Pertinho de casa

Se o leitor acompanha as notícias do Rio de Janeiro com certeza está a par do caos que aconteceu durante este último Carnaval. Precavida, não quis pagar para ver, e com receio de não poder entrar ou sair de casa – a não ser que me fantasiasse e participasse de um bloco de rua – rumei com meu marido na sexta-feira de Carnaval para Penedo a 175 km da capital.

Depois de uma viagem que demorou mais do que o previsto por conta de um engarrafamento infernal na saída do Rio, atravessamos o portal da cidade de Penedo. Rodamos algumas centenas de metros, viramos à esquerda numa pontezinha estreita pintada de branco, e chegamos à pousada localizada no final de uma rua tranqüila e sem saída.

O gerente recebeu-nos com um largo sorriso e recomendou diversos restaurantes onde poderíamos almoçar, visto que, assim como a maioria dos estabelecimentos hoteleiros de Penedo, a pousada só oferecia café da manhã.

Para não correr o risco de voltarmos para casa no final do feriado com as roupas apertadas – conseqüência inevitável das deliciosas trutas, salsichões, batatas rosti, chocolates, bolos e cervejas artesanais que degustamos -, depois das refeições caminhávamos pelo centrinho da cidade. Fiquei encantada ao notar que temporariamente as mazelas do Rio haviam ficado para trás. Exceto por um intenso trânsito na rua principal da cidade, não se viam sinais de miséria e as ruas estavam todas limpas e cuidadas.

Nossos passeios não se restringiram apenas a Penedo e exploramos Visconde de Mauá e arredores. Felizmente a pequeníssima vila que havíamos visitado há mais de vinte e cinco anos, não tinha perdido a atmosfera bucólica e “bicho grilo” de antigamente.

Bem ao lado da Casa dos Beatles (um pub muito simpático decorado com itens que homenageiam a banda de Liverpool) acontecia uma feirinha de produtos orgânicos, onde comprei uma granola salgada. (Assim que voltei ao Rio espalhei uma colherada sobre a primeira de muitas sopas de dieta, e a granola transformou o meu insosso creme de abóbora em uma iguaria deliciosa.)

Continuando o reconhecimento da região, seguimos por uma estradinha de terra à procura das cachoeiras do Vale do Alcantilado. Durante o trajeto cruzamos com pouquíssimos carros. Ao chegar surpreendemo-nos por encontrar um turismo organizado com muitos visitantes. Ao todo são nove cachoeiras localizadas dentro de uma propriedade particular e para visitá-las é preciso pagar uma taxa de manutenção.

Apesar de alcantilado significar escarpado, íngreme, a visita não exige equipamento ou calçados especiais. Apenas é preciso ter fôlego para subir, subir, subir… No caminho encontramos senhoras de sapatilhas, chinelos, e um casal com um bebê de colo. Para facilitar o acesso às cachoeiras, o proprietário instalou cordas e corrimãos nos trechos mais escorregadios e instáveis. Depois era só relaxar e aproveitar a boa energia das águas correntes e refrescantes.

No dia seguinte aproveitamos a proximidade do Parque Nacional de Itatiaia e fomos conhecê-lo.

Influenciada pela recente leitura de “Meu querido canibal” do escritor baiano Antonio Torres, a cada curva da estrada imaginava ver índios tubinambás se movendo por entre as arvores e cipós da cerrada Mata Atlântica.

Desta vez, visitamos apenas algumas cachoeiras localizadas na parte baixa do parque. Ao descer em direção à saída reparamos numa pequenina placa que dizia ateliê dos artistas.  Como continuávamos imbuídos de intenções exploratórias fomos procurá-los.

O carro subiu outra estrada quase paralela aquela que acabáramos de descer. Como não sabíamos quantos ateliês existiam ao todo, passamos pelo primeiro, depois pelo segundo até que a estrada acabou.  Ao longe se via a construção abandonada do outrora movimentado Hotel Simon. Fizemos meia volta e paramos no primeiro ateliê.

Fomos recebidos por Christian Spencer, um tranqüilo australiano que nos mostrou as suas obras mais recentes. Quadros grandes pintados em acrílico e executados com pinceladas numerosas e curtas. A maioria representando a amplidão territorial do seu país natal. Um em especial agradou-me: a tela estava toda preenchida por muitas penas nos tons de laranja, preto e branco. Essas penas são a única parte colorida das cacatuas pretas de cauda vermelha, uma ave típica da Austrália.

Christian nos contou que morava ali com a mulher. O ateliê do casal era a primeira casa pela qual havíamos passado, e onde ela se encontrava no momento. Às pessoas que se surpreendiam por morarem tão isolados, costumava dizer que quando se tem “olhos de ver” a mata todo dia presenteia com uma novidade. Como o voo de um raro beija-flor de bico curvo, que ele observara nessa mesma manhã.

