Enquanto um olho ri o outro chora

Ainda tenho caixas para abrir, roupas de cama para guardar e livros para arrumar nas estantes, mas faz quase um mês que não escrevo nada no blog e isso me incomoda.

A razão de tamanho descuido é que ando às voltas com mais uma mudança de apartamento. Não uma mudança tranquila de um bairro para o outro, mas uma mudança de cidade, para outro estado.

Depois de dezesseis anos morando em Salvador retornei ao Rio de Janeiro. Sempre soube que isso aconteceria um dia, mas em algum momento, que não sei bem precisar, deixei de sonhar com essa volta e abracei tudo o que Salvador generosamente me oferecia. Por isso, quando chegou a hora de embalar móveis, pratos e livros, senti-me confusa e dividida.

Antes de partir, antecipei diversos almoços de final de ano. Curioso é que sempre fiz piada desses encontros. No decorrer do ano procurava me reunir com os amigos para por a conversa em dia e dar boas risadas, mas à ultima hora alguém desmarcava. Finalmente, todos esses almoços se realizavam num único mês, como se o mundo fosse acabar e nunca mais fossemos nos rever. Agora, mesmo sabendo que estou apenas a duas horas de distância de avião, a possibilidade de não ver mais quem eu gosto e me faz bem, não parece tão absurda.

Apesar de não ter medo de recomeços – afinal, no âmago de toda mudança existe a semente de infinitas possibilidades – e me sentir feliz por estar de novo perto de parentes e amigos queridos, um dos meus olhos brilha de contentamento enquanto o outro chora de saudades.

(Imagens retiradas da internet: Salvador- Zarpo Magazine / Rio de Janeiro SB viagem)

Livros, lembranças e novas amizades

Tardes de autógrafos são excelentes para rever amigos, conhecer pessoas e, na medida do possível, conversar sobre livros.

Em meados de junho lancei O Menino Enrolado na Livraria Argumento do Leblon, onde trabalhei como vendedora antes de vir morar em Salvador.

As redes sociais me ajudaram a rever amigos que não via há bastante tempo. Entre um autógrafo e outro, consegui matar as saudades das colegas do Colégio Teresiano e saber um pouquinho do que fizeram nas ultimas décadas. (Tanto tempo assim? A alegria que senti ao vê-las lembrou-me dos nossos reencontros após as férias.)

Foi assim que soube que Ana Cristina Leonardos havia publicado três livros: dois de poesia (“Porto Breve” e “Tempo Outro”) e outro com as memórias afetivas das viagens que fez ao Líbano (“Longe”).

Conheci também Gabriela Leão, uma jovem escritora que, vencendo a timidez, gentilmente me ofereceu o seu primeiro romance policial, A mulher no lago.

De volta a Salvador e ainda no avião, surpreendi-me com a prosa instigante da autora.  Não o larguei até terminar a trama muito bem urdida por Gabriela.

Sorrio ao lembrar o timing perfeito, mas no dia em que cheguei ao fim recebi pelo correio um envelope pesado contendo os três livros de Ana Cristina.

Recordei as nossas conversas animadas durante o recreio, e tive a certeza que os livros refletiriam o temperamento reflexivo e o apreço pelo Conhecimento de minha amiga.

Gostei muito de sua poesia, especialmente aquela encontrada em o “Tempo Outro”, e que se intercala com o trabalho fotográfico de outra amiga querida, a juíza Vera Lage.

Em seu livro “Longe – memórias de um Líbano recente”, Ana Cristina relata a saga da família do marido forçada a se espalhar pelo mundo para fugir dos conflitos de uma guerra civil. Estas lembranças remeteram às minhas, e de quando por razões bem menos traumáticas, mas mesmo assim dolorosas, meus pais se mudaram para o Brasil com as filhas.  Assim como o marido e as cunhadas da autora, também procurei me integrar ao cotidiano do novo país, sem, no entanto, esquecer as raízes culturais que forjaram a minha identidade e caráter. Acredito ter encontrado o equilíbrio.

