O homem que plantava árvores

Impossível não lembrar de Sebastião Salgado quando se lê o conto O homem que plantava árvores, de Jean Giono.

Assim como o personagem principal do livro, que saiu plantando árvores de espécies diferentes numa região inóspita no sul da França, o famoso fotógrafo brasileiro também reflorestou a propriedade que herdou do pai em Minas Gerais.

Ambos chamaram para si essa tarefa – que aos olhos de muitos parecia impossível -, sem esperar que as autoridades governamentais tomassem as providências necessárias que a elas competia.

O homem que plantava árvores foi escrito em 1953 quando a Europa ainda tentava compreender como tamanha barbaridade pudera acontecer em nome de… Em nome do quê mesmo?

Um sentimento amargo contaminava o espírito daqueles que haviam sobrevivido a duas guerras mundiais tão próximas uma da outra. Definitivamente, a raça humana estava condenada a se autodestruir.

Aí surgiu um livrinho despretensioso, de não mais de quatro mil palavras, que rapidamente se tornou um sucesso mundial. Ele contava a história de um pastor de ovelhas que sozinho recuperou uma região quase deserta. Sem esperar aplausos ou reconhecimento, fez o que achava ser necessário.  A sua atitude modificou não só toda a paisagem de um vale, como deu qualidade de vida aos habitantes desse lugar.

Recentemente voltei a pensar nesse pastor quando aceitei o convite da professora Sergiane para participar das comemorações da semana do Livro Infantil, realizadas na Escola Municipal Embaixador Dias Carneiro.

Eu a conheci no início do ano quando fizemos uma oficina com Francisco Gregório Filho sobre a arte de contar histórias. As aulas aconteciam no final do dia e eram ministradas bem longe de onde ela morava. Lembro que me imaginei no seu lugar e tive a certeza de que jamais teria a determinação para enfrentar, entre idas e vindas, duas horas dentro de um transporte público sujeito a atrasos e assaltos.

O entusiasmo dessa profissional contagiou-me, e assim, em uma manhã ensolarada, consultei o Waze e fui desbravar o bairro do Tanque, localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A fachada externa da escola bem que merecia uma pintura, mas lá dentro encontrei corredores limpos e uma sala de leitura com as estantes organizadas. Minha colega de curso é a responsável pela sala e procura mantê-la atualizada com novos lançamentos, mesmo que, para isso, eventualmente precise pagar do próprio bolso. Ela também promove jogos e cirandas, convida escritores e contadores de histórias para conversar com as crianças, e está sempre se reciclando em busca de novidades.

É bem possível que assim como o trabalho do anônimo pastor não foi reconhecido, o mesmo aconteça com o da professora Sergiane.  Muitos irão dizer que ela não faz mais do que a sua obrigação. Talvez seja verdade. Mas quando se vê tanto descaso para com a Educação, é bom encontrar alguém perseverante que forma futuros leitores com tanta paixão. Obrigada professora Sergiane por me mostrar que nem tudo está perdido.

 

  • O homem que plantava árvores

Jean Giono

Editora 34

R$ 49,00

A verdade sobre o caso Harry Quebert

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“Um livro que será celebrado e estudado por futuros escritores!”

“Depois de A verdade sobre o caso Harry Quebert a literatura contemporânea nunca mais será a mesma. Veredito: Summa cum laude*”

O que esperar de um livro que recebe críticas como essas, e fica entre os quatro (eu disse quatro!) finalistas do prestigiadíssimo prêmio literário francês, o Goncourt de 2012, que já premiou escritores como Marguerite Duras, Michel Houellebecq, e Patrick Modiano vencedor do prêmio Nobel de Literatura deste ano?

Não é de estranhar que as minhas expectativas fossem as maiores possíveis, quando comecei a ler A verdade sobre o caso Harry Quebert de Joël Dicker.