A conversa estava boa, mas queríamos ainda visitar a sua companheira e artista plástica brasileira, Tatiana Clauzet. Ela nos recebeu no ateliê de janelas amplas, onde soberana reinava uma espaçosa mesa de trabalho. Sobre ela estava preso um desenho inacabado, e, em perfeita ordem, enfileiravam-se godês com amostras de tintas aquareladas e vários pincéis de tamanhos e cerdas diferentes.

Apesar de ambos retratarem nas suas obras a paixão que têm pela natureza, os estilos artísticos não poderiam ser mais diferentes. Enquanto as pinturas de Christian parecem não caber na tela, as de Tatiana são mais delimitadas, desenvolvidas em cores chapadas e formas mais geométricas. Encantei-me por seus retratos da fauna brasileira.

Ao flanar pelo ateliê, encontrei dois DVD’s dirigidos por Christian que estavam à venda: Cerrado – além da névoa e A dança do tempo que foi premiado em festivais internacionais.  Além dos quadros e gravuras o visitante podia comprar cartões com desenhos de animais e dois livros ilustrados pela Tatiana. O livro infantil Bichos de Cá, publicado em 2014 Bamboo Editorial, fez por um instante meus olhos brilharem gulosos.

No entanto, logo em seguida, lembrei que conscientemente tinha deixado o cartão de credito no quarto da pousada, certa de que não iria usá-lo no passeio. Uma pequena frustração que em nada ofuscou o prazer que tive em conhecer o trabalho e os artistas que souberam abrir mão das tentações dos centros urbanos.

Regressamos ao Rio na quarta-feira de Cinzas. Nos dias que se seguiram meu animo esteve elevado, feliz por ter encontrado tão perto de casa, lugares onde a preservação da natureza fala mais alto e é possível encontrar um turismo com qualidade.

Instruções para os criados

instruções-para-os-criadosO azedume que ultimamente tem contaminado os relacionamentos sócio-políticos brasileiros chegou ao irreverente Carnaval. Enquanto o politicamente correto tenta abolir algumas marchinhas consagradas, alegando serem racistas, homofóbicas e degradantes às mulheres, escuta-se e dança-se o funk “Deu onda” em todo o lugar. Fazer o quê? Gosto não se discute, lamenta-se.

Como antídoto à rabugice baixo astral, sugiro a leitura de Instruções para os criados escrito por Jonathan Swift, em 1731.

Encontrei esse pequenino livro enquanto zanzava pela livraria do shopping. Despreocupada, li uma ou outra frase e comecei a rir sozinha. Os conselhos oferecidos não poderiam ser mais estapafúrdios:

“Ao cometer algum erro, seja sempre atrevido e insolente, e comporte-se como se você mesmo tivesse sido ofendido, assim o senhor ou senhora perderá o ímpeto (de repreendê-lo).”

“Nunca use meias ao servir uma refeição (…), além de a maioria das senhoras gostar do cheiro dos dedos dos pés dos jovens, isso é um excelente remédio para a melancolia.”

“Se uma criança estiver doente, dê-lhe o que ela quiser comer ou beber, mesmo que tenha sido proibido pelo médico, pois o que desejamos na doença nos faz bem, e jogue o remédio pela janela, assim a criança a amará mais, mas ordene que ela não conte.”

O livro escrito em 1731 é um manual nada convencional de como mordomos, lacaios, cocheiros, governantas, lavadeiras, preceptoras, cozinheiras, porteiros, criadas de quarto – e quem mais fosse essencial para cuidar de uma casa – deveriam se comportar no ambiente de trabalho. Uma tática de guerrilha esdrúxula, mas eficiente para tirar a paz de espírito da preguiçosa e a insensível classe patronal.

Se as marchinhas merecem críticas, é preciso antes de mais nada contextualizá-las no tempo e no espaço em que foram compostas, da mesma forma que o livro de Swift não pode ser lido ao pé da letra, mas visto como uma crítica ao sistema social da época. Promover qualquer comportamento preconceituoso é tão impensável quanto imaginar que os empregados seguiriam à risca as rotinas descritas no manual Instruções para os Criados*. Apesar de que consigo imaginar o dissimulado valete, Thomas Barrow, personagem da mini-série Downton Abbey , lendo e consultando esse livro todas as noites.

*Instruções para os Criados faz parte de uma coleção com doze títulos mais “sérios” como Sobre o exílio de Joseph Brodsky, Crítica da vítima de Daniele Giglioni e Pela supressão dos partidos de Simone Weil, e foram publicados pela editora Âynié.

Para quem, assim como eu, ficou curioso com o nome da editora, Âynié significa espelho em persa.

 

  • Instruções para os criados

Jonathan Swift

Editora Âynié

R$ 29,00

Ebook R$ 12,00

 

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