Elas vêm da Bahia

Eu Vim da Bahia

Minha intenção inicial era falar apenas da recém-lançada coleção EU VIM DA BAHIA da Caramurê Publicações.

Composta de seis títulos, ela apresenta personalidades baianas que talvez o jovem leitor não conheça ainda.

É verdade que quase todo mundo aqui na Bahia já ouviu falar no poeta Castro Alves. Se não leu a sua obra poética, pelo menos sabe onde fica a praça que leva seu nome e possui uma das vistas mais bonitas da baia de Todos-os-Santos, além de ser ponto de encontro dos trios elétricos em dias de Carnaval.

Há, no entanto, outros nomes menos populares como o do geógrafo e historiador Theodoro Sampaio. Os outros personagens contemplados pela coleção são o educador Anísio Teixeira, a enfermeira Ana Nery, a mãe de santo Tia Ciata e o geógrafo Milton Santos.

A coleção é muito bonita, feita no maior capricho pelo artista plástico e editor Fernando Oberlaender.

Gostei muito de saber que o papel utilizado para imprimir as histórias foi produzido a partir de plásticos reciclados. Ele também é especial porque não rasga e não molha, sendo perfeito para ser manuseado por muitas mãozinhas infantis.

Mas algo mais chamou minha atenção. Corre nos meios de comunicação um movimento intitulado #AgoraÉqueSãoElas, no qual as mulheres são convidadas pelos homens a utilizar o espaço onde eles costumam escrever para falar de suas conquistas e desafios.

O site da Publishnews disponibilizou um artigo de Maria José Silveira. Segundo a escritora, o tratamento de gênero é desigual inclusive no universo literário:

A literatura escrita por mulheres brasileiras é muito menos conhecida do que a literatura escrita por homens brasileiros”.

Pode até ser verdade, mas com certeza isso não se aplica à literatura infanto-juvenil. Coincidência ou não, a coleção EU VIM DA BAHIA é formada só por escritores mulheres: Adelice Souza, Ayêsca Paulafreitas, Lena Lois, Mabel Velloso, Maria Antônia Ramos e Neide Cortizo. Quanto aos ilustradores, as mulheres são a maioria: Daiane Oliveira, Janete Kislansky, Neide Cortizo e Rebeca Silva, “contra” Mike Sam Chagas e Paulo Rufino.

Palmas para elas, palmas para o editor. Aqui na Bahia as mulheres vêm na frente!

 

  • Ana, meu avô e eu (Ana Nery)

Maria Antônia Ramos Coutinho / Janete Kislansky

  • Cecéu, Poeta do Céu (Castro Alves)

Adelice Souza / Daiane Oliveira

  • O Menino e o Globo ( Milton Santos)

Ayêska Paulafreitas / Mike Sam Chagas

  • Tia Ciata e um sonho de menina (Tia Ciata e a história do Samba)

Lena Lois / Paulo Rufino

  • Quem está aí? (Anísio Teixeira)

Neide Cortizo (texto e ilustrações)

  • Theodoro, uma viagem no ontem (Theodoro Sampaio)

Mabel Velloso /Rebeca Silva

 

(cada título custa R$ 34,00)

 

 

 

 

 

O homem que sabia a hora de morrer

O-homem-que-sabia-a-hora-de-morrerLi em algum lugar uma crítica elogiosa ao livro “O homem que sabia a hora de morrer”. Não conhecia a autora, Adelice Souza, o que não é de se estranhar, porque por ser baiana e não fazer parte do ‘sudeste maravilha’, o seu trabalho ainda não foi descoberto no restante do país. No entanto, isso não irá demorar muito, pois foi com este mesmo livro que a escritora concorreu ao prêmio Jabuti de 2013 na categoria juvenil*.

O titulo me fisgou desde o início. Quanto à capa fiz algumas restrições. Achei-a escura, sombria, e quando terminei de ler o livro achei que não combinava com o seu interior. Afinal, as histórias narradas eram luminosas e repletas de poesia: “Olhava a avó com os ossos cansados, e a fadiga era boa: veio do uso pensei. Usou os ossos, requebrou o esqueleto, rebolou as ancas, foi feliz a avó, houve dança”.

Apesar da autora se deter um pouco mais  no avô Lau – aquele que sempre soube quando ia morrer – fala também, com muito carinho, dos outros avós. As recordações são singelas, mas fortes. Pessoas simples tornam-se gigantes ao serem retratadas pelo seu olhar amoroso. Lugares despretensiosos e acolhedores são apresentados e me deixaram com uma vontade grande de os conhecer.

Neste livro juvenil, a autora fala de coisas antigas, de uma tradição que vai se perdendo a cada dia: “não se deve escrever nada em tronco de árvore, nem mesmo o nome do enamorado dentro de um coração. A árvore chora seiva, sente dor e o amor não vinga“. Mas Adelice fala principalmente dos afetos generosos entre gerações, atuais e eternos, e que darão bons frutos enquanto forem relembrados e vividos com saudade.

* O prêmio acabou sendo ganho por outro escritor baiano, Aldri Anunciação, com o livro NAMÍBIA, NÃO!

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