Desde o início sabia que  tinha em mãos um livro de suspense. A história de um amor impossível entre um escritor de trinta e poucos anos e uma adolescente; o desaparecimento dessa mesma garota vista pela ultima vez sendo perseguida por um homem não identificado. Trinta e três anos depois sua ossada aparece enterrada no jardim desse escritor. Apesar de jurar inocência, ele se torna o principal suspeito e é massacrado pela mídia. É aí que entra o personagem principal do livro, um ex-aluno seu e famoso escritor que está enfrentando uma severa crise de bloqueio criativo. Mesmo correndo risco de vida, ele fará de tudo para descobrir o verdadeiro assassino.

A história começou muito bem, mas logo minhas expectativas sofreram algumas reviravoltas, tantas quantas as narradas na trama do livro.

Afinal como era possível alguém se apaixonar por uma menina tão chatinha e grudenta? E o que dizer dos outros personagens: O advogado incompetente e sem noção, a mãe judia verborrágica, o editor caricato e mercenário?  Assim mesmo, eu continuava agarrada na leitura do livro – como se estivesse andando numa montanha russa – com seus altos e baixos, mas me divertindo muito!

E é isso que A verdade sobre o caso Harry Quebert realmente é, pura diversão! Eu é que colocara expectativas demais, me deixara levar pelas críticas, pelos prêmios e sabe lá mais o quê.

Valeu a pena? Claro! Daria de presente? Com certeza! Inclusive é perfeito para ler nas férias de verão que se aproximam.

Meu único conselho é, não se impressione com as avaliações excessivamente elogiosas. Considerar como “magistral” ou “Um thriller que lembra o melhor de Truman Capote”, é com certeza um grande exagero.

Como curiosidade, em 2012 o vencedor do prêmio Goncourt foi Jérôme Ferrari com O sermão sobre a queda de Roma já publicado no Brasil pela Editora 34, e que corre o sério risco de entrar na lista: “Livros que lerei um dia”.

 

* Frase em latim que quer dizer Com a Maior das Honras. Representa a maior distinção e o reconhecimento por obter a máxima qualificação possível em uma titulação universitária, especialmente nos níveis do mestrado ou doutorado.

 

  • A verdade sobre o caso Harry Quebert

Joël Dicker

Editora Intrínseca

R$ 39,90

E-Book R$ 24,90

 

  • O sermão sobre a queda de Roma

Jérôme Ferrari

Editora 34

R$ 42,00

Para Antonio, que ainda vai nascer

Antonio-Beatriz-BracherSe o intuito fosse apenas escandalizar diria que o livro Antonio conta a histórias de dois homens – pai e filho – que, distanciados no tempo, amaram e engravidaram a mesma mulher.

No entanto se o fizesse, estaria aviltando e cometendo uma injustiça para com o belo romance da escritora Beatriz Bracher.

Tanto o pai Xavier quanto o filho Theo, cada um na sua época, não se conformaram com os convencionais destinos familiares, que supostamente deveriam acatar. Ao trilharem as próprias escolhas terminam por mergulhar na loucura.

“Supunham que a loucura e a miséria não carregam em si a capacidade de destruir o que encontram pela frente. Eram tão especiais e superiores que podiam brincar de pobres e loucos.”

Será pensando no futuro do filho Antonio, prestes a nascer, que Benjamim irá procurar saber quem realmente foi seu avô, seu pai e a mulher que alteraria para sempre o caminho dos dois, aquela que seria também a sua mãe.

Os três já morreram, mas ressurgem fortes e complexos ao serem evocados nas lembranças de Haroldo e Raul – respectivamente os melhores amigos do avô e do pai – e nas recordações de Isabel, a mulher de Xavier e mãe de Theo.

Antonio é um livro enxuto, onde cada frase diz muito sobre as intrincadas relações familiares. Um livro que fala da busca de dois homens pela própria, a única Verdade, mesmo que o preço final seja inglório e fira profundamente quem inadvertidamente se aproximou do fogo insano da loucura.

“A vida nos machuca tanto de uma forma ou de outra, que acabamos nos transformando em seres inevitavelmente menores do que a juventude nos promete.”

 

Em 2007 este romance de Beatriz Bracher ficou em 3º lugar no Prêmio Jabuti na categoria Romance, e em 2º lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

 

  • Antonio

Beatriz Bracher

Editora 34

R$ 35,00

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