado, os atributos que valorizavam uma pessoa eram os de ordem moral: honradez, disciplina, altruísmo e modéstia.  Se a pessoa era atraente, simpática ou divertida era irrelevante. O importante era o seu caráter e como se comportava na vida privada.

Então, como chegamos a uma sociedade que se importa mais com as aparências e ignora por completo o ditado popular que diz “o hábito não faz o monge”?

O responsável por esta revolução de costumes foi um norte-americano, nascido na segunda metade do século XIX, chamado Dale Carnegie. Ele adaptou as técnicas de uma boa oratória – utilizada por pastores religiosos – a um novo grupo profissional que começava a ganhar cada vez mais importância, o dos vendedores. Não satisfeito, tornou essas mesmas habilidades essenciais não só nas relações profissionais como também nas pessoais. A sensibilidade, discrição e a introspecção passaram a ser características pouco valorizadas, e outras como a desenvoltura, confiança, simpatia e a boa aparência tornam-se fundamentais para vencer e ser alguém na vida.

Em seu livro O poder dos quietos a autora reúne de maneira interessante diversas entrevistas com psicólogos, executivos, professores e histórias familiares verídicas, procurando mostrar que não há nada de errado em ser extrovertido se esse é realmente o seu temperamento, a sua verdadeira natureza. O problema é quando não se valorizam as qualidades de mais de um terço da população mundial que possui um temperamento oposto. Ao engessar maneiras de sentir e estar na vida, criam-se sofrimentos desnecessários e perdem-se ótimas oportunidades de crescimento não só pessoal, como profissional e corporativo.

O fundamental é se sentir feliz na própria pele, fazendo o que se gosta de acordo com as características do próprio temperamento e sem precisar se enquadrar em um único modelo comportamental pré-determinado para ser aceito e respeitado.

 

  • O poder dos Quietos

Susan Cain

Editora Agir

R$ 32,90

também disponível em E-book

 

Para quem quiser saber um pouco mais sobre o tema, recomendo a palestra de Susan Cain.

A Bibliotecária de Auschwitz

A-bibliotecaria-de-auschwitzTenho a impressão de caminhar por tempos estranhos, em que a desfaçatez e o egoísmo chegaram para reinar definitivamente.

Quando esse sentimento parece me dominar, procuro refúgio na leitura de relatos inspiradores de homens e mulheres, que apesar das enormes adversidades por que passaram, conseguiram manter acessa a frágil chama de sua humanidade. Vidas como a de Dita Dorachova personagem do romance A Bibliotecária de Auschwitz.

Antonio G. Iturbe, o autor deste livro, não pretendia escrever sobre os horrores do Holocausto, mas quando terminou de ler A biblioteca à noite de Albert Menguel, quis saber mais sobre a minúscula biblioteca que existiu dentro de um campo de concentração em Auschwitz.

Suas pesquisas o levaram até à verdadeira bibliotecária – atualmente uma senhora octogenária morando em Israel – que à época dos fatos relatados era uma adolescente de 14 anos.

Dita Dorachova foi responsável por cuidar de oito preciosos livros em papel que circulavam clandestinamente no pavilhão 31 (um atlas estropiado, um tratado de geometria, Uma breve história do mundo de H. G. Wells, uma gramática russa, um romance em francês, um compêndio de psicanálise e um romance tcheco considerado escandaloso pelos adultos).

Além desses existiam outros, os chamados livros “vivos”.  Na verdade pessoas que conheciam tão profundamente uma história que podiam repeti-la todas as vezes que um professor solicitasse a sua “leitura”.

O pavilhão 31 serviu como fachada “humanitária” dos nazistas. Enquanto os pais trabalhavam era ali que se amontoavam, durante o dia, mais de 500 crianças. Monitores procuravam tranquilizá-las, improvisando uma rotina de estudos e brincadeiras.