A Mulher no Lago, Porto Breve, Tempo Outro, Longe… Para mim, os livros são como pontes. Ajudam a recuperar antigas amizades e auxiliam no surgimento de outras, como não amá-los?

E não é que o livro voltou?

Rio-das-FloresRecebi recentemente a visita de Marta*, uma amiga que não via há muito tempo. Ela se mudou para outra cidade deixando aqui um relacionamento que não era mais amoroso.

De passagem por Salvador, quis me devolver algo que era meu. E mais não disse.

Sua fisionomia mantinha o mesmo sorriso sereno e acolhedor, mas os cabelos agora estavam curtos e revelavam uma cor prateada. Admirei sua coragem.

Quem nos visse diria que tínhamos nos encontrado na véspera, tal era nosso entendimento. Segurei a curiosidade enquanto pude, até que não resisti, e perguntei o que ela queria me entregar. Ao pegar o embrulho notei tratar-se de um livro. Era Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares. Nem me lembrava mais!

Rindo, citei o ditado que diz existirem dois tipos de idiotas: o que empresta livros e aquele que devolve. Mas ali estávamos nós para desmentir o provérbio.

Então, ela pegou o livro e o abriu para me mostrar que o mais importante estava dentro.

Entre as páginas, escondia-se um marcador de livros que meu filho desenhou e me ofereceu num longínquo Dia das Mães. Tinha também um envelope azul com duas fotografias tiradas no Vale do Capão. Na primeira, meu marido e eu estávamos prontos para iniciar uma caminhada sob um sol inclemente, e na segunda aparecia apenas minha cabeça, porque o corpo estava submerso nas águas refrescantes de uma piscina natural cavada na rocha.

O seu gesto me sensibilizou profundamente. Imaginei-a olhando para o livro, por quase dez anos, lembrando que precisava devolvê-lo.

Quantos livros eu emprestei – movida pelo entusiasmo de querer compartilhar uma leitura – e que jamais serão restituídos.

Mas para Marta as minhas estantes estão liberadas. Ela pode escolher quantos livros quiser. Tenho a certeza que o retorno de cada livro será a celebração de uma duradoura amizade.

*Nome fictício

O gosto do morango

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Assim é a vida. Há os que apoiam e os que discordam, os que aplaudem e os que vaiam, mas recentemente os brasileiros se uniram para elogiar as Paraolimpíadas realizadas no Rio de Janeiro.

Durante onze dias, atletas de diversas nacionalidades e com as mais variadas limitações físicas se superaram em provas que a maioria da população nem se arrisca a praticar. Foco, entusiasmo, determinação, perseverança foram atributos que inspiraram e nos forçaram a refletir sobre o que está sendo feito e o que precisa melhorar para acolher os portadores de deficiências físicas e mentais no dia a dia de uma cidade.

Por essa razão, gostei da feliz coincidência de O gosto do morango, escrito pela baiana Nathalie Guerreiro, ter sido lançado nessa época.

Com muita sensibilidade a autora conta como foi a adaptação de Eduarda, uma menina com dificuldades de locomoção à nova escola. Na verdade foi uma dupla adaptação, porque ela também havia mudado de país.

A primeira reação das crianças não foi das mais simpáticas. A chegada de quem é diferente ou estrangeiro, num grupo onde todos se conhecem, costuma gerar desconfiança.

Mas o gesto de amizade de uma colega fez com que os demais se aproximassem de Eduarda e, ao conhecê-la melhor, deixassem o estranhamento de lado e a incluíssem na turma.

Pode ser feito um paralelo entre o legado das Paraolimpíadas e a mensagem de O gosto do morango. Ambos estimulam a inclusão e nos fazem refletir sobre como uma sociedade se prejudica quando adota um comportamento acomodado e excludente.

Está mais do que na hora de acolhermos as diferenças dos outros para que eles passem a ser nós.

 

  • O gosto do morango

Nathalie Guerreiro

Ana Maria Moura (ilustrações)

Solisluna Editora

R$ 49,90

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