Desejo-te tempo

Moro no Brasil há muito tempo, e, como era de se esperar, as amizades que fiz na época em que estudei em Sintra esvaíram-se com o passar dos anos. No entanto, uma permaneceu. A bem da verdade, durante um longo período perdemos o rastro uma da outra, mas graças às redes sociais voltamos a nos aproximar. É uma amizade persistente: desde que saí de Portugal, só nos vimos duas vezes, sendo que a última foi há vinte anos. Mesmo assim, aproveitamos todo final de ano para pôr as novidades em dia, desejarmos, uma à outra, Boas Festas e nos parabenizarmos pelos respectivos aniversários.

Conheci a Isabel na terceira classe. Quantos anos teríamos: 8-9 anos? Ela entrou no meio do ano letivo, e como boas sagitarianas logo começamos a conversar. Descobrimos que, em comum, gostávamos muito de ler. Na época, nossa escritora favorita era Enid Blyton e sonhávamos em viver grandes aventuras. Há uns anos, Isabel apresentou-me à escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Uma extraordinária contadora de histórias que, nos seus livros, luta pela emancipação feminina, denuncia a desvalorização da cultura africana e o preconceito racial.

Desta vez, o e-mail veio acompanhado de uma bonita poesia, perfeita para dar as boas vindas ao ano que agora se inicia. Seu autor seria o escritor português José Régio. Entretanto, ao pesquisar na internet para conhecê-lo melhor, descobri que lhe atribuem erroneamente a composição. O verdadeiro autor de Desejo-te tempo é a escritora alemã Elli Michler.

Independentemente de quem o escreveu é um belo poema. Obrigada, Isabel por, mais uma vez, me apresentares a algo que não conhecia.


“Não te desejo um presente qualquer,
Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem.
Desejo-te tempo, para te divertires e para sorrir;
Desejo-te tempo para que os obstáculos sejam sempre superados
E muitos sucessos comemorados.
Desejo-te tempo, para planear e realizar,
Não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr,
Desejo-te tempo para te encontrares,
Desejo-te tempo, não só para passar ou vê-lo no relógio,
Tempo para te encantares e tempo para confiares em alguém.
Desejo-te tempo para tocares as estrelas,
E tempo para crescer e amadurecer.
Desejo-te tempo para aprender e acertar,
Tempo para recomeçar, se fracassares…
Desejo-te tempo, para ter novas esperanças e para amar.
Não faz mais sentido protelar.
Desejo-te tempo para ser feliz.
Para viver cada dia, cada hora como um presente.
Desejo-te tempo, tempo para a vida.
Desejo-te tempo.
Tempo.
Muito tempo!”

Histórias de migrações

Quando terminei de ler Terra Americana fiquei interessada em conhecer outras histórias de migrantes. Ao procurar por sugestões constatei que já tinha lido algumas.

Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e Aqui estão os sonhadores da escritora camaronense Imbolo Mbue.

O primeiro conta a história de uma jovem nigeriana, Ifemelu, que emigra para os Estados Unidos para cursar uma universidade. O romance acompanha a vida de Ifemelu nos dois países, e narra a sua história de amor com Obinze, colega de colégio.

O segundo livro relata as experiências de duas famílias na cidade de Nova York durante a crise financeira de 2008: uma família de imigrantes dos Camarões, a família Jonga, e a de seus empregadores ricos, a família Edwards.

Os dois livros receberam comentários no blog e podem ser acessados clicando em cima do título.

Li também O retorno da escritora Dulce Maria Cardoso. Apesar de não se tratar de uma migração propriamente dita – quem deseja entrar no país não são estrangeiros, mas nacionais nascidos num outro continente -, os recém-chegados são recebidos com desconfiança e hostilidade. São portugueses fugidos das ex-colonias e chegam aos milhares na metrópole. Recebem o nome de os retornados, mas poderiam também ser chamados de os indesejados. O livro é impactante, como tudo o que escreve a minha escritora portuguesa favorita.

Puxei pela memória e lembrei de O clube da Felicidade e da Sorte da escritora norte-americana Amy Tan, filha de imigrantes chineses.

É uma pena que o livro só possa ser encontrado em sebos, porque, tenho certeza, uma nova geração de leitores se encantaria com a história das quatro mulheres chinesas que emigraram para os EUA na década de 40. Elas refizeram suas vidas em São Francisco e para não esquecer as tradições da terra natal e poder repassá-las às filhas (para quem os únicos valores que importam são os do ‘american way of life’), se reúnem semanalmente em torno de uma mesa de mahjong. Está criado assim ”O clube da felicidade e da sorte”.

Na estante, encontrei um outro livro maravilhoso, Buda no Sótão da escritora Julie Otsuka. Ele conta os sonhos de mulheres que deixaram o Japão para se casar com desconhecidos nos EUA. A narrativa narra o choque inicial dessas mulheres ao chegarem a São Francisco na década de 1910, o nascimento e criação dos filhos, que não se interessam pela cultura de seus pais, e, por fim, a deportação de famílias inteiras para campos de exclusão. Este fato aconteceu depois que a base militar norte-americana Pearl Harbour foi bombardeada pelos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial.

O mundo atual não está nem um pouco acolhedor para aqueles que precisam recomeçar a vida em outro país. Será que se conhecêssemos suas histórias seríamos mais tolerantes? Será que a literatura tem o poder de construir pontes de empatia? Tomara que sim.

