A Amiga Genial

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Aquilo que me faltava ela possuía de sobra, e vice-versa, num jogo contínuo de trocas e reviravoltas que, ora com alegria, ora com sofrimento, nos tornavam indispensáveis uma à outra.”

A Amiga Genial é o primeiro título da tetralogia escrita pela aclamada escritora italiana Elena Ferrante.

Há uma grande curiosidade em torno da escritora, que se recusa a participar de entrevistas e ser fotografada. É bom que seja assim porque este seu romance, de forte cunho autobiográfico, com certeza lhe traria sérios problemas com alguns dos personagens aqui retratados.

No primeiro livro, a autora relembra a sua infância e adolescência em um subúrbio pobre de Nápoles, onde “as mulheres brigavam entre si mais do que os homens, se pegavam pelos cabelos, se machucavam”. É nesse ambiente violento, desprovido de atrativos, que floresce entre a autora e uma colega de sala uma forte amizade.

As duas não poderiam ser mais diferentes, tanto de físico quanto de temperamento. Se Elena (autora/personagem) é loura e retraída, Lila é morena e arrojada. Mesmo assim, a timidez de Elena não a impede de buscar a companhia da despachada Lila e, aos poucos, os laços vão se estreitando.

A amizade de Elena e Lila é marcada pela competição, pelo desejo de ser – pelo menos aos olhos da outra – alguém de valor e respeito. Se Elena aprecia o jeito destemido da amiga e busca em Lila inspiração para vencer medos e inseguranças, por sua vez, Lila se alimenta desse apreço para sonhar cada vez mais alto e imaginar alternativas que as ajudem a fugir da mediocridade e truculência do cotidiano.

Ambas são boas alunas, apesar de Lila ter mais facilidade para aprender. No entanto, o seu temperamento rebelde e desafiador, que tantas vezes a colocou e tirou de enrascadas, fará com que a professora do ensino fundamental não a apóie e defenda apenas Elena, quando os respectivos pais estupidamente decidem que está na hora das meninas abandonarem a escola.

Lila ainda tentará por conta própria acompanhar os estudos da amiga, porém decide se reinventar para não cair numa vida sem esperanças idêntica à de todas as outras mulheres do bairro.

Com muita habilidade e segurança, a autora prende o leitor até a última página do livro, criando um suspense final que o deixa com vontade de começar imediatamente a leitura do próximo da série.

A editora não publicou todos os quatro títulos de uma só vez. Recentemente chegou às livrarias o segundo livro, “História do Novo Sobrenome”. Felizmente, já tenho o meu. O problema vai ser esperar pelo terceiro.

 

  • A Amiga Genial
  • História do Novo Sobrenome

Elena Ferrante

Biblioteca Azul

R$ 44,90 /cada

E-Book R$ 31,40

 

A Redoma de Vidro

Redoma-de-vidroHá posts que são difíceis de escrever como o quê! De tão bom que o livro é, tenho a impressão que tudo o que disser será pouco e banal. Estou falando de A Redoma de Vidro, da escritora norte-americana Sylvia Plath.

Trata-se de um romance semi-autobiográfico. Nele, a autora transfere para Esther, uma jovem brilhante e com um futuro promissor, sua luta contra a depressão e os recorrentes pensamentos suicidas.

Esther tem a impressão de desvanecer dentro de uma intransponível redoma de vidro. O que se passa fora dela é inatingível e desinteressante.

Sempre imaginei a depressão como um nevoeiro denso e pegajoso, impossível de ser compreendida por quem está fora dela. Entretanto, a autora por conhecê-la intimamente, desvenda-a com lucidez e clareza e o leitor acompanha angustiado o deslizar contínuo e sem freios de uma vida motivadora, repleta de possibilidades, para outra em que nada mais interessa ou faz sentido.

A escrita de Sylvia é muito visual e poética, mesmo quando retrata o tratamento de eletrochoques:

Dr. Gordon colocou duas placas de metal nas minhas têmporas (…) então alguma coisa dobrou-se dentro de mim e me dominou e me sacudiu como se o mundo estivesse acabando. Ouvi um guincho, iiii-ii-ii-ii-ii, o ar tomado por uma cintilação azulada, e a cada clarão algo me agitava e moía e eu achava que meus ossos se quebrariam e a seiva jorraria de mim como uma planta partida ao meio.

Ou uma tentativa frustrada de acabar com a própria vida:

Avancei rumo ao fundo, mas, antes que eu pudesse saber onde estava, a água tinha me cuspido de volta para o sol, as coisas cintilando ao meu redor como pedras semipreciosas – azuis, verdes e amarelas.

A Redoma de Vidro é um livro vigoroso e belo. Infelizmente sua criação não foi suficiente para auxiliar a autora a expulsar seus demônios internos. Algumas semanas depois da publicação do livro, Sylvia Plath suicidou-se.