“Os livros alinhados formam uma fileira minúscula, um modesto desfile de veteranos. Nos últimos meses, porém, conseguiram que centenas de crianças passeassem pela geografia do mundo, aproximassem-se da história e aprendem-se matemática. E adentrassem os caminhos sinuosos da ficção, multiplicando suas vidas. Nada mau para um punhado de livros velhos.”

O medo de ser descoberta era companheiro constante de Dita. A posse de qualquer livro, por mais inofensivo que fosse, equivalia a uma sentença de morte.  Imagine, então, o que poderia acontecer com quem fosse responsável por tomar conta de oito!

Ela reconhecia a força que a leitura tinha na vida dessas crianças, porque também a vivenciava. Os livros a faziam imaginar outros lugares, viajar para outros tempos, enfim fugir dali!

Mas se as leituras podiam ser inspiradoras e reconfortantes também eram perturbadoras e revolucionárias. Não é que aquele romance tcheco considerado por muitos como indecente e escandaloso conseguiu fazê-la rir, e, ao mesmo tempo, denunciou a estupidez de todas as guerras?

A Bibliotecária de Auschwitz é uma belíssima homenagem ao poder redentor encontrado nos livros, e a seus defensores – autênticos heróis anônimos que os protegeram até às ultimas consequências.

“Se o homem não se emociona coma beleza, se não fecha os olhos e põe em funcionamento os mecanismos da imaginação, se não é capaz de fazer perguntas e vislumbrar os limites de sua ignorância, é homem ou mulher, mas não é pessoa”.

 

  • A Bibliotecária de Auschwitz

Antonio G.Iturbe

Editora Agir

R$ 39,90

E-book R$ 27,40

Bordados e Casamentos

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Aconteceu de novo! Mais uma vez fui seduzida pela capa e o título de um livro. Como se tivessem sido marcadas a fogo, letras garrafais vermelhas alardeiam uma verdade difícil de aceitar: A VIDA NÃO É JUSTA.

Embaixo do título vê-se o contorno de um casal bordado em linha marrom. O homem passa o braço sobre os ombros da mulher que caminha cabisbaixa. É possível que a esteja beijando ou talvez tentando consolá-la.  Do bordado saem fios repuxados em várias direções que, com certeza, terminarão por desfazer o desenho.

O livro, apesar de não o ser mais, está exposto entre lançamentos. Folheio-o um tanto distraída, mas aos poucos me detenho para ler uma frase, depois outra e mais outra.

Nunca aprendera que duas angústias silenciosas apodrecem as almas e contaminam, de forma devastadora, qualquer vida em comum. Sobra o deserto. E o silêncio”.

Deve ser verdade que a paixão priva os sentidos. Não fosse isso, como seria possível que alguém prometesse ao outro fidelidade, amor, todos os dias da vida, até a morte?”

Andréa Pachá, a autora do livro, é juíza de Família. Em sua sala escuta um pouco de tudo, quer seja o fim de um sonho idealizado a dois, ou o reconhecimento de laços de parentesco, até então indesejados ou desconhecidos. Mas, e ainda bem, eventualmente presencia e comemora outras histórias de vida, que falam de reconciliações e recomeços.

Mesmo que ao terminar uma ou outra crônica o leitor possa ficar com um travo amargo na boca, a vontade de prosseguir com a leitura não arrefece, tal é a delicadeza e sensibilidade com que Andréa conta as histórias que chegaram até ela por empréstimo.

Gostaria de acreditar que uma relação sentimental pode ser comparada a um bordado. A cada dia, ou ano que passa, novos pontos são dados com segurança e maestria, sempre tomando cuidado para não arreganhar o tecido. Se o desenho não estiver bonito, desfaz-se alguns para que eles não estraguem o que foi costurado até agora. Se a cor utilizada torna o conjunto monótono, outros tons podem e devem ser acrescentados. Casamentos assim como os bordados, construídos com carinho e paciência, deveriam ser para toda a vida. Infelizmente, a vida não é justa.

 

  • A vida não é justa

Andréa Pachá

Editora Agir

R$ 29,90

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