 

Hibisco Roxo

Às vezes, quando leio um livro que gosto e considero importante, me imagino sugerindo-o como leitura para alunos do Ensino Médio. Como ficaria mais fácil estudar as questões sociais se, em vez de serem apresentadas nos livros didáticos, elas fossem debatidas em leituras ou filmes estimulantes! Certamente Hibisco Roxo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie faria parte da lista.
A autora conta a história de Kambili, uma adolescente de 15 anos. Ela é filha do proprietário do único jornal, que corajosamente enfrenta os governantes corruptos do país. Kambili se orgulha do pai, cujo destemor o torna uma figura pública admirada e respeitada. Entretanto, ele possui outro lado, conhecido apenas pelos mais íntimos, que o torna um homem temido e assustador. Dos parentes que questionam o seu comportamento tirânico, ele mantém uma distancia cerimoniosa, quando não os exclui definitivamente do convívio mais próximo.
O enredo toca em questões espinhosas como o fanatismo religioso, a corrupção dos políticos e o total descaso das autoridades para com a educação e a saúde. Temas que assombram não só a Nigéria mas também o Brasil. Em certo momento da história – ao procurar uma solução no estrangeiro para a falta de oportunidades profissionais – a tia de Kambili desabafa:
“Os que estudaram vão embora, aqueles que têm potencial para consertar o que está errado. Eles deixam os fracos para trás. Os tiranos continuam reinando porque os fracos não conseguem resistir. Você não vê que é um círculo vicioso? Quem vai quebrar esse círculo?”
O comentário soou-me tristemente familiar.
Mas para mim, o que fez de Hibisco Roxo um livro especial, a ponto de querer indicá-lo para os adolescentes, foi não só porque aborda temas que fazem parte do nosso cotidiano, mas também porque debate outro assunto extremamente sofrido: a violência doméstica.
Não estou falando da violência boçal, fruto da ignorância, mas daquela disfarçada em boas intenções, que não distingue gênero, cor da pele ou status social, e se perpetua de geração em geração ao se confundir com o ato de educar: “Eu te castigo porque te amo”.
O livro de Chimamanda Ngozi Adichie dá voz a todos que se calam por vergonha ou medo.

 

  • Hibisco Roxo

Chimamanda Ngozi Adichie

Editora Companhia das Letras

R$ 44,90

E-book R$ 29,90

Americanah

AmericanahJá tinha escutado diversos comentários elogiosos a esta escritora, mas na sua frente sempre passava a leitura de outro autor, depois outro e mais outro, e assim, Chimamanda Ngozi Adichie acabava por ficar em um dos últimos lugares na longa lista de autores que pretendo ler um dia.

Finalmente, decidi que nada iria se interpor à leitura de Americanah e, com vontade, mergulhei nas suas 514 páginas. Não me arrependi.

A trama do livro gira em torno de Ifemelu, uma jovem nigeriana, apaixonada por Obinze , que no final da década de 90 emigra para os EUA para concluir os estudos universitários.  A Nigéria vive sob uma ditadura militar, a educação está um caos e os professores entram constantemente em greve para receber os salários atrasados. Se Ifemelu consegue facilmente um visto, a mesma sorte não tem Obinze. Por medo do terrorismo, os americanos ficaram mais exigentes em emitir vistos para jovens estrangeiros, principalmente aqueles oriundos de países onde a religião muçulmana é predominante.

O choque cultural é grande, mas o que mais a incomoda é o racismo mal disfarçado. A cor de sua pele que, até então, nunca fora um problema, a coloca em uma categoria bem definida e desfavorável.

Para expressar seu inconformismo, Ifamelu escreve um blog onde comenta as nuances de tratamento e as diferentes oportunidades que existem para os negros africanos e os negros americanos.

(…) Existe uma hierarquia de raça nos EUA. Os brancos estão sempre no topo, especialmente os brancos de família anglo-saxã e protestante, conhecidos como WASP, e os negros sempre estão no nível mais baixo, enquanto o que está no meio depende do tempo e lugar (ou como dizem aqueles versos maravilhosos: ”se você é branco, tudo bem; se você é marrom, fique por aí; se você é negro volte para casa!”). (…)

Após 13 anos sem visitar a Nigéria, são tantas as saudades que Ifemelu decide voltar definitivamente para casa. Mas, mais uma vez, a adaptação não é fácil. O machismo; a preocupação em ostentar riqueza – não importando como foi obtida; a falta de opções para as mulheres fora de um casamento com um “bom partido”, tudo isso a incomoda profundamente. Não é que ela tenha voltado uma Americanah (termo pejorativo para quem volta do estrangeiro criticando tudo à sua volta), mas, definitivamente, ela não é mais a mesma. A única coisa que não mudou é o sentimento que sente por Obinze, o grande amor de sua vida, de quem se afastou nos últimos anos.

Americanah é um livro que se lê com gosto. A leitura flui ao mesmo tempo em que leva o leitor a refletir sobre temas tão diversos como o que é ser emigrante, a obrigação de alisar o cabelo e a irracionalidade do racismo.

Por mais que seja impossível uma pessoa de pele clara “calçar os sapatos” de outra de pele mais escura, é importante que a escute e a perceba. Para que, de uma vez por todas, se compreenda que julgar as competências ou o caráter de uma pessoa pela cor de sua pele ou pela textura de seu cabelo não faz o menor sentido e é uma completa e total estupidez.

 

Vencedor do National Book Critics Circle Award.
Eleito um dos 10 melhores livros do ano pela NYT Book Review.
Direitos para cinema comprados por Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Doze anos de escravidão.

 

  • Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie

Editora Companhia das Letras

R$ 54,00

R$ 38,00 (E-Book)

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