 

  • A Redoma de Vidro

Sylvia Plath

Biblioteca Azul

R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

O que ganhei de aniversário em 2015

 

Ainda não tinha terminado de ler o último livro que ganhara das minhas ex-colegas da FTC, e já estava na hora de comemorar, de novo, o meu aniversário.

Apesar de não trabalharmos juntas há mais de cinco anos, continuamos nos reunindo para matar as saudades e celebrar os aniversários.

Nós formamos um grupo muito prático. A aniversariante sempre escolhe o que quer ganhar, e a mais organizada e responsável, recolhe o dinheiro, pesquisa preços e efetua a compra final, inclusive a do próprio presente.

Invariavelmente recebo livros, que vou intercalando com outros que eu mesmo compro ao longo do ano.

Como poderão constatar a minha lista é bastante eclética e entrarei 2016 com a “difícil” tarefa de ler:

A Última Viagem do Lusitania – Erik Larson

Despertar : um guia para a espiritualidade sem religião – Sam Harris

O Clube do Livro do Fim do Mundo – Will Schwalbe

A Vítima Perfeita – Sophie Hannah

A Redoma de Vidro – Sylvia Plath

Entre o mundo e eu – Ta Nehisi Coates

Além destes seis, ganhei de uma querida amiga o livro Primatas da Park Avenue, que também foi escolhido por mim. Esse tipo de acordo pode parecer estranho, mas simplifica muito as coisas. Nunca fico decepcionada com o que recebo, e quem me oferece fica feliz porque sempre acerta o presente.

 

O ventre da baleia

Quando alguém se apaixona pensa em tudo, menos no que está pensando – Sofocleto (pseudônimo de Luis Felipe Angell poeta, escritor e humorista peruano)

O-ventre-da-baleiaComo é possível uma paixão provocar um comportamento tão tresloucado? Era o que me perguntava perplexa enquanto lia O Ventre da Baleia de Javier Cercas.

Tomás é um professor assistente universitário, casado há cinco anos com Luisa que  recentemente soube estar grávida do primeiro filho do casal. Assim como o marido, ela também é professora universitária, e no início da história viajou para participar de um congresso no exterior.

Aproveitando a primeira tarde das curtas férias conjugais, Tomás vai ao cinema. Ao sair da sessão depara- se com uma antiga namorada de adolescência. A surpresa e satisfação de se reverem é mútua. Cláudia (esse é o nome da ex-namorada) convida Tomás para tomar uma cerveja e relembrar os velhos tempos. Como a conversa se estende saem para jantar e, ao final de uma noite regada a muito vinho, quando ele a deixa em casa, Cláudia o convida para subir e tomar o ultimo drinque. Inevitavelmente acabam por dormir juntos.

Para Tomás essa noite é um divisor de águas. Ele acredita ter reencontrado a mulher de sua vida, e, agindo como um rolo compressor desgovernado decide romper com Luisa,  assim que ela regressar da viagem.

Tomás está certo que Cláudia também deseja recuperar o tempo perdido, principalmente depois que ela lhe confidencia que terminou com o marido egoísta e agressivo.

Ao procurá-la no dia seguinte, Cláudia não atende as suas chamadas telefônicas. Inicialmente tenta  justificar o sumiço, mas com o passar das horas e depois dos dias, começa a acreditar que algo de muito grave aconteceu com ela.

Em apenas uma semana Tomás mergulha numa espiral de decisões atrapalhadas que culminarão por destruir não só sua vida familiar, como também a sua vida acadêmica.

No decorrer da narrativa ele e os amigos fazem diversas digressões literárias, analisam o sistema universitário espanhol e comentam sobre alguns filmes do diretor  Fritz Lang.  É  possível que essas conversas escondam a razão da escolha do título do livro, infelizmente não consegui perceber.

Será que o autor quis fazer um paralelo entre Jonas, o personagem bíblico que sobreviveu três dias dentro da barriga de uma baleia, e a reclusão forçada de  Tomás (provocada por uma forte gripe) e vivida por um prazo idêntico?  Se for esse o caso, achei a comparação um tanto ou quanto exagerada.

É correto dizer que os desejos, ou melhor dizendo as convicções de ambos sofreram uma grande reviravolta depois de saírem do confinamento indesejado: Jonas terminou por aceitar a missão que lhe fora confiada, e Tomás expurgou a paixão que o envenenara, apesar de suas “feridas” demorarem ainda algum tempo para cicatrizar.

A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. ( Cesare Pavese)

Dizem que O ventre da baleia tem um quê de autobiográfico. Desejei saber se os desabafos narrados no livro revelavam algum conflito vivido pelo autor como professor universitário ou se eram algum tipo de mea culpa sentimental.

Dizem também que esta é uma obra menor de Javier Cercas, e que excepcional mesmo é Os soldados de Salamina. A conferir.

 

  • O ventre da baleia

Javier Cercas

Globo Livros – Biblioteca Azul

R$ 44,90

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